quinta-feira, 14 de junho de 2012

O ENIGMA DAS VONTADES


O ENIGMA DAS VONTADES
Por: Glenio Fonseca Paranaguá

Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados! Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e vós não o quisestes! Mateus 23:37.
Deus é soberano e a sua vontade é absoluta. Ele faz tudo de acordo com o seu querer e ninguém pode contrariar os seus desígnios. Tudo quanto aprouve ao SENHOR, ele o fez, nos céus e na terra, no mar e em todos os abismos. Salmos 135:6.
Deus é soberano e a sua vontade é irresistível. Nenhum soberano pode ser contestado definitivamente em seus planos. Deus nunca fará coisa alguma constrangido ou fora dos seus propósitos eternos e ninguém poderá afrontar a sua vontade em caráter permanente. Tu, porém, me dirás: De que se queixa ele ainda? Pois quem jamais resistiu à sua vontade? Romanos 9:19.
Quem poderá contestar o intuito do seu querer? Quem poderá mudar a finalidade dos seus objetivos? Comparando a vontade do Criador com o trabalho do oleiro, o apóstolo Paulo indaga: Ou não tem o oleiro direito sobre a massa, para do mesmo barro fazer um vaso para honra e outro, para desonra? Romanos 9:21.
Deus é soberano e em sua soberania criou um ser com vontade livre para decidir. A vontade de Deus determinou que a sua criatura fosse livre para escolher e que só um ser livre poderia ser responsável pela sua escolha. Por isso os nossos primeiros pais foram os únicos seres humanos com livre-arbítrio da criação divina. Adão e Eva eram livres para pecar e para não pecar. Como disse Santo Agostinho, os primeiros pais tinham a condição de liberdade que os deixavam com posse pecare e posse non pecare. Mas, depois que eles pecaram a vontade humana ficou escrava do pecado. Ninguém é mais livre para não pecar. Todos nós nascemos escravos do pecado e não podemos deixar de pecar por nós mesmos, non posse non pecare. A vontade da raça humana escrava do pecado não busca a Deus. O salmista faz como que um inquérito na sua poesia quando afirma aquilo que o apóstolo Paulo procura responder. Do céu, olha Deus para os filhos dos homens, para ver se quem entenda, se quem busque a Deus. Não quem entenda, não quem busque a Deus; todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não quem faça o bem, não nem um sequer. Salmos 53:2 e Romanos 3:11-12.
Depois do pecado de Adão, todos nós nascemos neste mundo com uma indisposição no nosso entendimento contra Deus. Não há lugar para Deus em nosso coração, pois Ele não é facilmente aceito pelo homem natural. E a vós outros também que, outrora, éreis estranhos e inimigos no entendimento pelas vossas obras malignas, Colossenses 1:21. Deus não faz parte de nossas cogitações, já que há uma inimizade natural contra Ele, em nosso interior, mas, muitas vezes, disfarçada em amizade. Nós nascemos nesse mundo remando contra a correnteza com relação à vida espiritual. Não há o menor apetite pela verdadeira vida de Deus, pois todos os seres humanos nascem obscurecidos de entendimento, alheios à vida de Deus por causa da ignorância em que vivem, pela dureza do seu coração, Efésios 4:18. A comunhão com Deus não é de fato a nossa praia, ainda que sejamos profundamente religiosos. A vontade natural dos seres humanos é sempre contra Deus. A vontade soberana de Deus é quem inclina a nossa vontade rebelde para querer a sua vontade. Ninguém poderá decidir pela vontade de Deus, se Deus mesmo não convencer a nossa vontade a querer a sua vontade, como um ato livre da nossa vontade. Se nossa deliberação for forçada ou constrangida pelo medo, interesse ou dever, então essa resolução não expressa a condição adequada da liberdade moral de um ser responsável. Deus é sempre soberano na sua eleição e o ser humano é sempre responsável pela sua decisão. Deus escolhe a quem ele quer e o escolhido decide porque quer. Deus não é obrigado a escolher ninguém. Por outro lado, nenhuma pessoa é obrigada a decidir porque Deus a escolheu. Uma escolha compelida jamais será uma decisão moralmente livre. A soberania de Deus é indiscutível, mas a responsabilidade humana é indispensável. Nenhum eleito poderá rejeitar a vontade soberana de Deus, mas nenhum eleito será forçado a receber a vontade de Deus, contra a sua própria vontade. A obra soberana da graça de Deus conquista sem violência a nossa vontade insurgente, para que possamos livremente optar pela vontade soberana de Deus. A eleição divina é soberana e a decisão humana é franqueada por uma resolução livre de um ser responsável. Volto a insistir. Só um ser livre pode receber livremente a vontade soberana de Deus em sua vida. A questão é: por que Deus escolhe? Por que os escolhidos são livremente convencidos e os outros não? Por que muitos crêem e muitos continuam rebeldes contra Deus?
Vimos, anteriormente, com Paulo, que o oleiro tem o direito de fazer um vaso para um lugar de honra e, se ele quiser, um vaso para um lugar de desonra. Mas por causa da nossa onipotência, nós não achamos que Deus tem o direito de fazer o que Ele quer. A nossa vontade dominada pela arrogância do pecado tem a tendência de dar as cartas para aquilo que Deus faz. Sendo assim, se eu não posso fazer tudo aquilo que acho que devo fazer, então Deus não tem o direito de fazer aquilo que contraria o que eu acho que Ele deve fazer. A minha vontade teomaníaca quer decidir o que Deus precisa fazer e só assim Ele se tornará admissível dentro da minha concepção. Um deus encaixado na minha cachola é a única fórmula cabível de deus no meu universo. Mas a vontade do Deus absoluto não pode ser explicada por uma mente finita. Isto não quer dizer que Deus seja incognoscível e a sua vontade emblemática, mas que o nosso conhecimento Dele será sempre finito e dependente de sua revelação. A nossa mente nunca alcançará a grandeza da sua dimensão. Essa vontade soberba precisa ser invadida e conquistada pela graça de Deus, a fim de sermos apossados da vontade soberana que nos torna voluntariamente acessíveis ao querer divino. Quando, pela vontade de Deus, a nossa vontade se rende livremente à sua vontade, nós nos tornamos inteiramente identificado com uma vontade singular que traz sentido a existência humana. Para Jesus a única via que equilibra o conflito existencial é o ajustamento da nossa vontade com a vontade do Pai. Ele nos ensina a orar assim: venha o teu reino; faça-se a tua vontade, assim na terra como no céu; Mateus 6:10. O reino é o governo do Pai em nosso viver diário, onde sempre desemboca no leito da sua vontade conclusiva.
O próprio Jesus orou no jardim do Getsêmani, dizendo: Pai, se queres, passa de mim este cálice; contudo, não se faça a minha vontade, e sim a tua. Lucas 22:42. Ele sabia que a vontade do Pai é o único lugar no universo que o espírito encontrará descanso, ainda que o corpo sofra terrivelmente e a alma se angustie até à morte. Fora da vontade de Pai, o filho de Deus estará num deserto e a criatura divina em tormenta eterna.
A vontade de Deus é soberana e a vontade dos eleitos é livre na escolha. Deus nos escolheu soberanamente e nós recebemos voluntariamente a sua escalação. Na seleção de Deus não há uma Nike impondo jogadores, nem craques jogando contra vontade. Se os atletas de Jerusalém não ouviram a convocação de Jesus é porque não quiseram ouvir. Jesus os convidou para a comunhão das asas, para o abrigo da intimidade, mas eles não aquiesceram ao convite por causa da soberba azucrinante do seu orgulho. No fundo do pecado reside uma atitude de auto-suficiência que evita qualquer advento de humildade. Sendo assim, Deus resiste aos soberbos, mas graça aos humildes. Tiago 4:6b. A justiça própria é a causa primária de nosso fracasso espiritual.
A vontade de Deus é que sejamos salvos. A vontade do arrogante é se salvar por si mesmo. O pecado torna o pecador autônomo e independente de Deus. A nossa atitude audaciosa nos leva à pretensão de renegar o convite da graça, pois quando Jesus chamou Jerusalém, Jerusalém recusou o convite da graça. Esse é sempre o maior problema da autonomia do pecado. Jerusalém não quis a graça porque ela se bastava a si mesma.
Todo o nosso problema é nos conformar plenamente com a vontade de Deus. Tudo neste mundo é transitório, só a vontade de Deus é permanente. Ora, o mundo passa, bem como a sua concupiscência; aquele, porém, que faz a vontade de Deus permanece eternamente.1 João 2:17. Fazer a vontade de Aba é o maior projeto de vida de seus filhos. Não é o êxito ou o temor que caracterizam o perfil dos filhos de Aba, mas a alegria de praticar e concordar com a sua vontade. O cerne da vida cristã seria a disposição natural de fazer voluntariamente a vontade do Pai acima de tudo, no entanto o nosso coração não tem essa inclinação. Por isso, a oração de F. B. Mayer se torna indispensável: Senhor, tu sabes que a minha vontade é fraca de acordo com a minha carne, e que nunca desejará fazer a tua vontade. Senhor! Faz tua vontade fazer com que a minha vontade deseje fazer a tua vontade. Aqui a obra da cruz se torna indispensável em nossa experiência. Só uma pessoa realmente crucificada com Cristo pode desejar se submeter inteiramente à vontade do Pai.
Deste modo, também podemos orar assim: Pai, se a tua vontade não despertar a minha vontade a querer a tua vontade, eu jamais desejarei buscá-la em minha vida. Por isso, eu te peço que tu me faças querer a ti mesmo como tu me queres. Eu sei que se tu não me levares a querer-te com o teu querer, todo o meu querer por ti será um mero desejo de um querer transitório. Sendo assim, Pai, faze-me querer-te como tu me queres, para que eu te querendo com o teu querer, possa te querer eternamente com o mesmo querer que tu sempre me quiseste deste a fundação do mundo. Em nome de Jesus. Amém.

