quinta-feira, 31 de maio de 2012

DA LEI À GRAÇA


DA LEI À GRAÇA
Por:
Glenio Fonseca Paranaguá


A lei foi dada por meio de Moisés, mas a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo. João 1:17. VFL
A Bíblia está dividida em dois testamentos. O Antigo Testamento é fundamentalmente a escritura da lei, enquanto o Novo Testamento é o pacto da graça. Conquanto o Velho Testamento trate muito da graça, o seu leito preferencial implica nos princípios da lei. Moisés, com as leis, é a marca da antiga dispensação. Por outro lado, o Novo Testamento, não revogando a lei, cuida especialmente do projeto sublime da graça, por meio de Jesus Cristo. A mensagem essencial da Nova Aliança é a graça de Deus com sua plena realização em favor do homem.
A lei de Moisés é antes de qualquer coisa um diagnóstico da natureza humana. Ela veio para revelar a incapacidade do ser humano de se salvar pelos seus próprios méritos. Uma vez que nos tornamos incapazes de cumprir literalmente os ditames da lei, fica impossível a nós chegar ao Reino de Deus por meio da prática da lei. Sendo as exigências da lei rigorosas e nossa condição de satisfazê-las absolutamente precária, torna-se inviável a salvação por intermédio da lei. Na visão que o Espírito Santo deu a Paulo, a lei veio para trazer o conhecimento perfeito do pecado e fazê-lo volumoso diante de nossos olhos. Não homem nenhum que, por fazer o que a lei manda, possa ser declarado justo diante de Deus, pois a lei simplesmente mostra o nosso pecado. A lei veio para aumentar o pecado. Romanos 3:20 e 5:20a VFL. Como mostra a Bíblia, a função da lei é ressaltar a gravidade da pecaminosidade humana e jamais propiciar a salvação.
Entretanto, ninguém poderá chegar ao Reino de Deus sem a salvação. Sendo assim, Deus enviou Jesus Cristo cheio de graça e verdade para nos salvar exclusivamente por meio de sua graça. Temos como princípio de que a graça consiste na realização soberana de Deus em benefício do indigno pecador. A graça só é graça quando Deus realiza tudo e dá tudo em favor do desmerecido. Enquanto a lei exige estrita precisão no cumprimento de suas exigências, a graça satisfaz todos os requisitos da lei em Cristo e voluntariamente imputa as condições realizadas ao transgressor incompetente. A nossa salvação é pura dádiva graciosa de Deus. A essência substancial da doutrina da graça é que Deus é favoravelmente em nosso benefício. Deus se inclina propício e benigno em socorro do desprezível pecador. Alguém já disse que a graça é algo mais do que favor imerecido... graça é favor demostrado onde absoluto demérito na pessoa que a recebe.
Nas leis de mercado, a troca lucrativa movimenta o comércio. Tanto o vendedor como o comprador devem perceber alguma vantagem. Não pode haver negócio sem o câmbio dos interesses proveitosos. No Reino de Deus as vantagens ficam apenas do lado do homem. A graça permuta a santidade de Deus pelo pecado humano. O valioso pelo vil. Deus assume os pecados da natureza humana em Cristo, perdoando toda a rebeldia, e recompensando o pecador com a santa justiça imputada graciosamente. De fato há uma doação e não uma partilha. O princípio da graça é transformar o débito em crédito, a miséria em abundância, a fraqueza em força, a enfermidade em saúde, o pecado em santidade, o inferno em céu. A graça não negocia com o homem na base do troco, nem Deus aceita gorjeta. Nada que não seja gratuito é seguro para os pecadores... A não ser que sejamos salvos somente pela graça, não podemos absolutamente ser salvos, enfatiza Charles Hodge. Tudo o que Deus tem para nós é oferecido gratuitamente. No Reino de Deus não há prestações ou promissórias a serem resgatadas, nem o nome fica seprocado.
