O
PODER FASCINANTE DO
PODER
Por: Glenio Fonseca Paranaguá
Por: Glenio Fonseca Paranaguá
Pois
quem é que te
faz sobressair? E que
tens tu que não
tenhas recebido? E, se
o recebeste, por que
te vanglorias, como se
o não tiveras recebido?
1 Coríntios 4:7.
O
ser humano encontra-se contaminado pelo vírus da grandeza. Ninguém
está imune a esse agente contagioso e são poucos aqueles que
conseguem soro satisfatório para neutralizar seus efeitos letais. A
necessidade de prestígio tem financiado as táticas ardilosas de
distinção para levar muita gente encurtada ao auge da fama.
Ninguém
gosta do ostracismo nem do lugar comum. A burguesia é vulgar demais
para o estilo elevado da alta nobreza. Todos nós sofremos com os
micróbios invisíveis deste macro dimensionamento, pois há uma
tendência inata na raça humana pelo pódio.
O
pecado da espécie adâmica é assinalado por um desejo teomaníaco
de consideração. No fundo do desempenho reside uma vontade de ser
reconhecido. Mesmo a atuação mais ingênua corre o risco da
arrogância. A humildade pode ser uma máscara para ocultar os
sentimentos disfarçados da importância humana.
Todos
os dias eu enfrento algum anseio de elevação ou alguma carência de
reconhecimento. O pecado me deixou obcecado pelo quesito da estima.
Esse é um dos quocientes que mede o meu valor perante a opinião
pública. Todos nós somos pessoas carentes, por isso, os elogios se
prestam para negociar com a nossa estima no mercado da apreciação.
Quando alguém fala bem de mim, percebo que estou em perigo. Sou
muito vulnerável a esse jogo do poder que me faz reconhecido diante
da platéia. A minha valorização no conceito dos outros é uma
tática que me mantém escravo de um bom julgamento.
O
apóstolo Paulo indaga: Pois quem é
que te faz sobressair?
Se você e eu somos pessoas únicas, essa singularidade é uma dádiva
de Deus. Todos nós somos o resultado da seleção divina, e ninguém
consegue ir além do que lhe foi concedido. Veja como João Batista
vê esse ponto. Respondeu João: O
homem não pode receber
coisa alguma se do
céu não lhe for
dada. João 3:27.
Ora,
se alguém consegue se destacar nas atividades do Reino de Deus, deve
esse realce à graça. Tudo o que somos como filhos de Deus é
conseqüência direta dessa graça imerecida. A pergunta do apóstolo
é: o que você tem
que não tenha ganhado?
E o Rei Davi responde: Riquezas e glória
vêm de ti, tu
dominas sobre tudo, na
tua mão há força
e poder; contigo está
o engrandecer e a
tudo dar força. 1 Crônicas
29:12.
Deus
é a causa primária de todas as coisas, mas ele não é a origem do
pecado. A vontade é um atributo natural do ser humano, entretanto o
desejo de ser como Deus é uma aberração desse atributo. Deus fez
Adão e Eva como seres humanos à sua semelhança, sendo assim, não
havia probabilidade do gênero humano ser Deus. Esse desejo de ser
como Deus é a fonte da rebeldia pecaminosa.
A
contaminação do pecado desandou com a raça adâmica. Somos uma
espécie rebelada e viciada pelo poder. O deslumbramento por
grandeza, distinção e poder é uma cachaça na existência de cada
componente da humanidade. Observe o exemplo do rei de Tiro: Filho
do homem, dize ao
príncipe de Tiro: Assim
diz o SENHOR Deus:
Visto que se eleva
o teu coração, e
dizes: Eu sou Deus,
sobre a cadeira de
Deus me assento no
coração dos mares, e
não passas de homem
e não és Deus,
ainda que estimas o
teu coração como se
fora o coração de
Deus. Ezequiel 28:2.
Você
logo rebarba: isto é exceção. Não, isto é a regra. O ser humano
é um caçador permanente de poder. Sempre que alguém tiver a chance
de governar, vai usar da posse para se projetar. Mesmo um síndico de
barracos sofre com a pressão do poder.Nós não gostamos da
invisibilidade. Ser uma pessoa insignificante é complicado para a
valorização da personagem. Viver no camarote escondido da platéia
é algo muito difícil para quem busca os aplausos. Todos nós
gostamos dos holofotes e ninguém vive sem algum espectador.