O PODER FASCINANTE DO PODER


O PODER FASCINANTE DO PODER
Por: Glenio Fonseca Paranaguá

Pois quem é que te faz sobressair? E que tens tu que não tenhas recebido? E, se o
recebeste, por que te vanglorias, como se o não tiveras recebido? 1 Coríntios 4:7.
O ser humano encontra-se contaminado pelo vírus da grandeza. Ninguém está imune a esse agente contagioso e são poucos aqueles que conseguem soro satisfatório para neutralizar seus efeitos letais. A necessidade de prestígio tem financiado as táticas ardilosas de distinção para levar muita gente encurtada ao auge da fama. Ninguém gosta do ostracismo nem do lugar comum. A burguesia é vulgar demais para o estilo elevado da alta nobreza. Todos nós sofremos com os micróbios invisíveis deste macro dimensionamento, pois há uma tendência inata na raça humana pelo pódio. O pecado da espécie adâmica é assinalado por um desejo teomaníaco de consideração. No fundo do desempenho reside uma vontade de ser reconhecido. Mesmo a atuação mais ingênua corre o risco da arrogância. A humildade pode ser uma máscara para ocultar os sentimentos disfarçados da importância humana. Todos os dias eu enfrento algum anseio de elevação ou alguma carência de reconhecimento. O pecado me deixou obcecado pelo quesito da estima. Esse é um dos quocientes que mede o meu valor perante a opinião pública. Todos nós somos pessoas carentes, por isso, os elogios se prestam para negociar com a nossa estima no mercado da apreciação. Quando alguém fala bem de mim, percebo que estou em perigo. Sou muito vulnerável a esse jogo do poder que me faz reconhecido diante da platéia. A minha valorização no conceito dos outros é uma tática que me mantém escravo de um bom julgamento.
O apóstolo Paulo indaga: Pois quem é que te faz sobressair? Se você e eu somos pessoas únicas, essa singularidade é uma dádiva de Deus. Todos nós somos o resultado da seleção divina, e ninguém consegue ir além do que lhe foi concedido. Veja como João Batista vê esse ponto. Respondeu João: O homem não pode receber coisa alguma se do céu não lhe for dada. João 3:27.
Ora, se alguém consegue se destacar nas atividades do Reino de Deus, deve esse realce à graça. Tudo o que somos como filhos de Deus é conseqüência direta dessa graça imerecida. A pergunta do apóstolo é: o que você tem que não tenha ganhado? E o Rei Davi responde: Riquezas e glória vêm de ti, tu dominas sobre tudo, na tua mão força e poder; contigo está o engrandecer e a tudo dar força. 1 Crônicas 29:12.
Deus é a causa primária de todas as coisas, mas Ele não é a origem do pecado. A vontade é um atributo natural do ser humano, entretanto o desejo de ser como Deus é uma aberração desse atributo. Deus fez Adão e Eva como seres humanos à sua semelhança, sendo assim, não havia probabilidade do gênero humano ser Deus. Esse desejo de ser como Deus é a fonte da rebeldia pecaminosa. A contaminação do pecado desandou com a raça adâmica. Somos uma espécie rebelada e viciada pelo poder. O deslumbramento por grandeza, distinção e poder é uma cachaça na existência de cada componente da humanidade. Observe o exemplo do rei de Tiro: Filho do homem, dize ao príncipe de Tiro: Assim diz o SENHOR Deus: Visto que se eleva o teu coração, e dizes: Eu sou Deus, sobre a cadeira de Deus me assento no coração dos mares, e não passas de homem e não és Deus, ainda que estimas o teu coração como se fora o coração de Deus. Ezequiel 28:2.
Você logo rebarba: isto é exceção. Não, isto é a regra. O ser humano é um caçador permanente de poder. Sempre que alguém tiver a chance de governar, vai usar da posse para se projetar. Mesmo um síndico de barracos sofre com a pressão do poder. Nós não gostamos da invisibilidade. Ser uma pessoa insignificante é complicado para a valorização da personagem. Viver no camarote escondido da platéia é algo muito difícil para quem busca os aplausos. Todos nós gostamos dos holofotes e ninguém vive sem algum espectador. Ser um Zé ninguém, um zero à esquerda ou uma sombra no escuro é qualquer coisa insuportável para uma espécie interesseira. Nós gostamos de nos exibir. A religião é um terreno fértil para essa casta que gosta de ostentar suas qualidades. O fariseu, posto em pé, orava de si para si mesmo, desta forma: Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens, roubadores, injustos e adúlteros, nem ainda como este publicano; Lucas 18:11.
Aqui está outra prova desta atitude enfatuada de excepcionalidade. Não é coisa natural o afastamento voluntário do palco. Temos muita necessidade de nos apresentar no show da vida e é extremamente complexo tolerar a discrição. Viver no anonimato é uma arte que só as pessoas que trazem os estigmas da cruz poderão suportar. Nesse mundo das apreciações é assaz importante você se sentir importante quando alguém se importa com a sua importância. Mas aí se encontra o perigo. Herodes foi alvejado quando o povo clamava: É voz de um deus, e não de homem! Atos 12:22.
Naquele instante os bichos tomaram conta da sua carcaça. Um homem mortal que tenta se passar por Deus não tem alternativa, senão se tornar gororoba de gusano. O pecado incha o ego a tal ponto que não há estrutura capaz de conter uma soberba como essa. O egoísmo é a obesidade dos desejos presunçosos. O problema é que o poder egoísta, muitas vezes, vem disfarçado de simplicidade. A grande ameaça do poder não é sua badalação, mas a sua sutileza. Por trás de muitos gestos aparentemente inocentes reside uma grande necessidade de vanglória. É aqui que nós precisamos investigar com mais cuidado esse assunto. Paulo indaga: E, se o recebeste, por que te vanglorias, como se o não tiveras recebido?
