quinta-feira, 17 de maio de 2012

MERECIMENTO OU MISERICÓRDIA


MERECIMENTO OU MISERICÓRDIA
Por:
Glenio Fonseca Paranaguá

Porque Deus a todos encerrou na desobediência, a fim de usar de misericórdia para com todos. Romanos 11:32.
A grande luta do entendimento no âmbito da salvação, fica por conta dos nossos merecimentos. Isto é: Aquilo que pensamos que merecemos. Uma boa opinião sobre nós mesmos e o sentimento de que alguém está em dívida conosco geram a presunção de sermos foco do interesse especial de Deus. Sentimos que Deus está obrigado a nos salvar, já que foi Ele quem nos fez, e que não pedimos para ser criados. A bitola estreita do egoísmo humano presume que Deus está forçado a providenciar a salvação do pecador. O nosso grande senso de importância, bordado com direitos e reivindicações, assume uma postura exigente, fazendo com que a nossa salvação seja uma prerrogativa natural de nossas qualidades, e o reconhecimento divino, de que o seu débito, pode ser pago.
Muitos supõem que Deus se acha coagido com a determinação de salvar o ser humano. A salvação é vista neste caso como um direito. É apenas uma questão reivindicatória. Reclame os seus privilégios, pois Ele encontra-se comprometido com a obrigatoriedade de sua salvação. É uma questão apenas de regalia; recupere a dignidade que lhe cabe, exija seus direitos. Esta visão estrábica tem matizes mais suaves, mas sempre apresenta cobranças embutidas
no reconhecimento. É uma restauração imposta que exibe a profundidade da presunção humana. O sindicato espiritual da modernidade religiosa tem explorado as apelações e cobranças que põem Deus na parede. Hoje, está em voga, exigir de Deus as bênçãos, e fazer greve de fome e passeatas em vigília, se as respostas não corresponderem à solicitação. É muito comum o protesto que apela para reaver os direitos.
Na verdade o único merecimento que o homem tem é a condenação ao inferno. Do ponto de vista bíblico nós não temos qualquer vantagem. Somos pecadores indignos sem a menor distinção ou privilégio. Como dizia Blaise Pascal, nascemos iníquos; cada um tende a agradar a si mesmo, e a tendência de agradar ao eu é o início de toda desordem. Somos portadores de uma natureza essencialmente corrupta, que não tem condições de merecer a mais rudimentar atenção de Deus. O dilema humano não se fundamenta naquilo que o homem tenta parecer, mas naquilo que verdadeiramente ele é, quando está no escuro. E este quadro é profundamente desanimador, pois as conseqüências relacionadas a esta situação são drásticas. Paga-lhes segundo as suas obras, segundo a malícia dos seus atos; dá-lhes conforme a obra de suas mãos, retribui-lhes o que merecem. Salmo 28:4. O que merecemos é realmente o inferno. Por melhor que nos apresentemos, a verdade desmascara por completo a nossa presunção. Não há credenciais que assegurem a excelência de nossos direitos celestiais, pois, freqüentemente, usamos a dignidade como um manto que oculta as feridas do nosso coração. Sabe-mos que não temos merecimentos, mas ainda assim gritamos falsificando depoimentos e relatórios: O reino de Deus nos pertence por direito. Somos seus filhos e exigimos nossa herança!
É preciso baixar a bola. A verdade é totalmente outra. Não gozamos de direitos ou merecimentos, pois somente pela misericórdia de Deus somos atendidos. Ninguém pode apelar pelas suas razões ou justificar o seu próprio desempenho. Temos apenas a misericórdia de Deus para suplicar. O publicano, estando em pé, longe, não ousava nem ainda levantar os olhos ao céu, mas batia no peito, dizendo: Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador! Lucas 18:13.
A apelação é direito dos injustiçados, mas a súplica é o clamor dos miseráveis indignos. Sê propício a mim que sou vil, desprezível e infame. Precisamos ter a mesma visão do ladrão na cruz, quando esboçou a realidade de nossa essência. Nós estamos sendo punidos com justiça, porque estamos recebendo o que os nossos atos merecem. Mas este homem não cometeu nenhum mal. Lucas 23:41.
