O
CRIME DA LETRA
Por: Glenio Fonseca Paranaguá
Por: Glenio Fonseca Paranaguá
E
é por intermédio de Cristo que temos tal confiança em Deus não
que, por nós mesmos, sejamos capazes de pensar alguma coisa, como se
partisse de nós; pelo contrário, a nossa suficiência vem de Deus,
o qual nos habilitou para sermos ministros de uma nova aliança, não
da letra, mas do espírito; porque a letra mata, mas o espírito
vivifica. 2 Coríntios 3:4-6.
O
termo configura a palavra e essa exibe um significado. A letra grafa
um termo que designa uma palavra que tem um sentido. A escrita é o
desenho de um vocábulo que traz uma acepção. Água, por exemplo, é
um termo que define uma idéia, que expressa um fato. O termo é o
diagrama da palavra, enquanto a palavra é como a casca da banana que
conserva o fruto. Há um valor verdadeiro em cada palavra que o termo
apresenta. Quando eu escrevo o termo água, ele me remete para um
conceito que me traz a avaliação da coisa, na base da experiência.
Se eu sei o que é água, então o termo me conduz à palavra que
coliga com a realidade. A idéia de água é identificada na palavra
descrita. Se eu não tenho a definição do termo, então a palavra
fica sem sentido para mim. Se eu escrever hudatos, o
termo fica incompreensível para muita gente. É preciso uma
explicação que traga sentido ao termo. Mas este termo é apenas a
transliteração da palavra água, na língua grega. Quem não sabe o
termo grego, não sabe o significado da palavra e fica sem
entendimento. Por outro lado, o significado das palavras conhecidas
varia de cultura para cultura e de pessoa para pessoa. Segundo Paulo,
há palavra na letra, mas ela vai além da escrita, pois a letra é
em si mesma morta, e do ponto de vista do espírito, ela é mortal.
Não há vida espiritual no termo. A expressão da vida encontra-se
na vivificação da palavra que sai da boca de Deus. O termo sem a
fecundação do Pai e a revelação do Espírito é uma urna
funerária que conserva uma expressão morta. A letra sem o Espírito
é homicida.
A
escrita é a codificação da palavra, porém esta palavra precisa
ser avivada pela ação do Espírito Santo, a fim de produzir o
resultado espiritual em cada pessoa. O termo gráfico é como um
carvão que só pode acender se for inflamado, e só pode ficar
incendiado se for soprado pelo Espírito. Sem a vida divina o
vocábulo é um mero defunto e sua operação é sinistra. A letra da
Escritura sem a vivificação da Trindade é uma composição
literária de grande valor histórico, mas sem qualquer importância
para o avivamento. A letra sem o sopro do Espírito é delito. Um dos
maiores crimes contra a igreja é a pregação da letra fria. Há
muita gente morta em conseqüência de uma mensagem rigorosamente
letrada. É uma proclamação bíblica e ortodoxa, mas não tem vida
espiritual. Estou convencido de que em muitas ocasiões tenho sido
culpado desse tipo de pregação, e que há uma multidão de
cadáveres religiosos em razão da letra morta. Jesus foi muito claro
ao dizer: O espírito
é o que
vivifica; a
carne para
nada aproveita;
as palavras
que eu vos
tenho dito
são espírito
e são vida.
João 6:63.
O
termo limita a palavra. Quando eu denomino uma realidade com um
termo, não significa que eu a compreendo. Além disso, definir um
termo é colocar fronteira no seu perímetro. A palavra de Deus
ultrapassa o alcance da nossa mente, por isso, delimitá-la é
prejuízo de proporções inimagináveis. O apóstolo Paulo afirma
com a maior exatidão: Ora, o
homem natural
não aceita
as coisas do
Espírito de
Deus, porque
lhe são
loucura; e
não pode
entendê-las, porque
elas se
discernem espiritualmente.
1 Coríntios
2:14. A mente, ainda que seja o terreno da
compreensão humana, encontra-se limitada pelos conceitos
tridimensionais. Como a realidade espiritual transcende a fronteira
da matéria, fica impossível a sua conceituação. A questão ao
anunciar a palavra de Deus requer mais do que explicação lógica. A
grande necessidade na pregação é a revelação da palavra e a sua
vivificação. Uma coisa é a exegese do texto, outra bem diferente é
a unção decorrente da intimidade como o Espírito de Deus, que
revela e vivifica a palavra. Saber dissecar os termos não gera vida
nas pessoas. Só o Espírito produz vida espiritual por meio da sua
palavra. A grande crise na pregação moderna é a falta de
conhecimento pessoal da palavra de Deus aliada à ausência de
revelação e vivificação do Espírito. Hoje se fala muito de unção
como sinônimo de sentimento inflamado. Mas, ainda que a emoção
tenha lugar numa experiência verdadeiramente espiritual, essa emoção
acalorada nunca foi semelhante à unção espiritual. É fogo
estranho no altar do Senhor. Um pregador ungido é alguém controlado
pelo poder do alto e cheio de domínio próprio, cujo objetivo é
transmitir, com fidelidade, a palavra de Deus revelada e vivificada
pelo Espírito Santo ao coração dos seus ouvintes. Por isso mesmo,
nunca se deve confundir a unção espiritual com essa animação do
sujeito na pregação. Mas a alma excitada é um expediente carnal
muito comum na exposição da palavra de Deus. Para o apóstolo, o
crime da letra é um homicídio da vida espiritual. Se alguém ficar
preso à escrita é um morto espiritual e matador. Ainda que a letra
seja vital para o conhecimento da palavra de Deus, permanecer
aprisionado a ela, é matança. É importante que se conheça a
Escritura, pois ela, à semelhança dos trilhos para o trem, é o
suporte para a revelação. Todavia, não se pode continuar na vida
cristã sendo contido pela letra.
