PERDENDO
PARA
PRESERVAR
Por: Glenio Fonseca Paranaguá
Por: Glenio Fonseca Paranaguá
Aquele
que
ama
a
sua
vida
(psiquê),
a
perderá;
ao
passo
que
aquele
que
odeia
a
sua
vida
(psiquê)
neste
mundo,
a
conservará
para
a
vida
eterna
(zoê).
João
12:25
(NVI).
Do
ponto de vista espiritual há duas fontes de motivação no ser
humano: a vida psiquê contaminada pelo pecado ou a vida zoê
manifesta pela regeneração. Mas, as duas não podem funcionar
concomitantes na mesma pessoa. Todos nós nascemos neste mundo
completamente poluídos pelo pecado. A vida que nos aciona desde o
primeiro choro é essencialmente egoísta, orgulhosa, jactanciosa.
Alguém disse que o cúmulo da altivez é o galo supor que o sol
nasce brilhando em todas as madrugadas para escutá-lo cantar.
A vaidade é a
paixão menos exigente e
mais difícil de
dissimular. Somos uma raça de gigantes presunçosos. Para
nós o mundo gira em torno do nosso dedo mindinho e assim usamos os
expedientes mais velhacos para chamar a atenção. Certo pensador
disse que o orgulho dos
pequenos consiste em falar
de si mesmos, enquanto
o orgulho dos grandes
consiste em nunca falar.
Os medíocres se expõem buscando aceitação em suas realizações,
falando de si e dos seus feitos, mas a sagacidade enfatuada muitas
vezes se oculta numa modéstia ajuizada. O recatado silêncio pode
ser uma barulhenta ostentação da soberba interior. A
falsa modéstia é o
último requinte da
vaidade, e o grande risco em tudo isto, o que
torna insupor-tável a
vaidade dos outros é
que ela fere a
nossa.
A
vida natural da alma humana é particularmente vaidosa. A maioria
esmagadora de nossa espécie tem um apetite voraz pelos aplausos. O
elogio é sempre o combustível adequado para a lubrificação do
ego. Se queremos negociar com os sentimentos humanos precisamos
aprender a arte vantajosa da louvação. Com certeza o incensário é
instrumento privilegiado nas celebrações interesseiras do
amor-próprio, se quisermos manter a maior lucrativi-dade nos
relacionamentos. Mas é bom ressaltar que uma alma vaidosa nunca se
satisfaz de coisa alguma. A insatisfação é
filha do orgulho.
A
vida contaminada pelo pecado é basicamente a vida do ego, que
consiste num mundo muito pequeno, habitado apenas por uma pessoa. O
egoísta é o melhor amigo de si mesmo e o único vizinho que o pode
suportar. A obesidade de sua cabeça o mantém rico em preconceitos e
repleto de suspeitas maliciosas. Seus pensamentos são, por supostos,
os melhores, e qualquer um que o contrarie não passa de um idiota
sem a menor base. Iludido consigo mesmo desenvolve um sistema
reflexivo de utilidade: Eu sou a
medida de todas as
coisas, logo o que
é verdadeiro para mim
corresponde à absoluta
expressão da verdade.
Desde que a verdade
só é medida pelo
meu metro não há
lugar para Deus no
meu terreiro. Dentro das leis de mercado, o
comércio mais lucrativo seria o de comprar as pessoas pelo seu valor
real e vendê-las pelo que pensam que valem. O orgulho
é a adoração idólatra
de nós mesmos e
a religião oficial do
inferno.
A
obra prima do diabo
é levar-nos a ter
um bom conceito de
nós mesmos. Uma das obras principais do
Espírito Santo é levar-nos a renunciar a nós mesmos e aborrecer
esta vida poluída pelo egoísmo do pecado. O homem
está escravizado a tudo
aquilo que ele não
pode abandonar, a menos
que abandone a si
mesmo. Então Jesus
disse aos
seus discípulos:
Se alguém
quer vir após
mim, negue-se
a si mesmo,
tome a sua
cruz e
siga-me. Pois
quem quiser
salvar a sua
vida, a
perderá, mas
quem perder a
vida por
minha causa a
encontrará. Mateus
16:24-25 (NVI). Não
é possível recebermos a vida santa de Cristo sem primeiro desistir
da velha vida corrompida pelo pecado.