Eu sei que Deus não se encontra violentado em me considerar. Não há predicados ou atributos que requeiram sua deferência. Se Ele me ouve é por sua misericórdia, se Ele me salva é por sua graça. Não há qualificação que demande instância ou estima. Deus não possui hipoteca a ser liquidada. Ele não tem saldo devedor, nem age sob coação. Tudo que Deus faz é movido por seu amor misericordioso, que não embute vantagens, constrangimentos ou exigências. Ele não busca interes-ses nem se vê compelido pela obrigação. O cristão deve se recordar sempre que as infinitas e incondicionais misericórdias de Deus são imensamente maiores do que suas misérias. Pois grande é a tua misericórdia para comigo e me livraste a alma do mais profundo poder da morte. Salmo 86:13. A misericórdia de Deus jamais pode ser perfeitamente contabilizada. Deus sua ira por peso, mas a sua misericórdia sem medida.
Deus nunca age sem propósito; nem age ao acaso, nem é vítima das circunstâncias. A salvação do homem é um projeto de Deus movido por seu amor misericordioso que não exige merecimento. A misericórdia é uma dádiva divina que salda completamente nossas dívidas impagáveis. As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos, porque as suas misericórdias não têm fim e se renovam cada manhã. Lamentações 3:22-23a. Deus encerrou a todos debaixo da desobediência a fim de nos aceitar incondicionalmente em Cristo Jesus, por meio de sua in-finita misericórdia. Os salvos são expressões legí-timas da graça plena de Deus. Nem mesmo a fé ou o arrependimento brotam espontaneamente do coração humano. São donativos imerecidos da graça que está especialmente associada com os homens em seus pecados, como a misericórdia está geralmente associada com os homens em sua miséria. Ao Senhor, nosso Deus, pertence a misericórdia e o perdão, pois nos temos rebelado contra ele. Daniel 9:9.
Por este motivo, os santos de Deus, salvos pela misericórdia e graça de nosso Senhor Jesus Cristo são pessoas inteiramente agradecidas. Eles sabem que não merecem nada de bom. É absoluta manifestação da graça sermos salvos. Como é estranho que o Senhor tenha de insistir com aqueles que salvou do abismo, para que eles demonstrem gratidão! Dar graças a Deus é a expressão verdadeira de alguém que foi alcançado pela misericórdia de Deus. Um coração agradecido pela salvação gratuita e imerecida encontra-se em festa permanente. É inconcebível um cristão exigente de seus supostos direitos. Sendo assim sua linguagem revela profundo reconhecimento e total gratidão ao Senhor pelo tudo que lhe foi dado. Em tudo dai graças, porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco. 1Tessalonicenses 5:18.
Se não há merecimento também não há direito. Ninguém pode reivindicar o que não merece. Porém, se não merecemos e recebemos, não resta outra postura, senão uma vida de inteiro louvor. Agradecer, pode ser uma atitude civilizada, mas viver agradecido em constante louvor, é o reflexo de uma vida transformada. Não é possível ser salvo pela graça e não demonstrar profunda gratidão. Não há no mundo exagero mais belo do que a gratidão de um coração verdadeiramente liberto pela misericordiosa graça de Deus. A adoração genuína e o louvor autêntico são a memória de um coração agradecido, que nunca pode esquecer os benefícios desmedidos do amor de Deus.
Os ingratos e invocados não fazem parte do coral divino, uma vez que vivem desentoando com os seus protestos contradizentes, suas impugnações ressentidas e seus lamentos vitimados. A demanda dos direitos anula a harmonia do canto. Não há sinfonia de gratidão vinculada com a exigência dos merecimentos. Não existe hino de louvor que fale dos direitos humanos. Para solfejar a música celestial é preciso afinar-se com a misericórdia de Deus e render tributos de entranhada gratidão. Bendize , ó minha alma, ao Senhor, e tudo o que em mim bendiga ao seu santo nome. Bendize, ó minha alma, ao Senhor e não te esqueças de nem um de seus benefícios. Salmo 103:1-2.

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