Entretanto, depois de sermos salvos pela graça, pode-se correr o risco de pretendermos a santificação mediante as obras da lei. Muitas vezes me vejo tentando ser aceitável diante de Deus, por meio de meu desempenho. É muito sutil a passarela do empenho. Muitas vezes o zelo diligente exibe sua performance, na tentativa de capitalizar algum dividendo. Alguns homens que tinham vindo da região da Judéia estavam ensinando os irmãos e diziam: Se vocês não forem circuncidados, de acordo com o costume de Moisés, não poderão ser salvos. Atos 15:1 VFL. A igreja nascente mal saía da casca do ovo e já enfrentava as bitolas da tradição judaica nas leis de Moisés. Sempre achamos que a graça não é suficiente para concretizar a obra da salvação, precisamos dar uma mãozinha neste assunto. Parece que Deus não é competente para completar a obra que começou em nós. É muito comum apelarmos para os nossos méritos transformados pela graça, a fim de cooperar com a obra da graça no desenvolvimento de nossa salvação. Achamos que a salvação pode ser mediante a graça, mas a santificação fica em parte por nossa conta. Paulo, escrevendo aos crentes da Galácia, fica surpreso com a atitude deles quando indaga: Será que vocês são tão tolos que, tendo começado uma vida com o Espírito, estão agora se aperfeiçoando com as suas próprias forças? Gálatas 3:3 VFL.
Sabemos que a regeneração do homem é obra exclusiva da graça de Deus, mas a santificação do homem é também plena expressão da graça de Deus. Alguém já escreveu que a regeneração é pela graça mas a santificação é pelas obras. Porém, a Bíblia mostra que tanto a regeneração como a santificação são obras suficientes da graça. Pois vocês são salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de vocês, é dom de Deus; não por obras, para que ninguém se glorie. Que o próprio Deus da paz os santifique inteiramente. Que todo o espírito, a alma e o corpo de vocês sejam conservados irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo. Aquele que os chama é fiel e fará isso. Efésios 2:8-9 e 1Tessalonicenses 5:23-24 NVI. Quando as Escrituras afirmam que o próprio Deus é o agente da santificação, elas sustentam que a graça é a causa desta obra. Contudo, esta graça não deixa o homem pasmo e inativo. A graça de Deus operante no homem não o torna indolente e contemplativo.
Aqui, entretanto, precisamos verificar a diferença entre as obras da lei e a operação da graça na vida do crente. Não existe graça inoperante. Não há cristão genuíno apático ou negligente. Mas a distinção entre os executivos da religião e os laboriosos da graça se verifica em três aspectos: 1ª) A glória. O religioso esforçado valoriza a sua desenvoltura e conta ponto com o seu encargo, buscando os aplausos. Mas o crente da graça sabe que o seu trabalho é fruto da operação de Deus e portanto, o louvor pertence a Ele. 2ª) A força. Na execução da tarefa religiosa o esforço humano causa cansaço e desânimo, enquanto o homem da graça ganha força na sua fraqueza. Quando o poder é de Deus não há desencorajamento. 3ª) A meta. O resultado final de um religioso é o êxito de sua interpretação. O sucesso de sua missão é o salário de sua realização. Porém, a finalidade última do laborioso da graça é a glória de Deus, quer se encontre na prisão ou no palácio. Como John Newton, podemos dizer: Não sou o que posso ser, não sou o que devo ser, não sou o que quero ser, não sou o que espero ser; mas agradeço a Deus porque não sou o que outrora era, e posso dizer agora como o grande apóstolo: Mas pela graça de Deus sou o que sou. E a sua graça que Ele me deu, não foi desper-diçada. Ao contrário, trabalhei muito mais do que todos os apóstolos. (Embora não tenha sido eu mesmo quem trabalhou, mas a graça de Deus que estava comigo.) 1Coríntios 15:10 VFL.

