OS
CONTRATEMPOS DA
SALVAÇÃO
Por: Glenio Fonseca Paranaguá
Por: Glenio Fonseca Paranaguá
Disse-lhe
Pedro:
Ainda
que
todos
se
escandalizem,
eu,
jamais!
Marcos
14:29.
A
salvação é um estado de bem-aventurança concedido pela graça de
Deus ao pecador, mas não é um estado de perfeição ou
impecabilidade. Ninguém é salvo pelos seus méritos, nem as
virtudes humanas cooperam para que alguém receba as dádivas
divinas.
A
Bíblia mostra que não há salvação dos pecadores como resultado
de suas qualidades pessoais. Deus salva unicamente pela graça,
independentemente de qualquer valor individual. Porque
pela graça
sois salvos,
mediante a
fé; e isto
não vem de
vós; é dom
de Deus; não
de obras,
para que
ninguém se
glorie. Efésios
2:8-9.
Está
claro que Deus não salva o sujeito pelos seus merecimentos
subjetivos. Nem mesmo é o pecado em si a causa essencial da
salvação. Ainda que o pecado seja o motivo da queda humana, ele não
é a razão da salvação. A vontade soberana de Deus é a causa de
toda a criação e o seu amor incondicional a origem da salvação.
Ele nos salva movido por seu amor gracioso e nunca constrangido pela
pecaminosidade humana.
Todos
os que são salvos foram salvos unicamente pela graça, sem qualquer
expectativa de idoneidade. Nenhum pecador pode exigir a menor atenção
de Deus em pretexto de alguma virtude. Tudo o que Deus faz para a
salvação é somente pela graça. E, se
é pela
graça, já
não é pelas
obras; do
contrário, a
graça já
não é
graça. Romanos
11:6.
Até
aqui a boa tradição protestante está afinada. A questão começa
depois da salvação, quando a necessidade de auto-afirmação tenta
se sobrepor à afirmação do alto, de que a vida cristã é
exclusivamente pela graça. A demanda principia com o rompante de
autonomia. A atitude de Pedro é um exemplo potente dessa indigência
de singularidade.
A
individualidade é um fato incontestável. Todos nós somos únicos
como pessoas, todavia a nossa unicidade pessoal não garante a nossa
excepcionalidade relacional. A distinção baseada na superioridade
contraria a sensatez. Essa extravagância em pretender ser um modelo
tem causado as maiores catástrofes na história da igreja.
Nada
pode ser mais crítico do ponto de vista da salvação do que a
aspiração à originalidade. A presunção em se parecer
dessemelhante e mais qualificado que os outros é exatamente a
comprovação de nossa desqualificação como discípulos de Jesus
Cristo. Pedro se achava melhor e mais habilitado para testemunhar bem
de Cristo. O seu fracasso foi exatamente a sua extravagante ufania.
Pedro
foi sempre muito rápido no gatilho, mas também exagerava no calibre
da munição. Atirar numa rolinha com arma de caçar elefante é um
desperdício total e absurdo monstruoso. No caso de Pedro, o tiro
acabou saindo pela culatra e o pobre apóstolo se feriu em cheio.
Levi detalha com outras palavras o volume do projétil. Disse-lhe
Pedro: Ainda que
venhas a ser
um tropeço
para todos,
nunca o serás
para mim.
Mateus 26:33.
Quem
confia em si mesmo encontra-se no maior perigo. A questão agora não
é a autoconfiança para a salvação, mas depois de ter sido salvo.
Como é sutil a proeminência na vida dos crentes. A necessidade de
evidência sempre evidencia um defeito de personalidade muito grave,
por isso H W Beecher disse: "a presunção é a doença da alma
humana mais difícil de ser curada". Como é complicado desfazer
a tal auto-estima
Alguém
se referiu ao crente arrogante como shiita. Ele estava lamentando
daquele que se achava salvo e desprezava os outros que não criam
como ele crê. Além de desconsiderar aqueles que são diferentes,
ainda os afasta da salvação em Cristo. Há muita gente sofrendo com
a repulsa daqueles que se acham os melhores.
Jesus
propôs também esta
parábola a
alguns que
confiavam em
si mesmos,
por se
considerarem justos,
e desprezavam
os outros:
Lucas 18:9. Nessa
estória Jesus apresenta um religioso empavonado que exibe as suas
qualidades acima das suspeitas e um marginalizado, sem qualquer
reconhecimento. Os dois aparecem no templo para orar, e enquanto o
primeiro se justifica pelas suas obras, o segundo clama por
misericórdia.
Segundo
Jesus, o fariseu, que além de se justificar por meio dos seus
merecimentos, condenava o publicano, excluindo-o da sua agenda. Eu
não sou como os demais é a forma mais baixa e arrogante de
relacionamento que se pode manter com os outros.
Jesus
era uma pessoa singular, mas não se recusava estar com a
marginalidade. Ele não era pecador, contudo fazia questão de comer
com os pecadores excluídos. Aliás, essa foi uma das críticas
feitas pelos seus antagonistas. E murmuravam
os fariseus e
os escribas,
dizendo: Este
recebe pecadores
e come com
eles. Lucas
15:2.
Edward
Marbury disse que "uma boa opinião acerca de si mesmo é a
ruína de todas as virtudes". Ainda que um aidético seja curado
da sua enfermidade, ele nunca poderá ignorar os que são aidéticos.
O desapreço dos salvos para com os dispersos e diferentes é uma
acusação contra aquele que eles dizem ser o Salvador. Ora, se
Jesus, que não tinha pecado, comia com os pecadores, por que nós
rejeitamos os diferentes e dissidentes?
