quinta-feira, 31 de maio de 2012

PERDENDO PARA PRESERVAR


PERDENDO PARA PRESERVAR
Por:
Glenio Fonseca Paranaguá


Aquele que ama a sua vida (psiquê), a perderá; ao passo que aquele que odeia a sua vida (psiquê) neste mundo, a conservará para a vida eterna (zoê). João 12:25 (NVI).
Do ponto de vista espiritual há duas fontes de motivação no ser humano: a vida psiquê contaminada pelo pecado ou a vida zoê manifesta pela regeneração. Mas, as duas não podem funcionar concomitantes na mesma pessoa. Todos nós nascemos neste mundo completamente poluídos pelo pecado. A vida que nos aciona desde o primeiro choro é essencialmente egoísta, orgulhosa, jactanciosa. Alguém disse que o cúmulo da altivez é o galo supor que o sol nasce brilhando em todas as madrugadas para escutá-lo cantar. A vaidade é a paixão menos exigente e mais difícil de dissimular. Somos uma raça de gigantes presunçosos. Para nós o mundo gira em torno do nosso dedo mindinho e assim usamos os expedientes mais velhacos para chamar a atenção. Certo pensador disse que o orgulho dos pequenos consiste em falar de si mesmos, enquanto o orgulho dos grandes consiste em nunca falar. Os medíocres se expõem buscando aceitação em suas realizações, falando de si e dos seus feitos, mas a sagacidade enfatuada muitas vezes se oculta numa modéstia ajuizada. O recatado silêncio pode ser uma barulhenta ostentação da soberba interior. A falsa modéstia é o último requinte da vaidade, e o grande risco em tudo isto, o que torna insupor-tável a vaidade dos outros é que ela fere a nossa.
A vida natural da alma humana é particularmente vaidosa. A maioria esmagadora de nossa espécie tem um apetite voraz pelos aplausos. O elogio é sempre o combustível adequado para a lubrificação do ego. Se queremos negociar com os sentimentos humanos precisamos aprender a arte vantajosa da louvação. Com certeza o incensário é instrumento privilegiado nas celebrações interesseiras do amor-próprio, se quisermos manter a maior lucrativi-dade nos relacionamentos. Mas é bom ressaltar que uma alma vaidosa nunca se satisfaz de coisa alguma. A insatisfação é filha do orgulho.
A vida contaminada pelo pecado é basicamente a vida do ego, que consiste num mundo muito pequeno, habitado apenas por uma pessoa. O egoísta é o melhor amigo de si mesmo e o único vizinho que o pode suportar. A obesidade de sua cabeça o mantém rico em preconceitos e repleto de suspeitas maliciosas. Seus pensamentos são, por supostos, os melhores, e qualquer um que o contrarie não passa de um idiota sem a menor base. Iludido consigo mesmo desenvolve um sistema reflexivo de utilidade: Eu sou a medida de todas as coisas, logo o que é verdadeiro para mim corresponde à absoluta expressão da verdade. Desde que a verdade é medida pelo meu metro não lugar para Deus no meu terreiro. Dentro das leis de mercado, o comércio mais lucrativo seria o de comprar as pessoas pelo seu valor real e vendê-las pelo que pensam que valem. O orgulho é a adoração idólatra de nós mesmos e a religião oficial do inferno.
A obra prima do diabo é levar-nos a ter um bom conceito de nós mesmos. Uma das obras principais do Espírito Santo é levar-nos a renunciar a nós mesmos e aborrecer esta vida poluída pelo egoísmo do pecado. O homem está escravizado a tudo aquilo que ele não pode abandonar, a menos que abandone a si mesmo. Então Jesus disse aos seus discípulos: Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida, a perderá, mas quem perder a vida por minha causa a encontrará. Mateus 16:24-25 (NVI). Não é possível recebermos a vida santa de Cristo sem primeiro desistir da velha vida corrompida pelo pecado.