ARREPENDIMENTO, DÁDIVA OU DECISÃO?


ARREPENDIMENTO, DÁDIVA OU DECISÃO?
Por:
Glenio Fonseca Paranaguá



Ora, é necessário que o servo do Senhor não viva a contender e sim deve ser brando para com todos, apto para instruir, paciente; disciplinando com mansidão os que se opõem, na expectativa de que Deus lhes conceda não o arrependimento para conhecerem plenamente a verdade, mas também o retorno à sensatez, livrando-se eles dos laços do diabo, tendo sido feitos cativos por ele, para cumprirem a sua vontade. Ora, não levou Deus em conta os tempos da ignorância; agora, porém, notifica aos homens que todos, em toda parte, se arrependam; porquanto estabeleceu um dia em que de julgar o mundo com justiça, por meio de um varão que destinou e acreditou diante de todos, ressuscitando-o dentre os mortos. 2 Timóteo 2:24-26 e Atos 17:30-31.
A Bíblia considera o arrependimento como condição imprescindível na salvação. Não se pode falar da obra da conversão sem tratar da realidade profunda do arrependimento. Na conversão há dois requisitos indispensáveis: o arrependimento que esboça o aspecto negativo, o ato de abandonar o pecado, e a fé em seu aspecto positivo, apossando-se das promessas e dos benefícios da obra de Cristo. A vida cristã, por sua própria natureza e definição, representa algo totalmente diferente da vida que tínhamos anteriormente. A vida natural é basicamente rebelde e pecaminosa. Do ponto de vista bíblico, todos nós nascemos neste mundo contaminados pela perversão egoísta do pecado e espiritualmente mortos. A vida emocional da alma não expressa qualquer centelha de vida espiritual. Não há vida de Deus no interior do homem natural. Isto, portanto, digo e no Senhor testifico que não mais andeis como também andam os gentios, na vaidade dos seus próprios pensamentos, obscurecidos de entendimento, alheios à vida de Deus por causa da ignorância em que vivem, pela dureza do seu coração. Efésios 4:17-18. Os gentios, ou não convertidos, estão separados da vida de Deus. Há vida física e psicológica, mas não há vida espiritual. O homem natural encontra-se espiritualmente morto. Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados. Efésios 2:1.
A questão que levantamos inicialmente aqui, é: um morto espiritual pode se arrepender e crer genuinamente? O arrependimento e a fé são pré-requisitos para a regeneração ou são conseqüências oriundas da vivificação? Nós nos convertemos para sermos regenerados, ou porque somos regenerados nos convertemos? Será que o arrependimento, como condição da conversão, é uma dádiva de Deus ou decisão humana? Estas questões têm sido alvo de debates constantes na história da igreja. Há daqueles que sustentam a conversão como exigência para a regeneração, enquanto outros vêem a conversão como resultado da regeneração.
Ora, se o homem realmente está separado da vida de Deus e conseqüentemente morto em seu espírito, não há qualquer condição para que ele se arrependa e creia do ponto de vista espiritual. Ele primeiro tem que ser vivificado, mediante a Palavra de Deus, a fim de responder em seu espírito com o arrependimento e a fé.
O programa de Deus para a salvação do ser humano começa pela pregação da Palavra. Deus criou o mundo pelo poder de sua Palavra e salva as pessoas pela pregação da sua Palavra. Visto como, na sabedoria de Deus, o mundo não o conheceu por sua própria sabedoria, aprouve a Deus salvar os que crêem pela loucura da pregação. 1Coríntios 1:21. A pregação de Cristo crucificado é a munição eficiente e eficaz para toda arma de calibre que visa atingir o coração dos homens e não a sua pele. Se pretendemos alcançar os corações, devemos falar a Palavra de Deus enfocada na pessoa sublime de Jesus Cristo morto e ressuscitado. Esta é a mensagem que salva. Pois, segundo o seu querer, Ele nos gerou pela Palavra da verdade, para que fôssemos como que primícias das suas criaturas. Tiago 1:18. Pregando a Palavra da verdade do Evangelho, por meio da unção da graça, podemos tocar fundo no íntimo das pessoas, gerando a vida de Deus. Certamente a graça de Deus pode fazer qualquer coisa sem a pregação dos ministros, mas a pregação dos ministros não pode fazer nada sem a graça de Deus, insistia Matthew Henry. É ministrando a Palavra graciosa de Cristo crucificado e ressurreto, na unção do Espírito, que se pode gerar vida de Deus no coração morto pelo pecado.