Qual é a finalidade dos relatórios que damos aos outros? Informar as atividades que foram realizadas seria muito bom se a exposição ficasse apenas nesse terreno dos dados. A dificuldade aparece quando vemos a imagem do realizador sendo glorificada junto com as suas realizações. Agora é que o enigma precisa ser esclarecido. Por que eu estou trazendo esta notificação a público? Qual é a verdadeira razão do meu relato?
Muita coisa que nós realizamos na igreja tem como fim a nossa promoção pessoal. Jesus chamou a atenção para as ofertas que eram dadas com o propósito do reconhecimento do ofertante. Quando, pois, deres esmola, não toques trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que eles receberam a recompensa. Mateus 6:2.
Como é forte a nossa carência de aceitação perante os outros. Luci Shaw diz que o problema do eu insaciável, a terrível e corrosiva necessidade de aparecer, de ser conhecida e reconhecida como detentora de dons naturais exclusivos, tem-me afligido durante quase toda a vida adulta. A questão não é exclusivamente dela, é minha também. Como eu gosto de ser benquisto perante os meus espectadores. O poder de uma boa imagem é alguma coisa muito astuta. Todos nós como cristãos devemos demonstrar o bom conceito da fé, mas isso não significa que somos figurantes num papel que requer aclamação. Em última análise a imagem que estamos refletindo é a influência da pessoa de Cristo. Jesus nunca aceitou ser um sensacionalista nem fez qualquer coisa com o objetivo de ser famoso. Quando realizava um sinal maravilhoso, normalmente, pedia às pessoas beneficiadas que não divulgassem o acontecimento. Por exemplo, na cura de um leproso; Ordenou-lhe Jesus que a ninguém o dissesse, mas vai, disse, mostra-te ao sacerdote e oferece, pela tua purificação, o sacrifício que Moisés determinou, para servir de testemunho ao povo. Lucas 5:14. Jesus trabalhava em silêncio sem qualquer propaganda. Ele não procurava promover-se por meio de seu ministério, mas cuidava das pessoas com o fim de torná-las inteiras, sendo tudo feito para a glória do Pai. Henri Nouwen disse: uma das maiores ironias da história da cristandade é que os líderes sempre cederam à tentação do poderpoder político, poder militar, poder econômico ou moral e poder espiritual, embora continuassem a falar no nome de Jesus. A obsessão pelo poder na liderança cristã é uma afronta ao estilo de servo, encarnado por Jesus. Pois o próprio Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por muitos. Marcos 10:45.
Além das sutilezas do poder das realizações e da imagem ainda temos o lance do poder espiritual. É muito comum a fé ser usada como um instrumento de dominação. O moderno empowerment da fé, isto é, a atribuição de poder inerente à fé é um dos grandes contratempos da saúde emocional da igreja contemporânea. A fé na fé é um deslocamento perigoso que se tem dado à questão do poder. Sabemos biblicamente que o poder é um atributo de Deus. Não há poder na fé, assim como não há poder na lâmpada. A energia está no gerador e a lâmpada revela o poder do motor. O poder espiritual é a ponte de relacionamento com Deus, onde a fé é conectada à fonte. Muitas vezes nós queremos mostrar que somos pessoas de grande fé para recebermos o reconhecimento dos nossos observadores. Com certeza é uma precipitação contarmos os feitos de Deus realizados através de nossa instrumentalidade, uma vez que as pessoas têm a tendência de pagar o cachê àqueles que são visíveis. É preciso muita cautela na divulgação dos sinais da fé, pois podemos embolsar a glória que pertence a Deus. Ainda no terreno do poder espiritual podemos ganhar pontos pessoais quando tentamos exibir a humildade como predicado particular. Mas nada é mais falso do que uma humildade alardeada. Aquele que pretende demonstrar a sua humildade acaba contaminando-a com a sua própria vaidade. A humildade é aquela qualidade que você a perde quando percebe que a tem. Toda exteriorização de humildade se constitui numa falência dessa virtude. A humildade está relacionada com a dependência do homem para com Deus, por isso só Deus sabe quem é realmente submisso a ele e dependente dele. Muitos gostam de demonstrar algo que eles acham que é humildade, a fim de angariar créditos para sua pessoa.
Mas a cruz é o único meio capaz de despejar a intenção de poder. Eugene Peterson faz uma paráfrase do esvaziamento de Cristo, com as palavras de Paulo: Façam-me o favor! Concordem entre si, amem-se mutuamente, sejam amigos sinceros. Não forcem a passagem para ficar na frente. Não agradem com palavras para ficar por cima. Fiquem de lado para deixar que os outros passem. Não tenham obsessão de levar vantagem. Esqueçam a si mesmos e pensem em si da mesma forma que fez Jesus Cristo. Ele ocupava uma posição igual à de Deus, mas não se tinha em alta conta a ponto de agarrar-se a isso de qualquer maneira. De modo algum. Quando a hora chegou, ele despojou-se dos privilégios divinos e assumiu a condição de escravo, tornando-se humano. O poder é uma coisa fascinante para o ser humano, e nós queremos comprovar o nosso poder a qualquer custo. Luci Shaw foi ainda mais clara quando afirmou: podemos falar interminavelmente sobre o poder para o bem em oposição ao poder para o mal. Mas muito tempo se sabe que, seja qual for a motivação, o poder pessoal pode corromper, e a luta pelo poder em si mesmo quase sempre cria conflitos que provocam a destruição ou aniquilação de outrem.
Para terminar, vejamos as palavras do salmista em sua profundidade. Uma vez falou Deus, duas vezes ouvi isto: Que o poder pertence a Deus, Salmos 62:11. Deus falou apenas uma vez, mas ele ouviu duas. Precisamos ouvir muito bem. O poder pertence tão-somente a Deus. Alguém já disse que deve ser todo-poderoso o poder cuja força suficiente é a fraqueza. É assim que podemos sintetizar Paulo: quando eu sou realmente fraco então poderei ser totalmente forte, porque dependerei apenas do poder absoluto de Deus.

