segunda-feira, 28 de maio de 2012

PERSONAM TRAGICAM


PERSONAM TRAGICAM
Por: Glenio Fonseca Paranaguá


Tito Júlio Fedro contou uma fábula da raposa e a máscara de tragédia: Personam tragicam forte vulpes viderant: "O quanta species," inquit, "cerebrum non habet!" Certa raposa encontrou, fortuitamente, uma máscara de tragédia e, de repente, ex-clamou: Oh! Que bela cabeça! Mas não tem miolos!
Nada pode ser mais trágico do que a tragédia das aparências. Um disfarce bem feito para ocultar a realidade, geralmente causa muitos males. A hipocrisia consome muita maquiagem para dissimular a verdade dos fatos. Um santo pintado disfarça os defeitos da madeira. Um bom verniz consegue encobrir muitas falhas na textura das fibras. Uma máscara de piedade pode ser a dissimulação mais ardilosa de um coração podre. Quanta gente que finge ser santo só para receber os aplausos da platéia! As velhas raposas sempre procuram seus disfarces preferidos. Stephen Crites assevera que certamente poucos momentos mais propensos ao auto-engano, do que aqueles nos quais as pessoas estejam aspirando e se esforçando por serem honestas. O mal sempre se fantasia de bem para dar o seu bote. Os vícios precisam se travestir de virtude a fim de merecer crédito, e deste modo, o auto-engano é o primeiro artifício para se enganar os outros. Jesus focalizou o lobo enroupado de ovelha com o firme propósito de enganar o rebanho. Acautelai-vos dos falsos profetas, que se apresentam disfarçados em ovelhas, mas por dentro são lobos roubadores. Mateus 7:15.
A religião é um palco bem montado para o espetaculo das falsificações. Muitos atores da tragédia espiritual, mascarados com a fantasia da santidade, fingem viver a mais sublime experiência de piedade celestial. Não pretendo aqui esquecer-me de mim mesmo, sendo apenas cruel com os outros. Eu tenho sofrido na carne a luta deste drama. Quantas vezes percebo que estou envolvido no ocultamento de cadáveres. Venho observando com freqüência que o meu investimento está assiduamente voltado para a preocupação com as aparências. Prefiro ser melhor diante dos homens do que ser autêntico diante de Deus. Como diz Cornelius Plantinga Jr, O auto-engano é um fenômeno sombrio através do qual puxamos a coberta sobre alguma parte de nossa psiquê... Asseveramos, adornamos e elevamos o que sabemos ser falso. Tornamos belas as realidades feias e compramos a versão maquiada. É muito mais fácil ver os defeitos dos outros do que tratar de nossa própria deformação, por isso Jesus salientou: Hipócrita, tira primeiro a trave do teu olho e, então, verás claramente para tirar o argueiro do olho de teu irmão. Mateus 7:5. Não podemos esquecer que a maior hipocrisia frisa sempre a hipocrisia dos outros, a fim de sepultar as maiores falhas de nosso próprio caráter, pois um hipócrita é uma pílula dourada composta de dois ingredientes: desonestidade natural e simulação artificial. Portanto, és indesculpável, ó homem, quando julgas, quem quer que sejas; porque, no que julgas a outro, a ti mesmo te condenas; pois praticas as próprias coisas que condenas. Romanos 2:1. Foi por isso que Jesus bateu de frente com todo esquema de dissimulação. Ele nunca amparou qualquer forma de aparência, sendo extremamente severo com a figueira que mostrava as suas folhas sem os devidos frutos. Jesus não amaldiçoou a figueira por não ter frutos, mas porque ela fingiu ter frutos apresentado a folhagem. Sempre que as figueiras têm folhas, elas também devem ter frutos. A sentença pesada de Jesus pretendia condenar as aparências. Machado de Assis conta de um espartano, convidado a ouvir alguém que imitava o canto do rouxinol, respondeu friamente: ouvi o rouxinol. As aparências são sempre indecentes.
Dennis e Barbara Rainey contam a história de um jovem que tinha acabado de se formar advogado e instalou um escritório, orgulhoso de poder exibir a placa na frente. Em seu primeiro dia de trabalho, sentou-se à mesa e deixou a porta aberta, imaginando como conseguiria seu primeiro cliente. Ouviu, então, o ruído de passos no corredor em direção ao escritório. Evitando que seu cliente potencial percebesse que era o primeiro, o jovem advogado pôs o fone no ouvido e falando em voz alta simulou uma conversa como se alguém tivesse telefonado. "Oh, sim, senhor! tenho muita experiência em direito comercial... Experiência em tribunais? Sim, claro, tenho trabalhado em vários casos." O ruído dos passos se aproximou da porta. "Tenho ampla experiência em quase todas as categorias do direito trabalhista" continuou, falando alto o bastante para seu iminente visitante ouvir. Finalmente, com os passos chegando à porta, respondeu à hipotética pergunta: "Caro? Oh, não senhor, sou muito razoável. Estou informado de que meus honorários são os mais baixos da cidade." O jovem advogado pediu desculpas por sua "conversação" e, tapando o fone para não ser ouvido pelo "cliente que estava na linha", atendeu o visitante que estava diante da porta. Confiante e amável disse: "Sim, senhor, posso servi-lo?"
- "Bem, o senhor pode" disse o visitante com um sorriso maroto. "Sou da companhia telefônica, estou aqui para ligar o seu aparelho!"
O verdadeiro cristianismo não suporta aparências. Jesus veio para tirar a máscara da exterioridade. Ninguém precisa fingir o que não é, pois a graça de Deus busca os pecadores mais indignos. No reino de Deus não há lugar para atores, mas para pecadores que se arrependem. Não é preciso inventar moralidade quando se é justificado pelo sacrifício gracioso de Jesus. A autenticidade do Evangelho parte da confissão sincera: Tem misericórdia de mim, miserável pecador. Só a misericórdia de Deus pode arcar com as misérias humanas. Por causa da misericórdia o Calvário não se tornou um fórum de condenação, senão um tribunal de libertação. Mas a misericórdia de Deus é misericórdia santa, que sabe perdoar o pecador, porém não protegê-lo; é um santuário para quem se arrepende, e não para quem dele presume.

Deus em sua graça aceita o pecador mais torpe e o leva ao arrependimento mais sincero, a fim de viver a vida mais transparente. Diante da graça de Deus ninguém precisa polir a sua aparência nem lustrar a sua imagem. Uma vez aceito pelos méritos suficientes da justiça de Cristo não é mais necessário cobrir-se com a capa do farisaísmo religioso. Desde que Cristo se tornou a nossa justiça, fomos revestidos com o manto sublime de sua própria vida. Deus nos identificou juntamente com Cristo na sua morte, com o objetivo de nos levar a morrer para o pecado, e deste modo ganharmos a própria justiça de Cristo. Aquele que não conheceu pecado, Deus o fez pecado por nós; para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus. 2Coríntios 5:21. Jesus não caia sepultura nem limpa os copos apenas por fora. Quando Ele assume a responsabilidade da redenção por sua morte, assume também a responsabilidade da santidade com sua vida. Sendo assim, o cristão não é uma vitrine de exposição moralista, mas a manifestação da vida de Cristo em seu interior.

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