A vivificação começa através da operação viva da Palavra. Pois fostes regenerados não de semente corruptível, mas de incorruptível, mediante a Palavra de Deus, a qual vive e é permanente. 1Pedro 1:23. A Palavra viva do Deus vivo gera vida nos corações mortos pelo pecado. Vivificados pelo poder do avivamento da Palavra, somos capacitados a reagir espiritualmente com as atitudes de arrependimento e fé. Cremos que Deus nos vivifica primeiro para que possamos nos arrepender e crer de todo o nosso coração. Um morto espiritual não possui qualquer estímulo espiritual. Como ensinava Augusto Strong, o homem arrepende-se de verdade somente quando aprende que o pecado o tornou incapaz de arrepender-se sem a ajuda da graça renovadora de Deus. Primeiro Deus nos dá vida de arrependimento e fé mediante a pregação da Palavra, para que nós, arrependidos de nossa antiga maneira de viver, alcancemos a condição permanente de arrependimento e fé. No enfoque da graça, arrependimento e fé são inicialmente dádivas que recebemos e não cláusulas a serem preenchidas.
Entretanto, o arrependimento e a fé são também uma resposta. Sempre que Deus nos vivifica com sua Palavra Ele nos dá arrependimento e fé que nos capacitam sinceramente a nos arrepender e crer de modo decisivo. Não se trata de uma dádiva passiva. Deus nos dá, pela graça, o arrependimento para que nós nos arrependamos profundamente. Ou desprezas a riqueza da sua bondade, e tolerância, e longanimidade, ignorando que a bondade de Deus é que te conduz ao arrependimento? Jesus foi para a Galiléia, pregando o Evangelho de Deus, dizendo: O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no Evangelho. Arrependei-vos, pois, e convertei-vos para serem cancelados os vossos pecados. Romanos 2:4 - Marcos 1:14-15 - Atos 3:19. A graça nos dá a atitude de arrependimento, para que nós tenhamos a oportunidade de exercer a decisão verdadeira de um profundo ato de arrependimento.

O arrependimento autêntico consiste na operação subjetiva de quebrantamento do coração, concedida por Deus em sua graça, e na ação objetiva de repudiar o pecado em razão dos propósitos de uma decisão pessoal. O arrependimento legítimo é dádiva de Deus e decisão humana. Não é correto atribuir neutralidade moral no processo do arrependimento. Somos responsáveis pelos nossos atos e não podemos deixar de responder ativamente com nossa aversão e nojo pelo pecado. O verdadeiro arrependimento consiste em ficar o coração quebrantado por causa do pecado e, em face desta compunção, romper definitivamente com a prática do pecado. Não voltar a fazer uma determinada coisa errada é a essência do mais verdadeiro arrependimento. Ali, vos lembrareis dos vossos caminhos e de todos os vossos feitos com que vos contaminastes e tereis nojo de vós mesmos, por todas as vossas iniqüidades que tendes cometido. Ezequiel 20:43. O pecado deve ser ocasião de grande tristeza, quando não tristeza em pecar. A pura e autêntica água benta não é aquela que os sacerdotes costumam borrifar sobre as pessoas conferindo graças, mas aquela que escorre dos olhos arrependidos, diante de Deus, confessando a desgraça do seu pecado. O Senhor Deus sempre nos concede o arrependimento para que nós vivamos intimamente arrependidos.

