A
DÍVIDA
DA
DÁDIVA
Por: Glenio Fonseca Paranaguá
Por: Glenio Fonseca Paranaguá
Tenho-vos
mostrado
em
tudo
que,
trabalhando
assim,
é
mister
socorrer
os
necessitados
e
recordar
as
palavras
do
próprio
Senhor
Jesus:
Mais
bem-aventurado
é
dar
que
receber.
Atos
20:35.
A
existência mais inútil é aquela que se centraliza na
auto-satisfação, pois o homem egoísta é aquele que mais se ilude
consigo próprio. Ninguém pode ser tão infeliz como a pessoa que só
pensa em seu bem estar e que só se preocupa com o seu mundo
apertado, habitado apenas por um indivíduo. A camisa-de-força do
egoísmo mantém o seu dono numa pressão permanente de insatisfação
e numa agonia insuportável de avareza invejosa. Se você
quiser viver miseravelmente
pense somente em si;
pense no que precisa,
no que gosta e
no respeito e atenção
que você quer que
os outros lhe dêem.
Aquele que passa a vida pensando apenas em levar vantagem traz grande
vantagem aos outros, quando morre. A vida egocêntrica é
insuportável. Considera-se escravo do
maior dos escravos aquele
que não serve a
outra pessoa, a não
ser a si próprio.
Por
isso, a salvação visa atingir o ser humano no seu ego. A morte do
eu é o tiro de misericórdia para destruir a infelicidade do homem.
Só depois da crucificação do ego, por meio de Jesus Cristo,
podemos entrar no reino amplo do amor incondicional. A
glória da vida é
amar, não ser amado;
dar, não receber; servir,
não ser servido. A lei da
vida abundante mostra claramente que é morrendo que se renasce, e é
dando que se possui. Quando Cristo nos fez morrer no seu corpo tinha
como objetivo nos libertar de nosso maior tirano. A vida
oferece apenas duas
alternativas: co-crucificação com
Cristo ou autodestruição
sem Ele. Morrer para nossa auto-estima faz
parte da essência do cristianismo. Todos os
cristãos autênticos vivem
uma vida de morte
para si mesmos, pois
este é o segredo
de sua surpreendente
vitalidade. Cristo só será tudo, quando eu for nada.
Cristo será minha vida plena, quando eu crer plenamente na minha
morte com Ele, por meio de sua cruz. O cristianismo tem um segredo
desconhecido de todas as tendências filosóficas: como morrer para o
eu. Esta confidência torna o cristão singular num mundo de tantas
contradições. Sem cruz interior não se segue a Cristo.
A
morte do eu, por meio da graça de Cristo, liberta o cristão do
servilismo do ter. O jovem rico entristeceu-se com Jesus quando este
lhe disse que ainda faltava uma coisa. O que
impede o homem de
entrar no reino dos
céus não é o
fato de possuir riquezas,
mas o fato das
riquezas o possuírem. O mundo
e a sua plenitude jamais podem mitigar a sede da alma. O ouro do
universo não satisfaz o vazio do coração. Quando o espírito fica
dominado pelo medo de perder ou pela ambição de ganhar, a pessoa se
torna prisioneira das algemas imponderáveis da riqueza. Alguém já
disse que: Há menos pessoas
que sobrevivem ao teste
da prosperidade do que
as pressões da pobreza.
Mas tanto os pobres que desejam ficar ricos, como os ricos que temem
ficar pobres são reféns dos mesmos sentimentos subalternos. Ora,
os que querem
ficar ricos
caem em
tentação, cilada
e em muitas
concupiscências insensatas
e perniciosas,
as quais
afogam os
homens na
ruína e
perdição. 1
Timóteo 6:9. A
grande mensagem do Evangelho passa pela porta da prisão. Se não
formos libertados do esquema sufocante do materialismo, jamais
poderemos viver a abundância da felicidade. Não existe
defeito que limite e
mate mais efetivamente os
sentimentos, que torne as
afeições do homem mais
completamente centralizadas em
si mesmo, excluindo todos
os outros de participar
delas, do que o
desejo de acumular bens,
insistia Thomas Manton. Que adianta ser proprietário de muitos bens
e ao mesmo tempo causar-lhe tantos males com as preocupações, que
caracterizam o cativeiro da posse? Grave mal
vi debaixo do
sol: as
riquezas que
seus donos
guardam para
o próprio
dano. Eclesiastes
5:13. O ganancioso acumula riquezas não para
usufrui-las, mas para ser exaurido por elas. Contudo, a nossa
salvação é uma dádiva gratuita de Deus que visa nossa inteira
libertação do domínio asfixiante do poder dos haveres.
