quinta-feira, 31 de maio de 2012

DA LEI À GRAÇA


DA LEI À GRAÇA
Por:
Glenio Fonseca Paranaguá


A lei foi dada por meio de Moisés, mas a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo. João 1:17. VFL
A Bíblia está dividida em dois testamentos. O Antigo Testamento é fundamentalmente a escritura da lei, enquanto o Novo Testamento é o pacto da graça. Conquanto o Velho Testamento trate muito da graça, o seu leito preferencial implica nos princípios da lei. Moisés, com as leis, é a marca da antiga dispensação. Por outro lado, o Novo Testamento, não revogando a lei, cuida especialmente do projeto sublime da graça, por meio de Jesus Cristo. A mensagem essencial da Nova Aliança é a graça de Deus com sua plena realização em favor do homem.
A lei de Moisés é antes de qualquer coisa um diagnóstico da natureza humana. Ela veio para revelar a incapacidade do ser humano de se salvar pelos seus próprios méritos. Uma vez que nos tornamos incapazes de cumprir literalmente os ditames da lei, fica impossível a nós chegar ao Reino de Deus por meio da prática da lei. Sendo as exigências da lei rigorosas e nossa condição de satisfazê-las absolutamente precária, torna-se inviável a salvação por intermédio da lei. Na visão que o Espírito Santo deu a Paulo, a lei veio para trazer o conhecimento perfeito do pecado e fazê-lo volumoso diante de nossos olhos. Não homem nenhum que, por fazer o que a lei manda, possa ser declarado justo diante de Deus, pois a lei simplesmente mostra o nosso pecado. A lei veio para aumentar o pecado. Romanos 3:20 e 5:20a VFL. Como mostra a Bíblia, a função da lei é ressaltar a gravidade da pecaminosidade humana e jamais propiciar a salvação.
Entretanto, ninguém poderá chegar ao Reino de Deus sem a salvação. Sendo assim, Deus enviou Jesus Cristo cheio de graça e verdade para nos salvar exclusivamente por meio de sua graça. Temos como princípio de que a graça consiste na realização soberana de Deus em benefício do indigno pecador. A graça só é graça quando Deus realiza tudo e dá tudo em favor do desmerecido. Enquanto a lei exige estrita precisão no cumprimento de suas exigências, a graça satisfaz todos os requisitos da lei em Cristo e voluntariamente imputa as condições realizadas ao transgressor incompetente. A nossa salvação é pura dádiva graciosa de Deus. A essência substancial da doutrina da graça é que Deus é favoravelmente em nosso benefício. Deus se inclina propício e benigno em socorro do desprezível pecador. Alguém já disse que a graça é algo mais do que favor imerecido... graça é favor demostrado onde absoluto demérito na pessoa que a recebe.
Nas leis de mercado, a troca lucrativa movimenta o comércio. Tanto o vendedor como o comprador devem perceber alguma vantagem. Não pode haver negócio sem o câmbio dos interesses proveitosos. No Reino de Deus as vantagens ficam apenas do lado do homem. A graça permuta a santidade de Deus pelo pecado humano. O valioso pelo vil. Deus assume os pecados da natureza humana em Cristo, perdoando toda a rebeldia, e recompensando o pecador com a santa justiça imputada graciosamente. De fato há uma doação e não uma partilha. O princípio da graça é transformar o débito em crédito, a miséria em abundância, a fraqueza em força, a enfermidade em saúde, o pecado em santidade, o inferno em céu. A graça não negocia com o homem na base do troco, nem Deus aceita gorjeta. Nada que não seja gratuito é seguro para os pecadores... A não ser que sejamos salvos somente pela graça, não podemos absolutamente ser salvos, enfatiza Charles Hodge. Tudo o que Deus tem para nós é oferecido gratuitamente. No Reino de Deus não há prestações ou promissórias a serem resgatadas, nem o nome fica seprocado.
Entretanto, depois de sermos salvos pela graça, pode-se correr o risco de pretendermos a santificação mediante as obras da lei. Muitas vezes me vejo tentando ser aceitável diante de Deus, por meio de meu desempenho. É muito sutil a passarela do empenho. Muitas vezes o zelo diligente exibe sua performance, na tentativa de capitalizar algum dividendo. Alguns homens que tinham vindo da região da Judéia estavam ensinando os irmãos e diziam: Se vocês não forem circuncidados, de acordo com o costume de Moisés, não poderão ser salvos. Atos 15:1 VFL. A igreja nascente mal saía da casca do ovo e já enfrentava as bitolas da tradição judaica nas leis de Moisés. Sempre achamos que a graça não é suficiente para concretizar a obra da salvação, precisamos dar uma mãozinha neste assunto. Parece que Deus não é competente para completar a obra que começou em nós. É muito comum apelarmos para os nossos méritos transformados pela graça, a fim de cooperar com a obra da graça no desenvolvimento de nossa salvação. Achamos que a salvação pode ser mediante a graça, mas a santificação fica em parte por nossa conta. Paulo, escrevendo aos crentes da Galácia, fica surpreso com a atitude deles quando indaga: Será que vocês são tão tolos que, tendo começado uma vida com o Espírito, estão agora se aperfeiçoando com as suas próprias forças? Gálatas 3:3 VFL.
Sabemos que a regeneração do homem é obra exclusiva da graça de Deus, mas a santificação do homem é também plena expressão da graça de Deus. Alguém já escreveu que a regeneração é pela graça mas a santificação é pelas obras. Porém, a Bíblia mostra que tanto a regeneração como a santificação são obras suficientes da graça. Pois vocês são salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de vocês, é dom de Deus; não por obras, para que ninguém se glorie. Que o próprio Deus da paz os santifique inteiramente. Que todo o espírito, a alma e o corpo de vocês sejam conservados irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo. Aquele que os chama é fiel e fará isso. Efésios 2:8-9 e 1Tessalonicenses 5:23-24 NVI. Quando as Escrituras afirmam que o próprio Deus é o agente da santificação, elas sustentam que a graça é a causa desta obra. Contudo, esta graça não deixa o homem pasmo e inativo. A graça de Deus operante no homem não o torna indolente e contemplativo.
Aqui, entretanto, precisamos verificar a diferença entre as obras da lei e a operação da graça na vida do crente. Não existe graça inoperante. Não há cristão genuíno apático ou negligente. Mas a distinção entre os executivos da religião e os laboriosos da graça se verifica em três aspectos: 1ª) A glória. O religioso esforçado valoriza a sua desenvoltura e conta ponto com o seu encargo, buscando os aplausos. Mas o crente da graça sabe que o seu trabalho é fruto da operação de Deus e portanto, o louvor pertence a Ele. 2ª) A força. Na execução da tarefa religiosa o esforço humano causa cansaço e desânimo, enquanto o homem da graça ganha força na sua fraqueza. Quando o poder é de Deus não há desencorajamento. 3ª) A meta. O resultado final de um religioso é o êxito de sua interpretação. O sucesso de sua missão é o salário de sua realização. Porém, a finalidade última do laborioso da graça é a glória de Deus, quer se encontre na prisão ou no palácio. Como John Newton, podemos dizer: Não sou o que posso ser, não sou o que devo ser, não sou o que quero ser, não sou o que espero ser; mas agradeço a Deus porque não sou o que outrora era, e posso dizer agora como o grande apóstolo: Mas pela graça de Deus sou o que sou. E a sua graça que Ele me deu, não foi desper-diçada. Ao contrário, trabalhei muito mais do que todos os apóstolos. (Embora não tenha sido eu mesmo quem trabalhou, mas a graça de Deus que estava comigo.) 1Coríntios 15:10 VFL.

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