PARADOXO OU COMPLEMENTO?


PARADOXO OU COMPLEMENTO?
Por: Glenio Fonseca Paranaguá


Estamos diante de uma situação embaraçosa. Se o apóstolo Paulo está correto, a justificação é pela fé. Se é Tiago quem está certo, a justificação é pelas obras. Como vamos encarar este dilema? Na verdade, não há nenhum dilema aqui. Não se trata de um paradoxo mas de um complemento. Paulo e Tiago somam. Não há discordância ou contradição. Paulo fala da raiz, Tiago ocupa-se do fruto. A raiz da justificação é a fé, enquanto o fruto, são as boas obras. Somos justificados pela fé, para praticar boas obras.
Os dois enfocam lados diferentes de uma mesma experiência. O apóstolo Paulo refere-se ao fato espiritual da justificação perante Deus, mas Tiago fala dos efeitos da justificação diante dos homens. Quando somos justificados pela graça de Deus, perante Ele, é mediante a fé somente. Sabendo, contudo, que o homem não é justificado por obras da lei e sim mediante a em Cristo Jesus, também temos crido em Cristo Jesus, para que fôssemos justificados pela em Cristo e não por obras da lei, pois, por obras da lei, ninguém será justificado. Gálatas 2:16. E como dizia João Calvino, é a que justifica, mas a que justifica não está . Por isso, quando nos apresentamos diante dos homens demonstramos a fé que temos através das boas obras. Se a nossa fé não tem resultado prático de boas obras é falsa. inoperante é tão inútil quanto palavras vãs. Meus irmãos, qual é o proveito, se alguém disser que tem fé, mas não tiver obras? Pode, acaso, semelhante salvá-lo? Assim, também a fé, se não tiver obras, por si está morta. Tiago 2:14 e 17. A verdadeira e viva, que o Espírito Santo coloca no coração, simplesmente não pode ser inoperante, afirmava Martinho Lutero.
Paulo vê a fé como fábrica de boas obras. Tiago vê as boas obras como prova de que há fé. A única fé que salva é a fé que realiza. Toplady disse que se Deus lhe conceder como de Paulo, logo você terá as obras de Tiago. Biblicamente ninguém pode ser justificado diante de Deus pelas obras, mas nenhum justificado pode deixar de produzir boas obras; e Blanchard conclui: A justificação nunca resulta de boas obras; ela sempre resulta em boas obras. A relação entre a justificação gratuita pela fé e a obediência que resulta nas boas obras é fundamental. Sabemos que tudo o que a lei diz, o diz àqueles que estão debaixo dela, para que toda boca se cale e todo o mundo esteja sob o juízo de Deus. Portanto, ninguém será declarado justo diante dele baseando-se na obediência à lei, pois é mediante a lei que nos tornamos plenamente conscientes do pecado.Você pode ver que tanto a como as suas obras (de Abraão) estavam atuando juntas, e a foi aperfeiçoada pelas obras. Assim como o corpo sem espírito está morto, também a sem obras está morta. Romanos 3:19-20, Tiago 2:22 e 26 (NVI). Qualquer tentativa de fazer a justificação depender dos méritos é roubar da graça sua gratuidade e acrescentar obras à graça salvadora. Qualquer tentativa de retirar as boas obras como resultado da justificação pela fé é destituir o significado real da salvação pela fé. No trono da justificação os méritos não valem nada, são insuficientes; mas no processo da santificação as boas obras atestam a vida e o valor da fé. A fé sem a ação das boas obras é mero cadáver da religião.