Ser
um Zé ninguém, um zero à esquerda ou uma sombra no escuro é
qualquer coisa insuportável para uma espécie interesseira. Nós
gostamos de nos exibir. A religião é um terreno fértil para essa
casta que gosta de ostentar suas qualidades. O fariseu,
posto em pé, orava
de si para si
mesmo, desta forma: Ó
Deus, graças te dou
porque não sou como
os demais homens,
roubadores, injustos e
adúlteros, nem ainda como
este publicano; Lucas 18:11.
Aqui
está outra prova desta atitude enfatuada de excepcionalidade. Não é
coisa natural o afastamento voluntário do palco. Temos muita
necessidade de nos apresentar no show da vida e é extremamente
complexo tolerar a discrição. Viver no anonimato é uma arte que só
as pessoas que trazem os estigmas da cruz poderão suportar.
Nesse
mundo das apreciações é assaz importante você se sentir
importante quando alguém se importa com a sua importância. Mas aí
se encontra o perigo. Herodes foi alvejado quando o povo
clamava: É voz de
um deus, e não
de homem! Atos 12:22.
Naquele
instante os bichos tomaram conta da sua carcaça. Um homem mortal que
tenta se passar por Deus não tem alternativa, senão se tornar
gororoba de gusano. O pecado incha o ego a tal ponto que não há
estrutura capaz de conter uma soberba como essa. O egoísmo é a
obesidade dos desejos presunçosos.
O
problema é que o poder egoísta, muitas vezes, vem disfarçado de
simplicidade. A grande ameaça do poder não é sua badalação, mas
a sua sutileza. Por trás de muitos gestos aparentemente inocentes
reside uma grande necessidade de vanglória. É aqui que nós
precisamos investigar com mais cuidado esse assunto. Paulo indaga: E,
se o recebeste, por
que te vanglorias, como
se o não tiveras
recebido?
Qual
é a finalidade dos relatórios que damos aos outros? Informar as
atividades que foram realizadas seria muito bom se a exposição
ficasse apenas nesse terreno dos dados. A dificuldade aparece quando
vemos a imagem do realizador sendo glorificada junto com as suas
realizações. Agora é que o enigma precisa ser esclarecido. Por que
eu estou trazendo esta notificação a público? Qual é a verdadeira
razão do meu relato?
Muita
coisa que nós realizamos na igreja tem como fim a nossa promoção
pessoal. Jesus chamou a atenção para as ofertas que eram dadas com
o propósito do reconhecimento do ofertante. Quando, pois,
deres esmola, não toques
trombeta diante de ti,
como fazem os hipócritas,
nas sinagogas e nas
ruas, para serem
glorificados pelos homens.
Em verdade vos digo
que eles já receberam
a recompensa. Mateus 6:2.
Como
é forte a nossa carência de aceitação perante os outros. Luci
Shaw diz que "o problema do eu insaciável, a terrível e
corrosiva necessidade de aparecer, de ser conhecida e reconhecida
como detentora de dons naturais exclusivos, tem-me afligido durante
quase toda a vida adulta". A questão não é exclusivamente
dela, é minha também. Como eu gosto de ser benquisto perante os
meus espectadores.
O
poder de uma boa imagem é alguma coisa muito astuta. Todos nós como
cristãos devemos demonstrar o bom conceito da fé, mas isso não
significa que somos figurantes num papel que requer aclamação. Em
última análise a imagem que estamos refletindo é a influência da
pessoa de Cristo.
Jesus
nunca aceitou ser um sensacionalista nem fez qualquer coisa com o
objetivo de ser famoso. Quando realizava um sinal maravilhoso,
normalmente, pedia às pessoas beneficiadas que não divulgassem o
acontecimento. Por exemplo, na cura de um leproso; Ordenou-lhe
Jesus que a ninguém
o dissesse, mas vai,
disse, mostra-te ao
sacerdote e oferece, pela
tua purificação, o
sacrifício que Moisés
determinou, para servir de
testemunho ao povo. Lucas
5:14. Jesus trabalhava em silêncio sem qualquer propaganda. Ele não
procurava promover-se por meio de seu ministério, mas cuidava das
pessoas com o fim de torná-las inteiras, sendo tudo feito para a
glória do Pai.