O CRIME DA LETRA


O CRIME DA LETRA
Por: Glenio Fonseca Paranaguá

E é por intermédio de Cristo que temos tal confiança em Deus não que, por nós mesmos, sejamos capazes de pensar alguma coisa, como se partisse de nós; pelo contrário, a nossa suficiência vem de Deus, o qual nos habilitou para sermos ministros de uma nova aliança, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata, mas o espírito vivifica. 2 Coríntios 3:4-6.
O termo configura a palavra e essa exibe um significado. A letra grafa um termo que designa uma palavra que tem um sentido. A escrita é o desenho de um vocábulo que traz uma acepção. Água, por exemplo, é um termo que define uma idéia, que expressa um fato. O termo é o diagrama da palavra, enquanto a palavra é como a casca da banana que conserva o fruto. Há um valor verdadeiro em cada palavra que o termo apresenta. Quando eu escrevo o termo água, ele me remete para um conceito que me traz a avaliação da coisa, na base da experiência. Se eu sei o que é água, então o termo me conduz à palavra que coliga com a realidade. A idéia de água é identificada na palavra descrita. Se eu não tenho a definição do termo, então a palavra fica sem sentido para mim. Se eu escrever hudatos, o termo fica incompreensível para muita gente. É preciso uma explicação que traga sentido ao termo. Mas este termo é apenas a transliteração da palavra água, na língua grega. Quem não sabe o termo grego, não sabe o significado da palavra e fica sem entendimento. Por outro lado, o significado das palavras conhecidas varia de cultura para cultura e de pessoa para pessoa. Segundo Paulo, há palavra na letra, mas ela vai além da escrita, pois a letra é em si mesma morta, e do ponto de vista do espírito, ela é mortal. Não há vida espiritual no termo. A expressão da vida encontra-se na vivificação da palavra que sai da boca de Deus. O termo sem a fecundação do Pai e a revelação do Espírito é uma urna funerária que conserva uma expressão morta. A letra sem o Espírito é homicida.
A escrita é a codificação da palavra, porém esta palavra precisa ser avivada pela ação do Espírito Santo, a fim de produzir o resultado espiritual em cada pessoa. O termo gráfico é como um carvão que só pode acender se for inflamado, e só pode ficar incendiado se for soprado pelo Espírito. Sem a vida divina o vocábulo é um mero defunto e sua operação é sinistra. A letra da Escritura sem a vivificação da Trindade é uma composição literária de grande valor histórico, mas sem qualquer importância para o avivamento. A letra sem o sopro do Espírito é delito. Um dos maiores crimes contra a igreja é a pregação da letra fria. Há muita gente morta em conseqüência de uma mensagem rigorosamente letrada. É uma proclamação bíblica e ortodoxa, mas não tem vida espiritual. Estou convencido de que em muitas ocasiões tenho sido culpado desse tipo de pregação, e que há uma multidão de cadáveres religiosos em razão da letra morta. Jesus foi muito claro ao dizer: O espírito é o que vivifica; a carne para nada aproveita; as palavras que eu vos tenho dito são espírito e são vida. João 6:63.
O termo limita a palavra. Quando eu denomino uma realidade com um termo, não significa que eu a compreendo. Além disso, definir um termo é colocar fronteira no seu perímetro. A palavra de Deus ultrapassa o alcance da nossa mente, por isso, delimitá-la é prejuízo de proporções inimagináveis. O apóstolo Paulo afirma com a maior exatidão: Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente. 1 Coríntios 2:14. A mente, ainda que seja o terreno da compreensão humana, encontra-se limitada pelos conceitos tridimensionais. Como a realidade espiritual transcende a fronteira da matéria, fica impossível a sua conceituação. A questão ao anunciar a palavra de Deus requer mais do que explicação lógica. A grande necessidade na pregação é a revelação da palavra e a sua vivificação. Uma coisa é a exegese do texto, outra bem diferente é a unção decorrente da intimidade como o Espírito de Deus, que revela e vivifica a palavra. Saber dissecar os termos não gera vida nas pessoas. Só o Espírito produz vida espiritual por meio da sua palavra. A grande crise na pregação moderna é a falta de conhecimento pessoal da palavra de Deus aliada à ausência de revelação e vivificação do Espírito. Hoje se fala muito de unção como sinônimo de sentimento inflamado. Mas, ainda que a emoção tenha lugar numa experiência verdadeiramente espiritual, essa emoção acalorada nunca foi semelhante à unção espiritual. É fogo estranho no altar do Senhor. Um pregador ungido é alguém controlado pelo poder do alto e cheio de domínio próprio, cujo objetivo é transmitir, com fidelidade, a palavra de Deus revelada e vivificada pelo Espírito Santo ao coração dos seus ouvintes. Por isso mesmo, nunca se deve confundir a unção espiritual com essa animação do sujeito na pregação. Mas a alma excitada é um expediente carnal muito comum na exposição da palavra de Deus. Para o apóstolo, o crime da letra é um homicídio da vida espiritual. Se alguém ficar preso à escrita é um morto espiritual e matador. Ainda que a letra seja vital para o conhecimento da palavra de Deus, permanecer aprisionado a ela, é matança. É importante que se conheça a Escritura, pois ela, à semelhança dos trilhos para o trem, é o suporte para a revelação. Todavia, não se pode continuar na vida cristã sendo contido pela letra.
Assim como a agulha magnética aponta para o Pólo Norte, a Escritura aponta para a pessoa de Cristo. Ela é uma biblioteca que testemunha da vida magnífica de Cristo. Jesus disse para os seus contemporâneos: Examinais as Escrituras, porque julgais ter nelas a vida eterna, e são elas mesmas que testificam de mim. Contudo, não quereis vir a mim para terdes vida. João 5:39-40.
De acordo com Jesus, a Bíblia é o álbum de sua pessoa, o cardápio do seu banquete, a anamnese de sua história, o mapa da sua andança, a revelação de sua identidade e a receita da única vida que realmente faz sentido. A Escritura distingue essa fonte suficiente de vida e a oferece como exclusiva para dar significado ao ser humano. Ninguém se relaciona pessoalmente com retrato, nem come cardápio. Mesmo que a carta geográfica seja indispensável para a orientação dos peregrinos, nenhuma pessoa anda sobre os traçados das cartas. Além disso, todos nós precisamos de alguém vivo para nos relacionar. Apesar de o cardápio ter valor na escolha da comida, ele não é o alimento. A Bíblia é o cardápio do céu, mas Cristo é o único mantimento. Eu preciso do cardápio para conhecer e escolher os pratos, porém eu não me alimento dele. Jesus é o maná do menu de Deus e só ele pode nos satisfazer realmente. Declarou-lhes, pois, Jesus: Eu sou o pão da vida; o que vem a mim jamais terá fome; e o que crê em mim jamais terá sede. João 6:35. Ele não é lição preciosa para a nossa vida. Ele é o pão cotidiano.
A letra é útil para nos conduzir ao manjar, contudo a letra não nos nutre. A alimentação específica da vida espiritual é Cristo. Não existe outra comida que possa atender às necessidades do espírito fora da pessoa de Cristo Jesus. Eu sou o pão da vida. Vossos pais comeram o maná no deserto e morreram. Este é o pão que desce do céu, para que todo o que dele comer não pereça. João 6:48-50.
O crime da letra é a desnutrição e a morte. Sem comida a vida perece. Alguém desnutrido é um aspirante a defunto. Cristo é o verbo encarnado e o pasto das ovelhas. Não existe outra pastagem para o crente além da pessoa de Cristo. Se não encontrarmos a pessoa de Cristo em nossa leitura bíblica, não encontramos a vida e o alimento espiritual. Só Cristo pode contentar a nossa alma e alegrar o nosso espírito com a sua vida. Ele é o único alimento espiritual que pode dar significado ao ser humano. Assim como o Pai, que vive, me enviou, e igualmente eu vivo pelo Pai, também quem de mim se alimenta por mim viverá. João 6:57.
A fome da alma é um apetite por Deus que apenas Cristo pode satisfazer. Por que gastais o dinheiro naquilo que não é pão, e o vosso suor, naquilo que não satisfaz? Ouvi-me atentamente, comei o que é bom e vos deleitareis com finos manjares. Inclinai os ouvidos e vinde a mim; ouvi, e a vossa alma viverá; porque convosco farei uma aliança perpétua, que consiste nas fiéis misericórdias prometidas a Davi. Isaías 55:2-3.
A nação israelita ficou apenas com o cardápio, deixando de comer o verdadeiro pão que veio do céu. Mas a igreja atual passa pelo mesmo lance crítico. Hoje em dia nós nos esmeramos na qualidade estética do cardápio e na sua melhor tradução, e apesar disso, pouca gente tem comido do pão de Deus. As versões bíblicas são fantásticas e as encadernações primorosas e ainda assim o povo está morto espiritualmente e com fome, pois a letra mata. Erudição não mata a fome do espírito. Madame Guyon falava de uma leitura textual que deve enfocar a pessoa de Cristo. Quando estivermos lendo a Escritura precisamos parar a cada instante para entrarmos em contato com o Cristo que habita em nosso espírito e que se revela no encadeamento das palavras que estamos lendo. Se não houver esta afinidade entre o Cristo que vive no espírito do crente e o Espírito de Cristo que se manifesta na palavra, nós estamos sem vida. Como vimos anteriormente, podemos ter uma pregação ortodoxa e profundamente escriturística, mas sem a vida espiritual. A grande necessidade da igreja atual é de um avivamento bíblico. Precisamos de centralidade na Bíblia, mas carecemos, além disso, da vivificação e revelação do Espírito Santo. A letra sem o hálito fresco da boca Divina é um esqueleto literário, sem o poder de vivificar. O palácio real sem a realeza é simplesmente um museu. A letra da Escritura sem a vida manifesta de Cristo é bibliografia ou história. A grande necessidade da igreja é de comunhão pessoal com o seu Salvador e Senhor, por isso, não basta fazer a mera leitura da Bíblia, já que é imperativa a revelação do Espírito para torná-la viva na experiência do crente. Sem a luz do Espírito a letra se configura numa arma assassina, e nós, os pregadores, em múmias criminosas. Vem Senhor vivificar e revelar a tua palavra em nosso ser.

