sexta-feira, 1 de junho de 2012

A DÍVIDA DA DÁDIVA


A DÍVIDA DA DÁDIVA
Por:
Glenio Fonseca Paranaguá


Tenho-vos mostrado em tudo que, trabalhando assim, é mister socorrer os necessitados e recordar as palavras do próprio Senhor Jesus: Mais bem-aventurado é dar que receber. Atos 20:35.
A existência mais inútil é aquela que se centraliza na auto-satisfação, pois o homem egoísta é aquele que mais se ilude consigo próprio. Ninguém pode ser tão infeliz como a pessoa que só pensa em seu bem estar e que só se preocupa com o seu mundo apertado, habitado apenas por um indivíduo. A camisa-de-força do egoísmo mantém o seu dono numa pressão permanente de insatisfação e numa agonia insuportável de avareza invejosa. Se você quiser viver miseravelmente pense somente em si; pense no que precisa, no que gosta e no respeito e atenção que você quer que os outros lhe dêem. Aquele que passa a vida pensando apenas em levar vantagem traz grande vantagem aos outros, quando morre. A vida egocêntrica é insuportável. Considera-se escravo do maior dos escravos aquele que não serve a outra pessoa, a não ser a si próprio.
Por isso, a salvação visa atingir o ser humano no seu ego. A morte do eu é o tiro de misericórdia para destruir a infelicidade do homem. Só depois da crucificação do ego, por meio de Jesus Cristo, podemos entrar no reino amplo do amor incondicional. A glória da vida é amar, não ser amado; dar, não receber; servir, não ser servido. A lei da vida abundante mostra claramente que é morrendo que se renasce, e é dando que se possui. Quando Cristo nos fez morrer no seu corpo tinha como objetivo nos libertar de nosso maior tirano. A vida oferece apenas duas alternativas: co-crucificação com Cristo ou autodestruição sem Ele. Morrer para nossa auto-estima faz parte da essência do cristianismo. Todos os cristãos autênticos vivem uma vida de morte para si mesmos, pois este é o segredo de sua surpreendente vitalidade. Cristo só será tudo, quando eu for nada. Cristo será minha vida plena, quando eu crer plenamente na minha morte com Ele, por meio de sua cruz. O cristianismo tem um segredo desconhecido de todas as tendências filosóficas: como morrer para o eu. Esta confidência torna o cristão singular num mundo de tantas contradições. Sem cruz interior não se segue a Cristo.
A morte do eu, por meio da graça de Cristo, liberta o cristão do servilismo do ter. O jovem rico entristeceu-se com Jesus quando este lhe disse que ainda faltava uma coisa. O que impede o homem de entrar no reino dos céus não é o fato de possuir riquezas, mas o fato das riquezas o possuírem. O mundo e a sua plenitude jamais podem mitigar a sede da alma. O ouro do universo não satisfaz o vazio do coração. Quando o espírito fica dominado pelo medo de perder ou pela ambição de ganhar, a pessoa se torna prisioneira das algemas imponderáveis da riqueza. Alguém já disse que: menos pessoas que sobrevivem ao teste da prosperidade do que as pressões da pobreza. Mas tanto os pobres que desejam ficar ricos, como os ricos que temem ficar pobres são reféns dos mesmos sentimentos subalternos. Ora, os que querem ficar ricos caem em tentação, cilada e em muitas concupiscências insensatas e perniciosas, as quais afogam os homens na ruína e perdição. 1 Timóteo 6:9. A grande mensagem do Evangelho passa pela porta da prisão. Se não formos libertados do esquema sufocante do materialismo, jamais poderemos viver a abundância da felicidade. Não existe defeito que limite e mate mais efetivamente os sentimentos, que torne as afeições do homem mais completamente centralizadas em si mesmo, excluindo todos os outros de participar delas, do que o desejo de acumular bens, insistia Thomas Manton. Que adianta ser proprietário de muitos bens e ao mesmo tempo causar-lhe tantos males com as preocupações, que caracterizam o cativeiro da posse? Grave mal vi debaixo do sol: as riquezas que seus donos guardam para o próprio dano. Eclesiastes 5:13. O ganancioso acumula riquezas não para usufrui-las, mas para ser exaurido por elas. Contudo, a nossa salvação é uma dádiva gratuita de Deus que visa nossa inteira libertação do domínio asfixiante do poder dos haveres.