A motivação psicológica herdada de nossos pais encontra-se comprometida totalmente com a rebeldia do pecado, e precisa ser detestada e renunciada. Somente aqueles que recusarem terminantemente a viver por sua vida perversa e egoísta podem se candidatar a receber a vida nova que vem de Cristo ressuscitado. A coisa central no cristianismo é a submissão final do eu, a sua renúncia, a rejeição e a rendição inteira da vida à vontade e ao caminho de Deus.
Aquele que ama a sua vida (psiquê) tem que perdê-la para poder herdar a vida (zoê). Ninguém pode entrar no reino de Deus sem inutilizar a fonte causadora de todos os transtornos de sua existência. A vida natural do ser humano encontra-se contagiada em sua essência pela glorificação egoísta do pecado. Até por trás do sentimento da humildade há quem se orgulhe de ser humilde. O engrandecimento faz parte de todos os gestos de nossa história e sempre buscamos a notabilidade ainda que de forma velada. A presunção é a doença da alma humana mais difícil de ser curada. Por isso, só a morte da vida da alma é capaz de chegar à raiz do problema.
Jesus propõe a perda da vida (psiquê) como a única possibilidade de salvação do ser humano. Quem tentar conservar a sua vida a perderá, e quem perder a sua vida a preservará. Lucas 17:33 (NVI). Não há salvação verdadeira sem a perda da vida egoísta dominada pelo pecado. A essência do pecado é a arrogância, e a essência da salvação é a substituição da vida arrogante do pecado pela vida humilde do Filho de Deus. No reino de Deus não há lugar para serpentes astutas, só há lugar para vermes. O salmo profético fala de Cristo: Mas eu sou verme e não homem; opróbrio dos homens e desprezado do povo. Salmo 22:6. O orgulho é o maior inimigo de Deus; se insistirmos em nossa glória, Deus retirará a sua. Deus assiste o humilde mas resiste ao orgulhoso. A vida soberba do ego tem uma única sentença: a morte. Nada do que o homem faz com suas próprias forças e motivado pelos impulsos de sua vida psicológica se pode aproveitar em termos espirituais. O diabo fica contente com pessoas que se esmeram em boas obras, contanto que ele possa torná-las orgulhosas delas, reforçava William Law.
O perde e ganha na salvação é fundamental. É necessário perder a vida da alma para se ganhar a vida do espírito. O grão de trigo nasce se morrer. Deus não irá adiante com o homem que marcha com suas próprias forças, insistia Spurgeon. A vida da alma tem que ser exterminada. Não há lugar para Deus naquele que se encontra repleto de si mesmo. A soberba do ego e a graça nunca habitam na mesma pessoa ao mesmo tempo. Só depois de perdermos a vida da alma por meio de nossa inserção em Cristo crucificado, podemos ganhar a vida espiritual anexados em Cristo ressuscitado. Vejamos a clareza desta versão de Gálatas 2:20: Eu estou crucificado na mesma cruz com Cristo. Deste modo, não sou eu quem está vivendo mas é Cristo quem vive em mim; e a vida que agora vivo por meio do corpo, vivo-a pela do Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim. Não resta dúvida que o apóstolo Paulo consegue ver claramente a sua identificação na morte com Cristo e conseqüentemente sua ressurreição em novidade de vida juntamente com Cristo. A perda do seu ego lhe garantiu a salvação com a vida de Cristo. A salvação de Deus é tão bem planejada que o seu amor e misericórdia em favor dos indignos e rebeldes pecadores não desconsidera sua justiça e santidade. Se a lei exige a morte do réu, a misericórdia o torna participante da justiça de Cristo. Nem mesmo Deus, que é a fonte de todo amor, pode passar por cima de sua justiça. Não há comutação de pena: A alma que pecar, essa morrerá. Somente a morte da vida corrompida pela soberba do pecado garante o cumprimento da justa exigência da lei. Não há salvação sem a perda da vida egoísta, pois é perdendo esta vida que se ganha a vida de Cristo.

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