quinta-feira, 31 de maio de 2012

ARREPENDIMENTO, DÁDIVA OU DECISÃO?


ARREPENDIMENTO, DÁDIVA OU DECISÃO?
Por:
Glenio Fonseca Paranaguá



Ora, é necessário que o servo do Senhor não viva a contender e sim deve ser brando para com todos, apto para instruir, paciente; disciplinando com mansidão os que se opõem, na expectativa de que Deus lhes conceda não o arrependimento para conhecerem plenamente a verdade, mas também o retorno à sensatez, livrando-se eles dos laços do diabo, tendo sido feitos cativos por ele, para cumprirem a sua vontade. Ora, não levou Deus em conta os tempos da ignorância; agora, porém, notifica aos homens que todos, em toda parte, se arrependam; porquanto estabeleceu um dia em que de julgar o mundo com justiça, por meio de um varão que destinou e acreditou diante de todos, ressuscitando-o dentre os mortos. 2 Timóteo 2:24-26 e Atos 17:30-31.
A Bíblia considera o arrependimento como condição imprescindível na salvação. Não se pode falar da obra da conversão sem tratar da realidade profunda do arrependimento. Na conversão há dois requisitos indispensáveis: o arrependimento que esboça o aspecto negativo, o ato de abandonar o pecado, e a fé em seu aspecto positivo, apossando-se das promessas e dos benefícios da obra de Cristo. A vida cristã, por sua própria natureza e definição, representa algo totalmente diferente da vida que tínhamos anteriormente. A vida natural é basicamente rebelde e pecaminosa. Do ponto de vista bíblico, todos nós nascemos neste mundo contaminados pela perversão egoísta do pecado e espiritualmente mortos. A vida emocional da alma não expressa qualquer centelha de vida espiritual. Não há vida de Deus no interior do homem natural. Isto, portanto, digo e no Senhor testifico que não mais andeis como também andam os gentios, na vaidade dos seus próprios pensamentos, obscurecidos de entendimento, alheios à vida de Deus por causa da ignorância em que vivem, pela dureza do seu coração. Efésios 4:17-18. Os gentios, ou não convertidos, estão separados da vida de Deus. Há vida física e psicológica, mas não há vida espiritual. O homem natural encontra-se espiritualmente morto. Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados. Efésios 2:1.
A questão que levantamos inicialmente aqui, é: um morto espiritual pode se arrepender e crer genuinamente? O arrependimento e a fé são pré-requisitos para a regeneração ou são conseqüências oriundas da vivificação? Nós nos convertemos para sermos regenerados, ou porque somos regenerados nos convertemos? Será que o arrependimento, como condição da conversão, é uma dádiva de Deus ou decisão humana? Estas questões têm sido alvo de debates constantes na história da igreja. Há daqueles que sustentam a conversão como exigência para a regeneração, enquanto outros vêem a conversão como resultado da regeneração.
Ora, se o homem realmente está separado da vida de Deus e conseqüentemente morto em seu espírito, não há qualquer condição para que ele se arrependa e creia do ponto de vista espiritual. Ele primeiro tem que ser vivificado, mediante a Palavra de Deus, a fim de responder em seu espírito com o arrependimento e a fé.
O programa de Deus para a salvação do ser humano começa pela pregação da Palavra. Deus criou o mundo pelo poder de sua Palavra e salva as pessoas pela pregação da sua Palavra. Visto como, na sabedoria de Deus, o mundo não o conheceu por sua própria sabedoria, aprouve a Deus salvar os que crêem pela loucura da pregação. 1Coríntios 1:21. A pregação de Cristo crucificado é a munição eficiente e eficaz para toda arma de calibre que visa atingir o coração dos homens e não a sua pele. Se pretendemos alcançar os corações, devemos falar a Palavra de Deus enfocada na pessoa sublime de Jesus Cristo morto e ressuscitado. Esta é a mensagem que salva. Pois, segundo o seu querer, Ele nos gerou pela Palavra da verdade, para que fôssemos como que primícias das suas criaturas. Tiago 1:18. Pregando a Palavra da verdade do Evangelho, por meio da unção da graça, podemos tocar fundo no íntimo das pessoas, gerando a vida de Deus. Certamente a graça de Deus pode fazer qualquer coisa sem a pregação dos ministros, mas a pregação dos ministros não pode fazer nada sem a graça de Deus, insistia Matthew Henry. É ministrando a Palavra graciosa de Cristo crucificado e ressurreto, na unção do Espírito, que se pode gerar vida de Deus no coração morto pelo pecado.
A vivificação começa através da operação viva da Palavra. Pois fostes regenerados não de semente corruptível, mas de incorruptível, mediante a Palavra de Deus, a qual vive e é permanente. 1Pedro 1:23. A Palavra viva do Deus vivo gera vida nos corações mortos pelo pecado. Vivificados pelo poder do avivamento da Palavra, somos capacitados a reagir espiritualmente com as atitudes de arrependimento e fé. Cremos que Deus nos vivifica primeiro para que possamos nos arrepender e crer de todo o nosso coração. Um morto espiritual não possui qualquer estímulo espiritual. Como ensinava Augusto Strong, o homem arrepende-se de verdade somente quando aprende que o pecado o tornou incapaz de arrepender-se sem a ajuda da graça renovadora de Deus. Primeiro Deus nos dá vida de arrependimento e fé mediante a pregação da Palavra, para que nós, arrependidos de nossa antiga maneira de viver, alcancemos a condição permanente de arrependimento e fé. No enfoque da graça, arrependimento e fé são inicialmente dádivas que recebemos e não cláusulas a serem preenchidas.
Entretanto, o arrependimento e a fé são também uma resposta. Sempre que Deus nos vivifica com sua Palavra Ele nos dá arrependimento e fé que nos capacitam sinceramente a nos arrepender e crer de modo decisivo. Não se trata de uma dádiva passiva. Deus nos dá, pela graça, o arrependimento para que nós nos arrependamos profundamente. Ou desprezas a riqueza da sua bondade, e tolerância, e longanimidade, ignorando que a bondade de Deus é que te conduz ao arrependimento? Jesus foi para a Galiléia, pregando o Evangelho de Deus, dizendo: O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no Evangelho. Arrependei-vos, pois, e convertei-vos para serem cancelados os vossos pecados. Romanos 2:4 - Marcos 1:14-15 - Atos 3:19. A graça nos dá a atitude de arrependimento, para que nós tenhamos a oportunidade de exercer a decisão verdadeira de um profundo ato de arrependimento.

