sexta-feira, 4 de maio de 2012

TRATADO COMO SENHOR OU PRONOME DE TRATAMENTO


TRATADO COMO SENHOR OU PRONOME DE TRATAMENTO
Por: Glenio Fonseca Paranaguá

Seu Silva era o dono de um botequim que ficava próximo da residência pastoral, na rua Santos, aqui em Londrina. Seu Juvenal foi um grande fazendeiro e pioneiro em nossa cidade e membro participativo desta igreja no passado. Seu é a forma popular do pronome de tratamento – senhor.
Senhor pode ser usado para um proprietário, um homem de meia-idade ou idoso, um pai de família ou alguém desconhecido, uma pessoa importante ou mesmo comum, alguém que exerce uma influência, sempre como um título cerimonioso. Senhor é empregado freqüentemente como uma forma de respeito ou cortesia, do inferior para superior.
Há uma história notável, envolvendo o ex-presidente Jânio Quadros. Ele foi convidado, alguns anos após a sua renúncia, a fazer uma palestra na Universidade Mackenzie, em São Paulo. O auditório encontrava-se repleto de professores e estudantes. Assim que entrou, o ex-presidente pressentiu que o clima não seria nem um pouco favorável, pois foi recebido com vaia bombástica pelos estudantes. Jânio falou durante uma hora, sem se importar com os gracejos, assobios e outras chacotas dos estudantes.
Quando terminou de falar, o reitor abriu para as perguntas. Um rapaz de cabelos compridos e chinelos, sem nenhuma cerimônia, perguntou: – Você renunciou por quê? O auditório ficou mudo. O ex-presidente ajeitou os óculos, olhou bem para o garoto e respondeu, provocando gargalhadas: – O senhor deve ter ouvido falar em Benjamin Franklin. Ele dizia que a intimidade gera dois tipos de problemas: filhos e aborrecimentos. Como não quero ter nenhum dos dois com o senhor, dobre a sua língua ao se dirigir a um ex-presidente!
O termo senhor na língua portuguesa é um tratamento de respeito que tem várias conotações, mas kurios no grego vai muito além de uma titulação. Foi essa palavra que desencadeou a maior antipatia e perseguição da cúpula romana para com os cristãos. Para o império de Roma, só César deveria ser considerado o Kurios.
Quando os cristãos começaram afirmando que Jesus Cristo era o único Kurios, o Reich se encheu de ciúmes e as hordas imperiais se mostraram ferozes. A visão de Cristo como o Kurios abalou os alicerces cesarianos do endeusamento humano. Nada foi mais ofensivo para a glória de César do que a proclamação de Jesus Cristo como o Kurios.
Se você perder a visão de Cristo como o Senhor (Kurios) você terá perdido o fundamento da fé cristã, pois ninguém poderá receber a salvação de Cristo sem ter o governo do Senhor Jesus Cristo em sua vida. A primeira pregação da história da igreja abordava de modo incisivo essa verdade básica. Esteja absolutamente certa, pois, toda a casa de Israel de que a este Jesus, que vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo. Atos 2:36.
A língua inglesa faz uma diferença no uso do tratamento requintado de Sir (senhor) e no significado mais profundo de Lord (Senhor). Um grande amigo que mora em São Paulo me fez ver que ninguém diz, por exemplo, "yes, Lord", se referindo a um mortal, mas "yes, sir". É bem verdade que a nobreza inglesa se meteu pelo terreno cesarino, quando deu títulos de Lorde aos membros da aristocracia. O amigo se referiu a esse equívoco com o assunto, mostrando que no Brasil e em Portugal, senhorio é o dono da casa onde você mora de aluguel; Sinhozinho é o filho do Sinhô e da Sinhá, que deve ser o herdeiro da fazenda; e que, sim, senhor, é tão comum, que pode ser dito por qualquer um, sem a menor importância. Aliás, o apóstolo Pedro cometeu um grande fiasco no começo do cristianismo. Ele deu uma resposta ao Senhor, baseada nos seus preconceitos, que é um contra-senso. Diante de uma ordem do Senhor para que ele comesse alguns alimentos que não constava do cardápio de sua gente, Pedro deu um fora incrível. E ouviu-se uma voz que se dirigia a ele: Levanta-te, Pedro! Mata e come. Mas Pedro replicou: De modo nenhum, Senhor! Porque jamais comi coisa alguma comum e imunda. Atos 10:13-14.
Isso é um absurdo! Ora, se Jesus é o Senhor, a resposta teria que ser rigorosamente positiva. Sim, Senhor! – De modo nenhum, Senhor! é uma total incoerência. Ou Jesus é o Senhor e você lhe obedece como Senhor, sem rebarbas, ou você transgride a sua ordem, por ele não ser considerado como Senhor. Aqui não tem escolha. O senhorio de Cristo não é um contrato similar àquele do dono da casa de aluguel.
O cristianismo se fundamenta na certeza de que Jesus Cristo é o único Senhor. Ele não é um senhor entre os senhores, mas é o Senhor dos senhores. Tem no seu manto e na sua coxa um nome inscrito: REI DOS REIS E SENHOR DOS SENHORES. Apocalipse 19:16. Ele não é um senhor suplementado. Jesus Cristo é o Senhor absoluto.
Há muita gente no bolo da igreja que discursa sobre o senhorio de Cristo, sem se submeter ao Senhor Soberano. Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. Mateus 7:21.