Onde
Deus torna-se doador, o
homem torna-se devedor. Ao
Senhor pertence
a terra e
tudo o que
nela se
contém, o
mundo e os
que nele
habitam. Salmo
24:1. Onde Deus é dono, o máximo que podemos
ser é mordomos. A verdade fundamental
da mordomia é que
tudo o que tocamos
pertence a Deus. Somos
inquilinos de um patrimônio divino. Jesus não será nosso Salvador,
a não ser que seja antes de tudo nosso Senhor. E
não há um centímetro
deste universo acerca do
qual Jesus Cristo não
diga: É meu. Sendo assim, a
mordomia cristã não recai apenas sobre um percentual que precisamos
devolver ao Senhor, mas sobre tudo que se encontra sob nossos
cuidados, para administrarmos. Toda a nossa vida e todos os nossos
bens pertencem, de fato, ao Senhor Jesus, que nos resgatou do império
das trevas e da mediocridade egoísta.
A
graça de Deus não é um balcão de pechinchas. Assim, a atividade
da mordomia cristã não é realizada porque traz lucros pessoais,
mas porque faz parte do plano de Deus para conosco. O dízimo não é
gorjeta que colocamos na bandeja do garçom, como complemento dos
serviços prestados, nem teto máximo de contribuição obrigatória.
O dízimo é apenas o piso inicial aos principiantes inseguros da fé,
até que cheguemos à compreensão clara de que a liberalidade cristã
consiste menos em dar profusamente, do que dar livremente. A
generosidade não se baseia tanto em dar muito, mas em dar o máximo,
com liberdade, oportunidade e alegria. Cada um
contribua segundo
tiver proposto
no coração,
não com
tristeza ou
por necessidade;
porque Deus
ama a quem
dá com
alegria. 2
Coríntios 9:7.
Ganhamos
a vida pelo que recebemos abundantemente da graça de Deus. Vivemos a
vida pelo que damos voluntariamente da plenitude que a graça nos
deu. E, como pontuava William Walsh, um ato
generoso é sua própria
recompensa. O maior contentamento de um mordomo fiel é a
alegria de participar da obediência que envolve os planos de Deus.
No reino de Deus não há impostos, encargos ou tributos e ninguém é
obrigado a contribuir. Toda cooperação verdadeira provém de um
coração livre, limpo e leve. Entretanto, mesmo não sendo um
constrangimento, a graça não torna a contribuição algo opcional,
mas voluntário, prazeroso e liberal. Deus tem
um método secreto para
recompensar seus santos.
Ele toma providências para
que eles se tornem
os primeiros beneficiados
por sua própria
beneficência. A maior gratificação do contribuinte já
está embutida na docilidade obediente e no privilégio de participar
deste ministério. Porque eles,
testemunho eu,
na medida de
suas posses e
mesmo acima
delas, se
mostraram voluntários,
pedindo-nos, com
muitos rogos,
a graça de
participarem da
assistência aos
santos. 2
Coríntios 8:3-4.
É
possível dar sem amor,
mas é impossível amar
sem dar. Os convertidos da Igreja primitiva
apelavam para as prerrogativas de poderem tomar parte no honroso
compromisso da contribuição. O amor precisa
amar, ainda que não
ganhe nada com isso,
pois a prova do
amor está em sua
capacidade de sofrer pelo
objeto de sua afeição.
O amor cristão é a marca registrada dos discípulos de Cristo. Mas,
muitos membros da igreja contemporânea sentem-se coagidos e
importunados quando se toca neste tema, porque somos a geração do
congelamento afetivo do amor. O resfriamento do amor proposto por
Jesus para os tempos do fim vem caracterizando a grande crise dos
relacionamentos humanos e a tendência doentia de sovinagem.
Entretanto, nós somos devedores impagáveis de uma dívida contraída
com a dádiva eterna do Calvário, que jamais pode ser tratada de
modo superficial. Jesus mostrou que o discipulado se identifica com a
atitude do verdadeiro amor. Nisto conhecerão
todos que
sois meus
discípulos: se
tiverdes amor
uns aos
outros. João
13:35. O amor e
a obediência a Deus
estão de tal maneira
entrelaçados um com o
outro que a existência
de um implica na
presença do outro, e
o amor fraternal é
o uniforme do discípulo
de Cristo. Todos os que conhecem o amor de
Deus amam realmente, e os que amam contribuem liberalmente para os
propósitos do Reino de Deus. Esta é uma dívida proveniente de uma
grande dádiva.
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