Além
do exibicionismo tão presente no meio dos crentes que querem ser
notáveis, até mesmo na humildade, outro contratempo que perturba a
compreensão da salvação é a falta de dependência de Deus. Pedro
mostrou a sua cara arrogante e o seu estilo auto-suficiente quando
quis ser único. Independência é a palavra que define melhor o
pecado.
Não
há
nada
mais
terrível
para
desbancar
a
pose
da
confiabilidade
pessoal
do
que
um
bom
fracasso.
Creio
que
a
graça
não
só
incrementa
a
obra
positiva
de
Deus,
como
patrocina
a
desconstrução
de
todo
o
sistema
de
autoconfiança.
Segundo
Deus,
a
auto-estima
é
lesiva
ao
homem.
Assim
diz
o
SENHOR:
Maldito
o
homem
que
confia
no
homem,
faz
da
carne
mortal
o
seu
braço
e
aparta
o
seu
coração
do
SENHOR!
Jeremias
17:5.
O
extermínio do autocontrole é uma obra de importância capital para
a verdadeira conexão com o Senhor. O ser humano só estará sujeito
por inteiro a Cristo se ele vier a se frustrar realmente consigo
mesmo. Nenhum treinador joga a toalha se o lutador tem chance de
vitória. É o fracasso do pugilista que exige o abandono da luta.
Pedro
precisava gorar. O aborto da esperança humana é o início da
salvação de Deus. Ninguém pode se render de fato ao Senhor se não
se decepcionar verdadeiramente consigo mesmo. A frustração é um
caminho assegurado à conversão.
Um
homem seguro de si mesmo é uma pessoa que dispensa a graça de Deus.
Alguém disse que temia muito mais o sucesso pessoal do que o
fracasso na vida dos crentes. Aquele que se basta nunca vai bater à
porta da misericórdia, e sendo assim, o insucesso é uma passagem
garantida para quem resolve desistir de se governar. Não há via
mais esperançosa de salvação do que aquela que desvia o ser humano
de sua autoconfiança.
Jesus
precisou evidenciar a Pedro que ele não era tão confiável como
pensava. Replicou-lhe Jesus:
Em verdade te
digo que,
nesta mesma
noite, antes
que o galo
cante, tu me
negarás três
vezes. Mateus
26:34. O Senhor procurou mostrar que a natureza
humana não merece crédito, uma vez que o coração é
essencialmente enganoso, e que uma declaração de fé não significa
uma demonstração da verdadeira fé.
Mas
Pedro estava coberto de certeza. Ele não via a sua falsa devoção,
já que se encontrava autocentrado. O sujeito autárquico, isto é,
aquele que governa a si mesmo e se basta, não consegue enxergar o
embuste do seu coração. Disse-lhe Pedro:
Ainda que me
seja necessário
morrer contigo,
de nenhum
modo te
negarei. E
todos os
discípulos disseram
o mesmo.
Mateus 26:35.
É
interessante como a presunção de autonomia instiga os outros. Uma
liderança auto-sustentável costuma produzir uma comunidade inchada.
A influência do Pedro abastado de autoconfiança desencadeou uma
reação dominó e todos os discípulos tinham o mesmo discurso. Há
um grande perigo para o povo quando os dirigentes se encastelam na
cadeira das formalidades legais. O legalismo é a camisa de força da
insanidade espiritual.
A
altivez precisa da queda. Não é boa a candidatura à
autodeterminação da vida. O ser humano bem-aventurado é aquele que
confia no Senhor; e sendo assim, o coração
do homem
traça o seu
caminho, mas
o SENHOR lhe
dirige os
passos. Provérbios
16:9. A vida espiritual autêntica depende
totalmente da soberania de Deus.
O
fracasso de Pedro foi a sua grande Universidade. Ele aprendeu que é
preciso morrer com o Senhor para poder viver pelo Senhor. Ninguém
pode confiar em si mesmo e ser um discípulo de Cristo. Graças a
Deus pelas derrotas na vida dos crentes, pois só a fraqueza pode
garantir a dependência da graça.
Paulo
foi primoroso quando transmitiu o ensino do Senhor sobre a
legitimidade da vida espiritual. Ele encontrava-se torturado com a
sua fraqueza pessoal e desapontado consigo mesmo: Então,
o Senhor me
disse: A
minha graça
te basta,
porque o
poder se
aperfeiçoa na
fraqueza. De
boa vontade,
pois, mais me
gloriarei nas
fraquezas, para
que sobre mim
repouse o
poder de
Cristo. 2
Coríntios 12:9.
Não
é a força e sim a fraqueza que determina o derramamento do poder de
Deus na vida dos seus filhos. Aquele que se acha forte está correndo
um grande risco. O fracasso na vida dos filhos de Deus é a chance de
levá-los à única fonte do poder. Só o Senhor poderá firmar os
passos dos seus filhos. Ele faz
forte ao
cansado e
multiplica as
forças ao
que não tem
nenhum vigor.
Os jovens se
cansam e se
fatigam, e os
moços de
exaustos caem,
mas os que
esperam no
SENHOR renovam
as suas
forças, sobem
com asas como
águias, correm
e não se
cansam, caminham
e não se
fatigam. Isaías
40:29-31.
Todo
aquele que foi salvo pela graça, sabe que sua vida cristã depende,
do princípio ao fim, da graça de Deus, em meio às suas grandes
fraquezas. Paulo foi também categórico ao dizer que tudo em sua
vida e ministério dependia tão-somente da graça de Deus. Mas,
pela graça
de Deus, sou
o que sou;
e a sua
graça, que
me foi
concedida, não
se tornou vã;
antes, trabalhei
muito mais do
que todos
eles; todavia,
não eu, mas
a graça de
Deus comigo.
1 Coríntios
15:10. Graças ao Pai pelas nossas decepções!
Nenhum comentário:
Postar um comentário