As boas obras são conseqüência da salvação graciosa através da fé. Todas as obras realizadas antes da regeneração do ser humano não são consideradas boas obras em razão da maldade do coração. Segundo Jesus não existe ninguém realmente bom. Por que você me chama bom? Não ninguém que seja bom, a não ser somente Deus. Lucas 18:19(NVI). Só Deus é essencialmente bom. Toda bondade humana encontra-se poluída pelos interesses do pecado. Mesmo os atos mais abnegados carregam satisfações egoístas extremamente sutis. Nenhum capital produz mais interesse do que o bem que fizemos. A bondade humana não é verdadeiramente boa. Em face do temperamento e da educação podemos encontrar algumas boas pessoas, mas não pessoas boas. Nenhuma quantidade de boas obras pode fazer de nós pessoas boas. Precisamos ser convertidos pela bondade de Deus antes de realizar as boas obras. A bondade de Deus é a raiz de toda bondade; e a nossa bondade, se temos alguma, origina-se em Sua bondade. Considerem: uma árvore boa bom fruto; uma árvore ruim, fruto ruim, pois uma árvore é conhecida pelo seu fruto. A árvore boa não pode dar frutos ruins, nem a árvore ruim pode dar frutos bons. Mateus 12:33 e 7:18 (NVI). A árvore má precisa ser convertida em árvore boa para poder dar bons frutos. As boas obras também só aparecem depois da conversão do pecador em nova criatura. Antes de produzir as boas obras devemos ser transformados em pessoas boas, com a bondade de Deus, mediante a graça de Cristo. Porque somos criação de Deus realizada em Cristo Jesus para fazer as boas obras, as quais Deus preparou de antemão para que nós as praticássemos. Efésios 2:10(NVI).
Primeiramente Deus desfez a obra da escravidão do pecado em nossas vidas, na cruz em Cristo, e depois nos fez novas criaturas pela nossa ressurreição, juntamente com Cristo. Ele rescindiu o antigo contrato de escravos do pecado, no sacrifício de Jesus Cristo, e nos contratou como servos da justiça para a realização das boas obras. Quando Cristo morreu, nós fomos incluídos nele para morrermos com Ele, sendo justificados, pois quem morreu justificado está do pecado. Romanos 6:7. Quando Cristo ressuscitou, fomos feitos novas criaturas, pela vida de Cristo. O cristão não é alguém que teve um novo começo em sua vida, mas aquele que perdeu a sua vida na cruz com Cristo a fim de receber uma nova vida na ressurreição, e começar com ela a prática das boas obras. Não há justificação no cristianismo pelas obras da lei, mas nenhum justificado pela graça de Cristo se justifica sem a prática das boas obras. Assim brilhe a luz de vocês diante dos homens, para que vejam as suas boas obras e glorifiquem ao Pai de vocês, que está nos céus. Mateus 5:16( NVI). Só os filhos do Pai celestial, justificados pelo sacrifício de Jesus Cristo, podem produzir as boas obras que realmente O glorifiquem. No Evangelho, a salvação do ser humano é unicamente pela graça em Cristo através da fé, mas a fé que salva é a fé que segue na produção das boas obras que glorificam a Deus. Ninguém pode ser salvo pelas obras, mas nenhum salvo pela graça se furta ao exercício das boas obras.
As obras dos não salvos são moedas de recompensa. Elas são utilizadas para angariar alguma indenização. Todas as obras que exigem retribuição ou compensação não podem ser consideradas boas. As boas obras dos salvos são desprendidas de quaisquer vantagens; são expressões da eterna gratidão em face da plena salvação que lhes foi concedida totalmente pela graça. As boas obras são boas, porque são isenta de gratificação ou agradecimento, pois são as obras puras de Deus em nós. Jesus Cristo se entregou por nós a fim de nos remir de toda maldade e purificar para si mesmo um povo particularmente seu, dedicado à pratica de boas obras. Tito 2:14 (NVI). Só os justificados pela graça, segundo Paulo, podem praticar as legítimas boas obras que Tiago exige da justificação. Justificação e santificação são diferenciáveis, mas não separáveis. Aleluia! Amém!