A GRATIFICANTE GRAÇA


A GRATIFICANTE GRAÇA
Por: Glenio Fonseca Paranaguá


O Evangelho é antes de qualquer coisa uma expressão da graça de Deus. Não haveria a boa notícia do Evangelho sem a primazia da graça. Toda a obra da salvação começa com a manifestação da graça. Desde que o pecado entrou no mundo, a graça iniciou sua missão salvadora. Se não houvesse doença, não haveria médico. Se não houvesse sinistros, os seguros perderiam seu valor. Se não houvesse incêndios, qual a necessidade de bombeiros? Se não houvesse pecado, a graça não teria significado. Uma vez que o pecado se instalou na raça humana, a graça de Deus se manifestou trazendo salvação à humanidade. Sobreveio a lei para que avultasse a ofensa; mas onde abundou o pecado, superabundou a graça. Romanos 5:20. A lei serve para demonstrar a gravidade do pecado. Ninguém jamais foi salvo pelo cumprimento da lei. Toda obra de Deus voltada para a salvação do homem se baseia na graça.

O apóstolo Paulo vê na graça a causa de sua essência cristã. O que sou, sou pela graça. Isto significa que Deus foi quem fez tudo o que diz respeito à sua experiência espiritual. Quando Saulo nasceu de novo, foi pela graça. Se Paulo conseguiu crer em Cristo como seu único Senhor e Salvador, foi a graça que o levou a crer. Se ele está buscando comunhão com Deus, é a graça que está patrocinando esta empreitada. Desde que haja evolução em sua vida de santidade, é a graça que cuida deste progresso. Ele não vê outra alternativa para a sua vida cristã. A sua vocação é matéria graciosa. Quando, porém, ao que me separou antes de eu nascer e me chamou pela sua graça... Gálatas 1:15. Ninguém pode ser salvo sem que Deus o chame pela sua graça. A vivificação miraculosa de um regenerado antecede qualquer movimento de sua parte. Menina! Levanta. Foi o que Jesus disse à finada filha de Jairo. A palavra graciosa de Jesus primeiro deu vida à jovem e depois causou a ação de levantar-se. Defunto não pode se levantar. A menina foi vivificada ou ressuscitada antes de reagir à ordem de Jesus. A vocação celestial é primeiramente uma regeneração monergística, isto é, um trabalho único de Deus. Ninguém pode se gerar. Também ninguém pode se regenerar. Se fomos gerados, isto dependeu de nossos pais. Se fomos regenerados, isto foi obra exclusiva de Deus. Não há auto-geração nem auto-regeneração. No rigor mortis, nós precisamos ser ressuscitados da morte, pelo poder soberano da graça de Cristo. Homens mortos espiritualmente não podem decidir, sem a intervenção sobrenatural da graça de Deus. Não fomos nós que iniciamos o processo da salvação. Não quem busque a Deus. Romanos 3:11b. Foi Deus quem graciosamente nos buscou em Cristo Jesus. O apóstolo Paulo tinha plena consciência deste fato. Se Deus não nos vivificar primeiro e não inclinar o nosso coração para Ele, jamais O buscaremos. Alguém já disse que: se Deus não escolhesse alguns homens sem quaisquer condições, ninguém jamais O escolheria sob quaisquer condições. O pecado nos faz autônomos. Se Deus não nos eleger, nós jamais O escolheremos. O homem não se converte porque deseja, mas deseja converter-se porque Deus em sua graça o alcançou primeiro. Tudo o que somos na vida cristã é resultado soberano da graça de Deus. Martinho Lutero enfatizava: Os salvos são escolhidos não por seus próprios méritos, mas pela graça do Mediador.