Henri
Nouwen disse: "uma das maiores ironias da história da
cristandade é que os líderes sempre cederam à tentação do poder
– poder político, poder militar, poder econômico ou moral e poder
espiritual –, embora continuassem a falar no nome de Jesus". A
obsessão pelo poder na liderança cristã é uma afronta ao estilo
de servo, encarnado por Jesus. Pois o próprio
Filho do Homem não
veio para ser servido,
mas para servir e
dar a sua vida
em resgate por muitos.
Marcos 10:45.
Além
das sutilezas do poder das realizações e da imagem ainda temos o
lance do poder espiritual. É muito comum a fé ser usada como um
instrumento de dominação. O moderno empowerment da fé, isto
é, a atribuição de poder inerente à fé é um dos grandes
contratempos da saúde emocional da igreja contemporânea.
A
fé na fé é um deslocamento perigoso que se tem dado à questão do
poder. Sabemos biblicamente que o poder é um atributo de Deus. Não
há poder na fé, assim como não há poder na lâmpada. A energia
está no gerador e a lâmpada revela o poder do motor. O poder
espiritual é a ponte de relacionamento com Deus, onde a fé é
conectada à fonte.
Muitas
vezes nós queremos mostrar que somos pessoas de grande fé para
recebermos o reconhecimento dos nossos observadores. Com certeza é
uma precipitação contarmos os feitos de Deus realizados através de
nossa instrumentalidade, uma vez que as pessoas têm a tendência de
pagar o cachê àqueles que são visíveis. É preciso muita cautela
na divulgação dos sinais da fé, pois podemos embolsar a glória
que pertence a Deus.
Ainda
no terreno do poder espiritual podemos ganhar pontos pessoais quando
tentamos exibir a humildade como predicado particular. Mas nada é
mais falso do que uma humildade alardeada. Aquele que pretende
demonstrar a sua humildade acaba contaminando-a com a sua própria
vaidade.
A
humildade é aquela qualidade que você a perde quando percebe que a
tem. Toda exteriorização de humildade se constitui numa falência
dessa virtude. A humildade está relacionada com a dependência do
homem para com Deus, por isso só Deus sabe quem é realmente
submisso à Ele e dependente Dele. Muitos gostam de demonstrar algo
que eles acham que é humildade, a fim de angariar créditos para sua
pessoa.
Mas
a cruz é o único meio capaz de despejar a intenção de poder.
Eugene Peterson faz uma paráfrase do esvaziamento de Cristo, com as
palavras de Paulo: "Façam-me o favor!
Concordem entre si, amem-se
mutuamente, sejam amigos
sinceros. Não forcem a
passagem para ficar na
frente. Não agradem com
palavras para ficar por
cima. Fiquem de lado
para deixar que os
outros passem. Não tenham
obsessão de levar
vantagem. Esqueçam a si
mesmos e pensem em
si da mesma forma
que fez Jesus Cristo.
Ele ocupava uma posição
igual à de Deus,
mas não se tinha
em alta conta a
ponto de agarrar-se a
isso de qualquer maneira.
De modo algum. Quando
a hora chegou, ele
despojou-se dos privilégios
divinos e assumiu a
condição de escravo,
tornando-se humano".
O
poder é uma coisa fascinante para o ser humano, e nós queremos
comprovar o nosso poder a qualquer custo. Luci Shaw foi ainda mais
clara quando afirmou: "podemos falar interminavelmente sobre o
poder para o bem em oposição ao poder para o mal. Mas há muito
tempo já se sabe que, seja qual for a motivação, o poder pessoal
pode corromper, e a luta pelo poder em si mesmo quase sempre cria
conflitos que provocam a destruição ou aniquilação de outrem".
Para
terminar, vejamos as palavras do salmista em sua profundidade. Uma
vez falou Deus, duas
vezes ouvi isto: Que
o poder pertence a
Deus, Salmos 62:11. Deus falou apenas uma vez, mas
ele ouviu duas. Precisamos ouvir muito bem. O poder pertence
tão-somente a Deus. Alguém já disse que "deve ser
todo-poderoso o poder cuja força suficiente é a fraqueza". É
assim que podemos sintetizar Paulo: quando eu
sou realmente fraco então
poderei ser totalmente
forte, porque dependerei
apenas do poder absoluto
de Deus.
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