PERDENDO PARA PRESERVAR


PERDENDO PARA PRESERVAR
Por:
Glenio Fonseca Paranaguá


Aquele que ama a sua vida (psiquê), a perderá; ao passo que aquele que odeia a sua vida (psiquê) neste mundo, a conservará para a vida eterna (zoê). João 12:25 (NVI).
Do ponto de vista espiritual há duas fontes de motivação no ser humano: a vida psiquê contaminada pelo pecado ou a vida zoê manifesta pela regeneração. Mas, as duas não podem funcionar concomitantes na mesma pessoa. Todos nós nascemos neste mundo completamente poluídos pelo pecado. A vida que nos aciona desde o primeiro choro é essencialmente egoísta, orgulhosa, jactanciosa. Alguém disse que o cúmulo da altivez é o galo supor que o sol nasce brilhando em todas as madrugadas para escutá-lo cantar. A vaidade é a paixão menos exigente e mais difícil de dissimular. Somos uma raça de gigantes presunçosos. Para nós o mundo gira em torno do nosso dedo mindinho e assim usamos os expedientes mais velhacos para chamar a atenção. Certo pensador disse que o orgulho dos pequenos consiste em falar de si mesmos, enquanto o orgulho dos grandes consiste em nunca falar. Os medíocres se expõem buscando aceitação em suas realizações, falando de si e dos seus feitos, mas a sagacidade enfatuada muitas vezes se oculta numa modéstia ajuizada. O recatado silêncio pode ser uma barulhenta ostentação da soberba interior. A falsa modéstia é o último requinte da vaidade, e o grande risco em tudo isto, o que torna insupor-tável a vaidade dos outros é que ela fere a nossa.
A vida natural da alma humana é particularmente vaidosa. A maioria esmagadora de nossa espécie tem um apetite voraz pelos aplausos. O elogio é sempre o combustível adequado para a lubrificação do ego. Se queremos negociar com os sentimentos humanos precisamos aprender a arte vantajosa da louvação. Com certeza o incensário é instrumento privilegiado nas celebrações interesseiras do amor-próprio, se quisermos manter a maior lucrativi-dade nos relacionamentos. Mas é bom ressaltar que uma alma vaidosa nunca se satisfaz de coisa alguma. A insatisfação é filha do orgulho.
A vida contaminada pelo pecado é basicamente a vida do ego, que consiste num mundo muito pequeno, habitado apenas por uma pessoa. O egoísta é o melhor amigo de si mesmo e o único vizinho que o pode suportar. A obesidade de sua cabeça o mantém rico em preconceitos e repleto de suspeitas maliciosas. Seus pensamentos são, por supostos, os melhores, e qualquer um que o contrarie não passa de um idiota sem a menor base. Iludido consigo mesmo desenvolve um sistema reflexivo de utilidade: Eu sou a medida de todas as coisas, logo o que é verdadeiro para mim corresponde à absoluta expressão da verdade. Desde que a verdade é medida pelo meu metro não lugar para Deus no meu terreiro. Dentro das leis de mercado, o comércio mais lucrativo seria o de comprar as pessoas pelo seu valor real e vendê-las pelo que pensam que valem. O orgulho é a adoração idólatra de nós mesmos e a religião oficial do inferno.
A obra prima do diabo é levar-nos a ter um bom conceito de nós mesmos. Uma das obras principais do Espírito Santo é levar-nos a renunciar a nós mesmos e aborrecer esta vida poluída pelo egoísmo do pecado. O homem está escravizado a tudo aquilo que ele não pode abandonar, a menos que abandone a si mesmo. Então Jesus disse aos seus discípulos: Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida, a perderá, mas quem perder a vida por minha causa a encontrará. Mateus 16:24-25 (NVI). Não é possível recebermos a vida santa de Cristo sem primeiro desistir da velha vida corrompida pelo pecado.