Tudo o que os salvos são neste mundo e no vindouro, são exclusivamente pela suficiência da graça de Deus. Santo Agostinho dizia que Deus escolheu-nos não porque cremos, mas para que creiamos. A fé é um dom de Deus. Não conquistamos a graça, pela fé, mas recebemos a fé, pela graça. Não é a fé que alcança a graça. Deus não negocia com o homem. A Bíblia mostra que Jesus é o autor e consumador da fé. Ele é o doador da fé e não mero efeito de nossa fé. Ele nos outorga a fé, a fim de crermos pela fé, nele. A fé que salva não é oferecida por Deus ao homem; é-lhe conferida. O pecado nos tornou incrédulos com relação a Deus. Ninguém nasce portando fé. Ela é uma imputação divina. Somos agraciados com a fé. Não há nenhum mérito em crer. Trata-se apenas do ato de receber um favor conferido. A capacidade de crer nos foi concedida gratuitamente por Deus. Podemos fazer uma paráfrase aproximada de Efésios 2:8 com estas palavras: Porque é pela graça que vocês estão sendo salvos através da fé, mas esta não é sua propriamente, é um presente gracioso de Deus. A fé não é uma aptidão natural, é um dom generoso e gratuito de Deus. E não é merecimento, mas pura demonstração da misericórdia. Ninguém recebe fé por que tem alguma qualidade especial. Assim, pois, não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia. Romanos 9:16. E misericórdia é a preferência pelos desqualificados. Se há alguma condição para sermos alcançados pelas misericórdias de Deus, a única é nos acharmos totalmente na miséria. Só os indignos da misericórdia podem ser feitos dignos da graça de Deus. Como dizia Thomas Watson, estão mais bem preparados para as maiores misericórdias aqueles que se consideram indignos das menores.

Depois de mostrar que a sua vida cristã era uma conseqüência da graça de Deus, o apóstolo Paulo passa a demonstrar que o seu ministério era um resultado eficiente desta mesma graça. Ele foi categórico: O que sou, sou pela graça. Mas também, o que faço, faço somente pela graça. Paulo vê o poder operante da graça em sua vida, a ponto de pronunciar uma aparente arrogância: Trabalhei muito mais do que todos os outros apóstolos. Todavia não eu, mas a graça de Deus comigo. Não há graça indolente. É incompatível viver na graça negligentemente. Não há inativos no reino de Deus, nem aposentados ou pensionistas do INSS celestial. No ministério do evangelismo universal não se fala de licença prêmio, licença sem vencimentos ou encostados. Todos os convocados pela graça salvadora são comissionados pela graça realizadora. Viver na graça é também viver pela graça, e graça preguiçosa não é graça. O cristão nunca tem falta do que precisa quando possui as insondáveis riquezas da graça de Deus em Cristo. Paulo exorta ao seu filho na fé Timóteo: Tu, pois, filho meu, fortifica-te na graça que está em Cristo Jesus. 2Timóteo 2:1. A suavidade do Evangelho da graça não significa viver em férias permanentes. O descanso da alma oferecido por Jesus nada tem a ver com moleza ou indisposição. É na fraqueza que a graça se mostra mais eficiente. A dependência total de Deus implica na desistência completa de nós mesmos. Somente aqueles que estão inteiramente fracos poderão ser inteiramente fortalecidos pelo poder da graça de Deus. Todos aqueles que se encontram incapazes para o ministério do evangelismo podem muito bem ser capacitados pela suficiência da graça divina. Deus não pergunta sobre nossa capacidade ou incapacidade, mas se estamos à disposição de sua graça. Deus, por sua graça, faz em nós uma obra salvadora, e, pela mesma graça, por meio de nós, opera uma obra em favor da salvação dos outros. A graça que nos salva é a mesma graça que nos impulsiona no serviço da pregação do Evangelho. Um empresário pode dar emprego a alguém, mas não a capacidade. Contudo, Deus quando nos dá o que fazer, nos dá o sustento e as condições de fazer. Como insistia Santo Agostinho, nós fazemos as obras, mas Deus opera em nós a realização das obras. Quando Deus chama alguém Ele envia, quando envia, Ele o capacita, quando o capacita, Ele mesmo realiza a obra através deste instrumento que Ele sustenta. Ninguém é permitido ir em nome de Deus, a não ser aqueles que são enviados, capacitados e sustentados por Ele.