Onde Deus torna-se doador, o homem torna-se devedor. Ao Senhor pertence a terra e tudo o que nela se contém, o mundo e os que nele habitam. Salmo 24:1. Onde Deus é dono, o máximo que podemos ser é mordomos. A verdade fundamental da mordomia é que tudo o que tocamos pertence a Deus. Somos inquilinos de um patrimônio divino. Jesus não será nosso Salvador, a não ser que seja antes de tudo nosso Senhor. E não um centímetro deste universo acerca do qual Jesus Cristo não diga: É meu. Sendo assim, a mordomia cristã não recai apenas sobre um percentual que precisamos devolver ao Senhor, mas sobre tudo que se encontra sob nossos cuidados, para administrarmos. Toda a nossa vida e todos os nossos bens pertencem, de fato, ao Senhor Jesus, que nos resgatou do império das trevas e da mediocridade egoísta.
A graça de Deus não é um balcão de pechinchas. Assim, a atividade da mordomia cristã não é realizada porque traz lucros pessoais, mas porque faz parte do plano de Deus para conosco. O dízimo não é gorjeta que colocamos na bandeja do garçom, como complemento dos serviços prestados, nem teto máximo de contribuição obrigatória. O dízimo é apenas o piso inicial aos principiantes inseguros da fé, até que cheguemos à compreensão clara de que a liberalidade cristã consiste menos em dar profusamente, do que dar livremente. A generosidade não se baseia tanto em dar muito, mas em dar o máximo, com liberdade, oportunidade e alegria. Cada um contribua segundo tiver proposto no coração, não com tristeza ou por necessidade; porque Deus ama a quem com alegria. 2 Coríntios 9:7.
Ganhamos a vida pelo que recebemos abundantemente da graça de Deus. Vivemos a vida pelo que damos voluntariamente da plenitude que a graça nos deu. E, como pontuava William Walsh, um ato generoso é sua própria recompensa. O maior contentamento de um mordomo fiel é a alegria de participar da obediência que envolve os planos de Deus. No reino de Deus não há impostos, encargos ou tributos e ninguém é obrigado a contribuir. Toda cooperação verdadeira provém de um coração livre, limpo e leve. Entretanto, mesmo não sendo um constrangimento, a graça não torna a contribuição algo opcional, mas voluntário, prazeroso e liberal. Deus tem um método secreto para recompensar seus santos. Ele toma providências para que eles se tornem os primeiros beneficiados por sua própria beneficência. A maior gratificação do contribuinte já está embutida na docilidade obediente e no privilégio de participar deste ministério. Porque eles, testemunho eu, na medida de suas posses e mesmo acima delas, se mostraram voluntários, pedindo-nos, com muitos rogos, a graça de participarem da assistência aos santos. 2 Coríntios 8:3-4.
É possível dar sem amor, mas é impossível amar sem dar. Os convertidos da Igreja primitiva apelavam para as prerrogativas de poderem tomar parte no honroso compromisso da contribuição. O amor precisa amar, ainda que não ganhe nada com isso, pois a prova do amor está em sua capacidade de sofrer pelo objeto de sua afeição. O amor cristão é a marca registrada dos discípulos de Cristo. Mas, muitos membros da igreja contemporânea sentem-se coagidos e importunados quando se toca neste tema, porque somos a geração do congelamento afetivo do amor. O resfriamento do amor proposto por Jesus para os tempos do fim vem caracterizando a grande crise dos relacionamentos humanos e a tendência doentia de sovinagem. Entretanto, nós somos devedores impagáveis de uma dívida contraída com a dádiva eterna do Calvário, que jamais pode ser tratada de modo superficial. Jesus mostrou que o discipulado se identifica com a atitude do verdadeiro amor. Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros. João 13:35. O amor e a obediência a Deus estão de tal maneira entrelaçados um com o outro que a existência de um implica na presença do outro, e o amor fraternal é o uniforme do discípulo de Cristo. Todos os que conhecem o amor de Deus amam realmente, e os que amam contribuem liberalmente para os propósitos do Reino de Deus. Esta é uma dívida proveniente de uma grande dádiva.

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