A motivação psicológica herdada de nossos pais encontra-se comprometida totalmente com a rebeldia do pecado, e precisa ser detestada e renunciada. Somente aqueles que recusarem terminantemente a viver por sua vida perversa e egoísta podem se candidatar a receber a vida nova que vem de Cristo ressuscitado. A coisa central no cristianismo é a submissão final do eu, a sua renúncia, a rejeição e a rendição inteira da vida à vontade e ao caminho de Deus.
Aquele que ama a sua vida (psiquê) tem que perdê-la para poder herdar a vida (zoê). Ninguém pode entrar no reino de Deus sem inutilizar a fonte causadora de todos os transtornos de sua existência. A vida natural do ser humano encontra-se contagiada em sua essência pela glorificação egoísta do pecado. Até por trás do sentimento da humildade há quem se orgulhe de ser humilde. O engrandecimento faz parte de todos os gestos de nossa história e sempre buscamos a notabilidade ainda que de forma velada. A presunção é a doença da alma humana mais difícil de ser curada. Por isso, só a morte da vida da alma é capaz de chegar à raiz do problema.
Jesus propõe a perda da vida (psiquê) como a única possibilidade de salvação do ser humano. Quem tentar conservar a sua vida a perderá, e quem perder a sua vida a preservará. Lucas 17:33 (NVI). Não há salvação verdadeira sem a perda da vida egoísta dominada pelo pecado. A essência do pecado é a arrogância, e a essência da salvação é a substituição da vida arrogante do pecado pela vida humilde do Filho de Deus. No reino de Deus não há lugar para serpentes astutas, só há lugar para vermes. O salmo profético fala de Cristo: Mas eu sou verme e não homem; opróbrio dos homens e desprezado do povo. Salmo 22:6. O orgulho é o maior inimigo de Deus; se insistirmos em nossa glória, Deus retirará a sua. Deus assiste o humilde mas resiste ao orgulhoso. A vida soberba do ego tem uma única sentença: a morte. Nada do que o homem faz com suas próprias forças e motivado pelos impulsos de sua vida psicológica se pode aproveitar em termos espirituais. O diabo fica contente com pessoas que se esmeram em boas obras, contanto que ele possa torná-las orgulhosas delas, reforçava William Law.
O perde e ganha na salvação é fundamental. É necessário perder a vida da alma para se ganhar a vida do espírito. O grão de trigo nasce se morrer. Deus não irá adiante com o homem que marcha com suas próprias forças, insistia Spurgeon. A vida da alma tem que ser exterminada. Não há lugar para Deus naquele que se encontra repleto de si mesmo. A soberba do ego e a graça nunca habitam na mesma pessoa ao mesmo tempo. Só depois de perdermos a vida da alma por meio de nossa inserção em Cristo crucificado, podemos ganhar a vida espiritual anexados em Cristo ressuscitado. Vejamos a clareza desta versão de Gálatas 2:20: Eu estou crucificado na mesma cruz com Cristo. Deste modo, não sou eu quem está vivendo mas é Cristo quem vive em mim; e a vida que agora vivo por meio do corpo, vivo-a pela do Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim. Não resta dúvida que o apóstolo Paulo consegue ver claramente a sua identificação na morte com Cristo e conseqüentemente sua ressurreição em novidade de vida juntamente com Cristo. A perda do seu ego lhe garantiu a salvação com a vida de Cristo. A salvação de Deus é tão bem planejada que o seu amor e misericórdia em favor dos indignos e rebeldes pecadores não desconsidera sua justiça e santidade. Se a lei exige a morte do réu, a misericórdia o torna participante da justiça de Cristo. Nem mesmo Deus, que é a fonte de todo amor, pode passar por cima de sua justiça. Não há comutação de pena: A alma que pecar, essa morrerá. Somente a morte da vida corrompida pela soberba do pecado garante o cumprimento da justa exigência da lei. Não há salvação sem a perda da vida egoísta, pois é perdendo esta vida que se ganha a vida de Cristo.