VALORES NA BALANÇA


VALORES NA BALANÇA
Por:
Glenio Fonseca Paranaguá


Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?
Segundo a avaliação de Jesus, uma vida ou a alma humana vale mais do que o universo. A vida é mais importante do que o cosmo. Uma pessoa poderá fazer um investimento que consiga angariar os recursos do mundo todo, mas, se vier a perder-se eternamente, terá feito uma péssima aplicação. De acordo com a estimativa de Jesus, a salvação de uma alma é mais preciosa do que o montante dos recursos do mundo. A salvação de uma única alma é mais importante do que a produção de recursos para a preservação física de toda a humanidade. E o maior empreendimento é de quem está envolvido na salvação das almas.
A maioria das pessoas não sabe fazer cálculo. Gasta-se mais tempo tentando amealhar as riquezas que têm menos valor. No cômputo geral, prefere-se dar mais atenção aos recursos de origem terrena, do que cuidar das verdadeiras riquezas espirituais. Isto reflete o estrabismo da visão humana, causada pelo pecado. Para a grande maioria, uma empresa, uma fazenda ou os negócios merecem mais consideração do que a salvação eterna de sua alma. Damos prioridade aos ganhos vantajosos desta vida e desprezamos os valores permanentes que podem realmente nos preencher. Quando Jesus disse ao jovem rico que ele precisava vender tudo, dar aos pobres, para receber o tesouro celestial, ele, porém, contrariado com esta palavra, retirou-se triste, porque era dono de muitas propriedades. Marcos 10:22. Na sua contabilidade não constavam os bens duráveis. Ele não sabia fazer avaliação das coisas de proporções eternas. As bugigangas e os tesouros perecíveis acabam tomando lugar do patrimônio imutável.
O homem encontra-se vazio. O coração do ser humano está buscando satisfação ou significado nos valores deste mundo. Entretanto, nada, por mais importante que seja, é capaz de preencher a lacuna da alma. Há um buraco muito grande que só algo absoluto pode completar. O vazio do homem tem a dimensão de Deus, e ninguém pode ocupar este espaço, senão o próprio Deus. A busca de contentamento ou bem-estar fora da absoluta necessidade de Deus tem demonstrado uma atividade enfadonha para a alma. Por mais significativos que sejam os envolvimentos para rechear este vazio, sempre terminam em decepção. William Bridge disse que a terra e sua plenitude jamais podem satisfazer a alma. Glória e brilho não são sinônimos. Podemos ser brilhantes neste mundo, mas profundamente vazios. A crise da humanidade é fundamentalmente uma falta de conteúdo, prioridade e direção. Ocupada com assuntos banais, a raça humana pretende encher o vácuo da alma com as bagatelas econômicas, com as futilidades culturais, com as ninharias esportivas e com as chochices religiosas. Muito tempo e investimento têm sido gastos na reparação dos estragos causados pela inversão dos valores. Mas, na verdade, tudo isto tem sido em vão. Ninguém pode encontrar aprazimento fora de um relacionamento real com Deus. Quando falamos de Deus, não estamos nos referindo aos sistemas religiosos criados pelos homens, para tentar suprir as necessidades da alma.
O miolo da alma tem que ser Deus mesmo. Nenhum conteúdo religioso pode indenizar os prejuízos causados pela falta de comunhão com o próprio Deus. Se Deus não for o centro de nossa experiência e a excelência de nossos relacionamentos, então, estamos envolvidos com trivialidades que jamais satisfarão as carências profundas de nossa alma. Somente em Deus, ó minha alma, espera silenciosa; dele vem a minha salvação. Salmo 62:1. A falta de intimidade pessoal com Deus é a causa da insatisfação dominante do coração humano. Nada pode completar os desejos íntimos do ser humano, senão o próprio Deus em pessoa. Nem mesmo as suas bênçãos ou dons são capazes de suprir o vazio de cada um de nós. Ó Deus, tu és meu Deus forte; eu te busco ansiosamente; a minha alma tem sede de ti; meu corpo te almeja, como terra árida, exausta, sem água. Salmo 63:1. A alma só pode contentar-se com a comunhão íntima de Deus mesmo. Só a pessoa de Deus pode abastecer a sede do coração. Sem a consciência real da presença de Deus e sem uma comunhão verdadeira com Ele, a existência humana perde totalmente o sentido. É por isso que, muitas vezes ficamos mais sedentos com a secura de nossa religiosidade. Entramos e saímos destas reuniões, sem gozarmos da intimidade da presença de Deus. O pensador Martin Buber afirmava: Nada tende a mascarar tanto a face de Deus como a religião; ela pode tornar-se uma substituta para o próprio Deus. Um cadáver lembra uma pessoa. Ali está o corpo em que viveu alguém, mas o finado não tem expressão. Não há diálogo com morto. Religião sem intimidade pessoal com Deus é funeral. E defunto não cresce, não evolui nem causa progresso. Muita gente se ilude com suas práticas religiosas supondo que este ritualismo mitiga as carências de sua alma. O salmista se perturba com o cerimonial religioso do seu tempo, com o derramar de sua alma, com o festejo da multidão em gritos de louvor na procissão alegre em busca da Casa de Deus. Havia todo um aparato estonteante de motivações religiosas, mas a sua alma encontrava-se abatida, e ele gritava: Por que estás abatida, ó minha alma? Por que te perturbas dentro de mim? E sua resposta evidencia o grande problema: Espera em Deus, pois ainda o louvarei, a ele, meu auxílio e Deus meu. Salmo 42:5. Havia muita religiosidade em sua experiência, mas Deus estava ausente do seu louvor. A chupeta acalenta o choramingo da criança, mas não abranda a fome. Só o peito ou a mamadeira podem saciar a ânsia da fome. Nada neste mundo é capaz de satisfazer plenamente a necessidade pessoal de Deus. Muitos expedientes podem atenuar a crise, mas não satisfazem o vazio da alma.
Que adianta ao homem gastar todo o seu tempo e empregar todos os seus esforços no envolvimento com o trabalho, estudo, religião e lazer, não levando em conta a seriedade da salvação eterna de sua alma? Esta é uma questão de prioridade. Ninguém pode desconsiderar este assunto e viver com total significado. Jesus mostrou que, a realização do ser humano passa em primeiro lugar pela preferência do reino de Deus. Buscai, pois, em primeiro lugar, o reino de Deus e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Mateus 6:33. A salvação eterna e a comunhão íntima com Deus são assuntos que fazem parte da primazia de uma agenda inteligente. Fica claro, pelas Escrituras, que uma vida que exibe sucesso neste mundo, mas não leva em consideração estes ingredientes eternos, não passa de loucura. Jesus, em uma de suas parábolas, levanta uma pergunta que Deus faz a um homem que havia se preocupado apenas em cuidar dos seus interesses terrenos. Louco, esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será? Lucas 12:20. É estupidez da grossa investir todo o nosso tempo e gastar toda a nossa energia na aquisição de patrimônios que ficarão para trás da sepultura.
Uma pessoa inteligente é aquela que sabe fazer o julgamento correto dos fatos. Não podemos reputar como inteligente alguém que é desatento para os assuntos ligados com a salvação eterna da sua alma. A sabedoria abre os olhos tanto para as glórias do céu quanto para o vazio da terra. A lucidez da mente e a agudeza do discernimento encontram-se em fazer, enquanto se estiver vivo, as coisas que serão desejadas quando se estiver morto. Todo empreendimento que só trata do aqui e agora não tem significado permanente para o homem. Por isso, vale a pena ponderar os enfoques e as ênfases de nossa existência, para não cairmos na armadilha de nos envolvermos apenas com as coisas de menor valor. Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?

segunda-feira, 11 de junho de 2012

PORQUE NINGUÉM É BOM ?