Assim
como a agulha magnética aponta para o Pólo Norte, a Escritura
aponta para a pessoa de Cristo. Ela é uma biblioteca que testemunha
da vida magnífica de Cristo. Jesus disse para os seus
contemporâneos: Examinais as
Escrituras, porque
julgais ter
nelas a vida
eterna, e são
elas mesmas
que testificam
de mim.
Contudo, não
quereis vir a
mim para
terdes vida.
João 5:39-40.
De
acordo com Jesus, a Bíblia é o álbum de sua pessoa, o cardápio do
seu banquete, a anamnese de sua história, o mapa da sua andança, a
revelação de sua identidade e a receita da única vida que
realmente faz sentido. A Escritura distingue essa fonte suficiente de
vida e a oferece como exclusiva para dar significado ao ser humano.
Ninguém se relaciona pessoalmente com retrato, nem come cardápio.
Mesmo que a carta geográfica seja indispensável para a orientação
dos peregrinos, nenhuma pessoa anda sobre os traçados das cartas.
Além disso, todos nós precisamos de alguém vivo para nos
relacionar. Apesar de o cardápio ter valor na escolha da comida, ele
não é o alimento. A Bíblia é o cardápio do céu, mas Cristo é o
único mantimento. Eu preciso do cardápio para conhecer e escolher
os pratos, porém eu não me alimento dele. Jesus é o maná do menu
de Deus e só ele pode nos satisfazer realmente. Declarou-lhes,
pois, Jesus:
Eu sou o
pão da vida;
o que vem
a mim jamais
terá fome; e
o que crê
em mim jamais
terá sede.
João 6:35. Ele não
é lição preciosa para a nossa vida. Ele é o pão cotidiano.
A
letra é útil para nos conduzir ao manjar, contudo a letra não nos
nutre. A alimentação específica da vida espiritual é Cristo. Não
existe outra comida que possa atender às necessidades do espírito
fora da pessoa de Cristo Jesus. Eu sou
o pão da
vida. Vossos
pais comeram
o maná no
deserto e
morreram. Este
é o pão
que desce do
céu, para
que todo o
que dele
comer não
pereça. João
6:48-50.
O
crime da letra é a desnutrição e a morte. Sem comida a vida
perece. Alguém desnutrido é um aspirante a defunto. Cristo é o
verbo encarnado e o pasto das ovelhas. Não existe outra pastagem
para o crente além da pessoa de Cristo. Se não encontrarmos a
pessoa de Cristo em nossa leitura bíblica, não encontramos a vida e
o alimento espiritual. Só Cristo pode contentar a nossa alma e
alegrar o nosso espírito com a sua vida. Ele é o único alimento
espiritual que pode dar significado ao ser humano. Assim
como o Pai,
que vive, me
enviou, e
igualmente eu
vivo pelo
Pai, também
quem de mim
se alimenta
por mim
viverá. João
6:57.
A
fome da alma é um apetite por Deus que apenas Cristo pode
satisfazer. Por que
gastais o
dinheiro naquilo
que não é
pão, e o
vosso suor,
naquilo que
não satisfaz?
Ouvi-me atentamente,
comei o que
é bom e
vos deleitareis
com finos
manjares. Inclinai
os ouvidos e
vinde a mim;
ouvi, e a
vossa alma
viverá; porque
convosco farei
uma aliança
perpétua, que
consiste nas
fiéis misericórdias
prometidas a
Davi. Isaías
55:2-3.
A
nação israelita ficou apenas com o cardápio, deixando de comer o
verdadeiro pão que veio do céu. Mas a igreja atual passa pelo mesmo
lance crítico. Hoje em dia nós nos esmeramos na qualidade estética
do cardápio e na sua melhor tradução, e apesar disso, pouca gente
tem comido do pão de Deus. As versões bíblicas são fantásticas e
as encadernações primorosas e ainda assim o povo está morto
espiritualmente e com fome, pois a letra mata. Erudição não mata a
fome do espírito. Madame Guyon falava de uma leitura textual que
deve enfocar a pessoa de Cristo. Quando estivermos lendo a Escritura
precisamos parar a cada instante para entrarmos em contato com o
Cristo que habita em nosso espírito e que se revela no encadeamento
das palavras que estamos lendo. Se não houver esta afinidade entre o
Cristo que vive no espírito do crente e o Espírito de Cristo que se
manifesta na palavra, nós estamos sem vida. Como vimos
anteriormente, podemos ter uma pregação ortodoxa e profundamente
escriturística, mas sem a vida espiritual. A grande necessidade da
igreja atual é de um avivamento bíblico. Precisamos de centralidade
na Bíblia, mas carecemos, além disso, da vivificação e revelação
do Espírito Santo. A letra sem o hálito fresco da boca Divina é um
esqueleto literário, sem o poder de vivificar. O palácio real sem a
realeza é simplesmente um museu. A letra da Escritura sem a vida
manifesta de Cristo é bibliografia ou história. A grande
necessidade da igreja é de comunhão pessoal com o seu Salvador e
Senhor, por isso, não basta fazer a mera leitura da Bíblia, já que
é imperativa a revelação do Espírito para torná-la viva na
experiência do crente. Sem a luz do Espírito a letra se configura
numa arma assassina, e nós, os pregadores, em múmias criminosas.
Vem Senhor vivificar e revelar a tua palavra em nosso ser.
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