sexta-feira, 1 de junho de 2012

SUBSTITUIÇÃO RADICAL


SUBSTITUIÇÃO RADICAL
Por:
Glenio Fonseca Paranaguá


Jesus lhes contou uma parábola: Ninguém corta um pedaço de pano novo para remendar uma roupa velha. Se fizer isso, além de estragar a roupa nova, o pedaço novo não vai combinar com a roupa velha. Ninguém coloca vinho novo em odres velhos. Se fizer isso, o vinho novo arrebentará os odres velhos, o vinho se derramará e os odres ficarão arruinados. Deve-se colocar vinho novo em odres novos. Ninguém, depois de beber vinho velho, quer vinho novo, pois diz: O vinho velho é melhor. Lucas 5:36-39.
Jesus estava lidando com os costumes, quando apresentou esta parábola. O foco era a tradição. Os contemporâneos de Jesus estavam incomodados com o procedimento dos seus discípulos, e lhe disseram: Os discípulos de João jejuam freqüentemente e fazem orações e o mesmo acontece com os discípulos dos fariseus. Os seus discípulos, porém, estão sempre comendo e bebendo! Lucas 5:33. Qual é a explicação para esta atitude tão incomum? O que significa esta rebeldia? Eles não estavam entendendo a mudança de comportamento. Mesmo João Batista, um mensageiro reformador, continuava nos costumes religiosos estabelecidos. Porque esta mudança tão radical?
Jesus, aqui, mostra a diferença marcante entre o velho sistema e o novo. A ênfase do judaísmo religioso é basicamente a aparência. O que está em jogo é aquilo que pode ser medido pelos espectadores. Mas Jesus via que piedade exterior e corrupção interior formam uma mistura revoltante. A vida espiritual que tem início nas aparências certamente acabará em deserção. O ritualismo tem sido sempre o rival da verdadeira experiência espiritual. Como dizia A. J. Gordon: O ritualismo, à semelhança de um eczema no corpo humano, é geralmente sintoma de condições negativas no sangue. E Jesus está propondo uma nova realidade que parte de dentro para fora. Alguém já considerou que, a prática formal da religião é tão desprovida de sentido como a clara do ovo, de sabor. Por isso, o Senhor não estava levando em conta o modelo dos remendos inoportunos.
O cristianismo não se baseia numa mera reforma de um sistema antigo. Jesus foi muito claro quando negou a possibilidade de consertar um vestido velho com um pano novo. Não há recuperação para o velhusco sistema deteriorado pelos preconceitos e formalismos inconseqüentes. O obsoleto modelo judaico não comportava reparos. Jesus mostrou que não era restaurador de antigüidades, nem estava disposto a se envolver com a senilidade irrecuperável de uma fôrma ultrapassada. O vinho novo não pode ser acondicionado num odre velho. O prejuízo é duplo: arrebenta-se o odre e derrama-se o vinho. A estrutura esclerosada não suportaria a força expansionista do vinho novo. A composição estreitada do judaísmo não agüentaria a mensagem expansível da graça de Deus. Um continente encurtado não permite o desenvolvimento de um conteúdo dilatável. Fica impossível a mensagem da graça espremida nas paredes da mentalidade judaica. Por isso Jesus foi categórico: vinho novo só em odres novos. O Evangelho da graça de Deus tem que se expressar numa estrutura realmente nova.
A verdade básica do cristianismo é novidade. Não há depósito de bugigangas, nem oficinas de quinquilharias. Jesus é original e trata com novidade. Sua proposta é fazer novas todas as coisas: E aquele que estava sentado no trono disse: Olhem, Eu estou fazendo tudo novo. Apocalipse 21:5. Ele não aproveita nada do antigo modelo. Não restaura nem reforma. Faz tudo novo. É uma nova criação que não reutiliza as coisas velhas. Antes de tudo, Ele crucifica a velha natureza e depois cria uma nova realidade, começando de dentro para fora: primeiro o espiritual e depois, o físico. A regeneração do espírito, depois a ressurreição do corpo. E assim, se alguém está em Cristo, é uma nova criatura. As coisas velhas passaram; tudo é novo. 2 Coríntios 5:17.