Dizer que Jesus é Senhor não é a mesma coisa que se entregar integralmente ao senhorio de Cristo. A falação é bem diferente da submissão e dependência. Vejo que muitos discursam com qualidade sobre o senhorio de Cristo, mas poucos confiam de fato na sua soberania. Eu mesmo percebo que sou mais falador no assunto do que credor no Senhor. E isso me chateia profundamente. Talvez seja o Senhor que venha me incomodando. Por que me chamais Senhor, Senhor, e não fazeis o que vos mando? Lucas 6:46.
Creio que o senhorio de Cristo é coisa muito séria. Pular de um avião com pára-quedas é confiar em recursos humanos, o absurdo seria saltar sem pára-quedas. Do meu limitado modo de ver o assunto, confiar no senhorio de Cristo é semelhante ao salto do avião sem qualquer apetrecho de segurança. Uma fé protegida ou promovida não merece crédito. Se tivermos que confiar nele, não poderemos esperar em nossos recursos.
Muitos ao dizerem: - vivo pela no Senhor, mas não param de usar meios sob o seu controle, certamente, não estão crendo na liderança total do Senhor. A fé no senhorio de Cristo é uma renúncia completa de todos os artifícios de sustentação. Confia no SENHOR de todo o teu coração e não te estribes no teu próprio entendimento. Reconhece-o em todos os teus caminhos, e ele endireitará as tuas veredas. Provérbios 3:5-6.
George Muller não compartilhava com os homens as necessidades do orfanato e da obra que Deus lhe havia designado, porque acreditava que só o Senhor deveria ter a informação das suas carências. Se ele contasse para alguém que pudesse ajudá-lo, estaria queimando a etapa da confiança apenas no Senhor e valendo-se de uma esperteza.
O salmista sustenta que é o Senhor quem sustenta a sua vida. Ele vê no Senhor o seu seguro de vida. Deus, porém, é meu socorro, o SENHOR é quem sustenta minha vida. Salmos 54:4 (BJ). Vai mais adiante afirmando que é o Senhor quem lhe supre a vida. Deito-me e pego no sono; acordo, porque o SENHOR me sustenta. Salmos 3:5.
O Senhor Jesus ordenou aos seus discípulos que saíssem para o campo sem apoio financeiro. A sua obra missionária não estava amarrada aos recursos humanos, uma vez que seus evangelistas deviam depender apenas da provisão divina. Não leveis bolsa, nem alforje, nem sandálias; e a ninguém saudeis pelo caminho. Lucas 10:4.
Nesse mundo material, abrir mão de um sistema econômico que possa custear o ministério é uma piração gigantesca ou a certeza plena da soberania do Senhor, que autorizou a tarefa. Confiar no Senhor significa apelar apenas para os recursos e soluções dele.
No mundo, muito pouco se pode fazer sem dinheiro. Mas os discípulos quando retornaram dessa missão não fizeram críticas à situação. A seguir, Jesus lhes perguntou: Quando vos mandei sem bolsa, sem alforje e sem sandálias, faltou-vos, porventura, alguma coisa? Nada, disseram eles. Lucas 22:35.
Se o Senhor de fato é o Senhor Soberano do universo, quando ele ordena um serviço qualquer é porque já providenciou a manutenção da empreitada. Jesus sempre cumpre com as suas obrigações trabalhistas e os seus servos nunca reivindicam direitos.
A fé se recusa a embarcar no pânico quando o Senhor está no comando da missão. Sou edificado quando medito nestas palavras: A minha alma apega-se a ti; a tua destra me ampara. Salmos 63:8. Quem está assentado a destra do Pai? Não é o Senhor? Alguém disse, o Senhor que deixou vago o seu túmulo não deixou vago o seu trono. Afirmar que Jesus é Senhor não significa que o temos como o Senhor da nossa vida. Pregar a Cristo como Senhor é depender concretamente do seu senhorio. Sejam quais forem os imprevistos no futuro, o Senhor nunca será superado ao cuidar dos seus. Senhor Jesus não é título nobiliárquico, nem o seu senhorio é locação de imóveis. Todavia, é bom saber que não há uma partícula neste mundo acerca da qual Jesus Cristo não seja o Senhor. Ao SENHOR pertence a terra e tudo o que nela se contém, o mundo e os que nele habitam. Salmos 24:1.
Kurios Iesus é o dono titular do mundo e amo de todos os seus servos. Além de Criador do universo ele é o Remidor dos eleitos do Pai. O Kurios no conceito grego tem direito de vida e morte sobre os seus escravos e ninguém pode contestar as suas ordens. Jesus Cristo como o Kurios Soberano da Redenção tem poder irrestrito sobre a vida dos seus servos, por isso ninguém que tenha sido crucificado com Cristo, pode decidir suas próprias preferências ou desistir das determinações dele. Pedro entendeu isso por revelação, quando lhe respondeu: Senhor, para quem iremos? Tu tens as palavras da vida eterna; e nós temos crido e conhecido que tu és o Santo de Deus. João 6:68-69.
A maior necessidade do cristão é conhecer a graça de Jesus Cristo como o seu único Senhor e Salvador incondicional. Pedro, que também tropeçou nesse assunto do senhorio, nos adverte: Vós, pois, amados, prevenidos como estais de antemão, acautelai-vos; não suceda que, arrastados pelo erro desses insubordinados, descaiais da vossa própria firmeza; antes, crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. A ele seja a glória, tanto agora como no dia eterno. 2 Pedro 3:17-18.

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