O arrependimento autêntico consiste na operação subjetiva de quebrantamento do coração, concedida por Deus em sua graça, e na ação objetiva de repudiar o pecado em razão dos propósitos de uma decisão pessoal. O arrependimento legítimo é dádiva de Deus e decisão humana. Não é correto atribuir neutralidade moral no processo do arrependimento. Somos responsáveis pelos nossos atos e não podemos deixar de responder ativamente com nossa aversão e nojo pelo pecado. O verdadeiro arrependimento consiste em ficar o coração quebrantado por causa do pecado e, em face desta compunção, romper definitivamente com a prática do pecado. Não voltar a fazer uma determinada coisa errada é a essência do mais verdadeiro arrependimento. Ali, vos lembrareis dos vossos caminhos e de todos os vossos feitos com que vos contaminastes e tereis nojo de vós mesmos, por todas as vossas iniqüidades que tendes cometido. Ezequiel 20:43. O pecado deve ser ocasião de grande tristeza, quando não tristeza em pecar. A pura e autêntica água benta não é aquela que os sacerdotes costumam borrifar sobre as pessoas conferindo graças, mas aquela que escorre dos olhos arrependidos, diante de Deus, confessando a desgraça do seu pecado. O Senhor Deus sempre nos concede o arrependimento para que nós vivamos intimamente arrependidos.

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