Por meio da obra suficiente de Cristo recebemos um espírito novo. Uma nova mente, a mente de Cristo. Somos regenerados espiritualmente através de nossa morte e ressurreição com Cristo, tornando-nos novas criaturas. A Bíblia mostra o que é relevante para o ser humano: Pois não importa se uma pessoa é circuncidada ou não; o que realmente importa é ser uma nova criatura. Gálatas 6:15. A vida nova é conseqüência de uma nova geração. Isto significa que a velha maneira de viver foi substituída pela mentalidade de Cristo. A vida cristã não é a reconstituição do arcaico, mas a troca do velho desígnio do pecado pela nova concepção da santidade. É a nova vida da ressurreição de Cristo acionando toda a forma de pensar da nova criatura, depois de consumar a morte da mentalidade antiquada do sistema avelhentado do pecado.
O projeto de Deus é nos tornar homens novos em Cristo Jesus, semelhantes a Ele, a fim de vivermos com uma nova maneira de encarar as coisas. O seu plano era nos fazer idênticos ao seu Filho, com a mesma disposição de propósitos, por isso Ele aniquilou, na cruz, a nossa inclinação fraudulenta e nos deu, na ressurreição, o seu caráter sincero. Sabemos que, em tudo o que acontece, Deus trabalha para o bem daqueles que o amam, daqueles a quem Ele chamou de acordo com o seu plano. Deus os conhecia antes de o mundo ser criado e decidiu que eles seriam como o seu Filho, para que esse Filho fosse o primeiro entre muitos irmãos. Deus planejou para que essas pessoas fossem como o seu Filho, e as chamou. E não as chamou como também as declarou justas. E não as declarou justas como também repartiu a sua glória com elas. Romanos 8:28-30. O objetivo primordial de Deus é nos tornar réplicas espirituais de seu Filho. Somos regenerados com a vida de Jesus Cristo e passamos a ter a mente de Cristo, para que possamos pensar os pensamentos de Cristo.
As novas criaturas geradas por Deus, em Cristo, são pessoas com outra natureza e mentalidade. Agora que Cristo é a sua vida, elas pensam os pensamentos de cima e agem com os métodos de Deus. As novas criaturas são livres e libertas. Logo, os odres que suportam a amplitude das vidas graciosas não podem ter as mesmas proporções rígidas dos odres que norteavam o sistema legalista. É impossível para um cristão transformado pela graça de Deus conviver livremente num sistema poluído pelas idéias e costumes judaizantes. Jesus mostrou que os odres gastos da religiosidade formal não suportariam a novidade em distensão que a graça de Deus iria proporcionar. Por outro lado, a bitola estreita do pensamento ritualista não tolera a largueza e amplitude dos odres novos. A lei perfeita da liberdade produz um estado de aceitação incompatível com a mentalidade sufocante do farisaísmo. Quem foi educado num regime austero tem muita dificuldade em conviver com a liberdade. Muitas grades que são postas no perímetro dos relacionamentos para conter o perigo da libertinagem, de fato, visam assegurar o medo de uma vida em plena liberdade. Talvez esta seja a questão que Jesus apontou no texto: Ninguém, depois de beber vinho velho, quer vinho novo, pois diz: O vinho velho é melhor. Não se trata tanto da qualidade do vinho, mas da tradição. É verdade que em questão de vinho, normalmente os mais velhos são melhores. Mas Jesus está enfatizando a pretensa segurança que eles sentiam no velho sistema já estabelecido. Parece ser mais o dano que o novo acarreta ao velho do que o oposto. O novo sempre ameaça a segurança da estabilidade. Mas o Evangelho de Jesus Cristo rompe as barreiras e estabelece a novidade da vida numa estrutura nova, dinâmica e evolutiva. O vinho novo só permanece em odres novos.

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