A
motivação psicológica herdada de nossos pais encontra-se
comprometida totalmente com a rebeldia do pecado, e precisa ser
detestada e renunciada. Somente aqueles que recusarem terminantemente
a viver por sua vida perversa e egoísta podem se candidatar a
receber a vida nova que vem de Cristo ressuscitado. A coisa
central no cristianismo é
a submissão final do
eu, a sua renúncia,
a rejeição e a
rendição inteira da vida
à vontade e ao
caminho de Deus.
Aquele
que ama a sua vida (psiquê) tem que perdê-la para poder herdar a
vida (zoê). Ninguém pode entrar no reino de Deus sem inutilizar a
fonte causadora de todos os transtornos de sua existência. A vida
natural do ser humano encontra-se contagiada em sua essência pela
glorificação egoísta do pecado. Até por trás do sentimento da
humildade há quem se orgulhe de ser humilde. O engrandecimento faz
parte de todos os gestos de nossa história e sempre buscamos a
notabilidade ainda que de forma velada. A presunção
é a doença da
alma humana mais difícil
de ser curada. Por isso, só a
morte da vida da alma é capaz de chegar à raiz do problema.
Jesus
propõe a perda da vida (psiquê) como a única possibilidade de
salvação do ser humano. Quem tentar
conservar a
sua vida a
perderá, e
quem perder a
sua vida a
preservará. Lucas
17:33 (NVI). Não
há salvação verdadeira sem a perda da vida egoísta dominada pelo
pecado. A essência do pecado é a arrogância, e a essência da
salvação é a substituição da vida arrogante do pecado pela vida
humilde do Filho de Deus. No reino de Deus não há lugar para
serpentes astutas, só há lugar para vermes. O salmo profético fala
de Cristo: Mas eu sou
verme e não
homem; opróbrio
dos homens e
desprezado do
povo. Salmo
22:6. O orgulho é
o maior inimigo de
Deus; se insistirmos em
nossa glória, Deus
retirará a sua. Deus
assiste o humilde mas
resiste ao orgulhoso. A vida
soberba do ego tem uma única sentença: a morte. Nada do que o homem
faz com suas próprias forças e motivado pelos impulsos de sua vida
psicológica se pode aproveitar em termos espirituais. O
diabo fica contente com
pessoas que se esmeram
em boas obras, contanto
que ele possa torná-las
orgulhosas delas, reforçava William Law.
O
perde e ganha na salvação é fundamental. É necessário perder a
vida da alma para se ganhar a vida do espírito. O
grão de
trigo só
nasce se
morrer. Deus não
irá adiante com o
homem que marcha com
suas próprias forças,
insistia Spurgeon. A vida da alma tem que ser exterminada. Não há
lugar para Deus naquele que se encontra repleto de si mesmo. A
soberba do ego e a graça nunca habitam na mesma pessoa ao mesmo
tempo. Só depois de perdermos a vida da alma por meio de nossa
inserção em Cristo crucificado, podemos ganhar a vida espiritual
anexados em Cristo ressuscitado. Vejamos a clareza desta versão de
Gálatas 2:20: Eu
estou crucificado
na mesma cruz
com Cristo.
Deste modo,
já não sou
eu quem está
vivendo mas é
Cristo quem
vive em mim;
e a vida
que agora
vivo por meio
do corpo,
vivo-a pela
fé do Filho
de Deus, que
me amou e
se entregou
por mim. Não resta
dúvida que o apóstolo Paulo consegue ver claramente a sua
identificação na morte com Cristo e conseqüentemente sua
ressurreição em novidade de vida juntamente com Cristo. A perda do
seu ego lhe garantiu a salvação com a vida de Cristo. A salvação
de Deus é tão bem planejada que o seu amor e misericórdia em favor
dos indignos e rebeldes pecadores não desconsidera sua justiça e
santidade. Se a lei exige a morte do réu, a misericórdia o torna
participante da justiça de Cristo. Nem mesmo Deus, que é a fonte de
todo amor, pode passar por cima de sua justiça. Não há comutação
de pena: A alma que
pecar, essa
morrerá. Somente a morte da vida corrompida
pela soberba do pecado garante o cumprimento da justa exigência da
lei. Não há salvação sem a perda da vida egoísta, pois é
perdendo esta vida que se ganha a vida de Cristo.
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