PORQUE NINGUÉM É BOM ?
Por: Glenio Fonseca Paranaguá


Respondeu-lhe Jesus: Por que me chamas bom? Ninguém é bom, senão um, que é Deus. Lucas 18:19.
Não parece que Jesus foi extremado com essa resposta? Afinal de contas, a Bíblia não diz que a criação de Deus era muito boa. Por que ele faz uma declaração tão exagerada como essa? Eu não me conformo com a radicalidade desta afirmação de Jesus. Esse é um argumento muito comum quando se aborda o assunto da bondade. É verdade que a criação de Deus era boa, mas o pecado a contaminou com o mal. O ser humano e a natureza estão sob a calamidade e os efeitos da transgressão maligna. Tudo nesse mundo sofre com a influência ruim da catástrofe do Éden. Sabemos que somos de Deus e que o mundo inteiro jaz no Maligno. 1 João 5:19.
Do ponto de vista essencial só Deus é bom. Ele é singularmente bom. Nele não existe maldade e tudo que ele faz é bom. Mas a bondade da criação é derivada do Criador, e por isso é contingente. Não é uma bondade inerente ao ser, uma vez que foi criada. A bondade da criação é decorrente e, portanto, sujeita a deterioração. Só Deus pode ser inteiramente bom, pois só ele é eternamente bom. Leon Tolstoi disse que não se pode ser bom pela metade. Se a minha bondade pode ser suspensa por algum interesse maléfico, então a minha bondade não é de fato boa. Se eu sou bom em algum momento e não sou em todos, logo não sou categoricamente bom e a minha bondade é, na verdade, relativa. Quando Jesus disse que ninguém é bom, senão Deus, ele estava dizendo que nenhuma pessoa é infinita nem invariavelmente boa. Além disso, a nossa bondade circunstancial é sempre dependente de um conceito adequado daquilo que admitimos ser o bem. Com isso, a minha opinião do que é bem vai falar bem do que eu acho que é bom. Mas o bom é universal e eterno. O que é bom para um, tem que ser rigorosamente bom para todos em todos os tempos. Sendo assim, só Deus é de fato eterno e imutavelmente bom. Segundo Jesus, em conseqüência do pecado, o ser humano é mau. Isso não significa que ele seja essencialmente mau, mas que ele está contaminado pelo vírus da maldade. Um adoentado está enfermo mesmo que não esteja inteiramente doente. Um dedo inflamado faz todo o corpo ficar doente, ainda que outros órgãos estejam sadios, por isso, uma pessoa pode morrer por uma picada de mosquito ou na trombada de uma jamanta.
O fato de Jesus dizer que somos maus, não significa que sejamos totalmente imprestáveis para o bem. Ele também disse que mesmo sendo maus, ainda éramos capazes de fazer algumas coisas boas para os outros. Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais vosso Pai, que está nos céus, dará boas coisas aos que lhe pedirem? Mateus 7:11.
Mesmo sendo mau, eu consigo fazer algumas coisas boas, desde que sejam voltadas para satisfazer as minhas vantagens pessoais. Somos uma raça que gravita em torno do egocentrismo, assim, todo bem relativo me impulsiona a agir de acordo com os meus critérios interessantes. Mas isso não me habilita ao titulo honorário de bom moço. Por causa do pecado a minha bondade fica frequentemente condicionada à percepção egoísta de minha avaliação. O pecado me tornou sujeito a uma vontade incapaz de fazer o bem que eu gostaria de fazer. O apóstolo Paulo foi fundo quando tratou desse ponto cruciante da natureza humana. Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço. Romanos 7:19.
A bondade humana está sujeita às forças do egoísmo. O homem natural sempre faz o que é bom segundo os padrões de sua própria escala de valores, contaminada pelo proveito pessoal. Por esse motivo, o seu bem sempre será determinado pelo seu umbigo. Ninguém é bom quando exerce sua bondade atrelada a qualquer tipo de compensação ou conveniência particular. Fazer o bem esperando um troco ou contrapartida é tráfico de influência na comercialização das pessoas, tornando os sujeitos como escravos nas relações. Muita gente pratica atos de bondade relativa visando o ressarcimento na sua carreira, ao mesmo tempo em que deixa o favorecido com um débito impagável.
No mercado dos escravos a bondade é usada como moeda de compra. Enquanto eu faço o bem para uma pessoa, já passo a algema da gratidão compulsória e ela fica me devendo um agradecimento inflexível. O benefício tem um ar de exigência que deixa o paciente sem alternativa, por isso, essa bondade como ultimato de reconhecimento é um ultraje ao conceito da verdadeira bondade divina. Deus é bom para com todos e Jesus aponta esta bondade como o único padrão dos filhos de Deus. Amai, porém, os vossos inimigos, fazei o bem e emprestai, sem esperar nenhuma paga; será grande o vosso galardão, e sereis filhos do Altíssimo. Pois ele é benigno até para com os ingratos e maus. Lucas 6:35.
A grande recompensa da bondade praticada é a alegria de ter praticado a bondade. O filho de Deus exercita a bondade dependendo da superabundante bondade divina. Como nenhuma pessoa é boa em si mesma, a bondade dos filhos de Aba é abonada pela bondade de Aba. Só o Pai é bom em si mesmo e só os seus filhos podem exercer a bondade garantida pela bondade do Pai. O homem natural, isto é, aquele que ainda não nasceu de novo, é praticante crônico das obras da justiça própria. Todas as suas obras têm um ranço de autopromoção e uma fuligem de indenização. As obras do homem natural exigem notificação, reconhecimento e aplausos da platéia. Isto caracteriza a necessidade de ostentação pessoal que descaracteriza a identidade de filho de Deus. Os filhos de Deus são praticantes das boas obras que o Pai armazenou para que eles fossem distribuidores. Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas. Efésios 2:10.
Antes da regeneração o ser humano exibe a sua justiça com a astúcia dos relatórios, procurando mostrar o seu desempenho como prova de seu caráter. Mas os filhos de Deus, embora devam ser vistos praticando boas obras, eles nunca devem praticar boas obras para serem vistos, uma vez que estas boas obras são para a glória do Pai. Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus. Mateus 5:16.
Deixe-me dizer algo muito importante que Jesus assegurou com a maior exatidão. A frutificação sempre depende da qualidade da planta. Assim, toda árvore boa produz bons frutos, porém a árvore produz frutos maus. Não pode a árvore boa produzir frutos maus, nem a árvore produzir frutos bons. Mateus 7:17-18.
O ser humano por causa do pecado não se encontra num estado essencialmente bom. Ainda que ele demonstre alguma bondade, como vimos anteriormente, essa bondade está infectada de egoísmo e orgulho. Ele precisa ser convertido de erva daninha em cereal, de joio em verdadeiro trigo. Ou fazei a árvore boa e o seu fruto bom ou a árvore e o seu fruto mau; porque pelo fruto se conhece a árvore. Mateus 12:33.
O fruto mau ou bom depende do predicado da planta. No reino de Deus uma planta má pode ser transformada em uma planta boa. Esse é o grande milagre que Jesus veio realizar, pois a vida espiritual boa é o efeito da vida de Cristo no âmago do crente. A bondade do salvo depende da bondade divina que habita nele. Quando a Trindade vem residir no íntimo dos crentes, o resultado é a produção de bons frutos. Mas essa safra não é ceifada pela carne. O homem velho não produz boas obras, ainda que produza obras disfarçadas de bondade. E neste ponto, Jesus foi enfático: Não árvore boa que mau fruto; nem tampouco árvore que bom fruto. Lucas 6:43.
A bondade do crente é a bondade de Deus. Só Deus é bom. Só ele pode produzir as boas obras em nosso ser. Quando o Pai nos regenera, somos enxertados no caule da videira. Jesus disse: Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. Todo ramo que, estando em mim, não der fruto, ele o corta; e todo o que fruto limpa, para que produza mais fruto ainda. João 15:1-2.
Segundo Jesus os salvos são os ramos ligados à cepa da vide. Cristo é a cepa e nós somos os seus ramos. A cepa não produz nenhum fruto, mas transmite a vida e os nutrientes para os sarmentos produzirem os frutos. A boa e eterna vida de Cristo é a causa das boas obras dos crentes. Eu sou a videira, vós, os ramos. Quem permanece em mim, e eu, nele, esse muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer. João 15:5.
Se os ramos estão dando bons frutos é porque estão unidos à videira e dependem dela. As boas obras dos filhos de Deus decorrem da bondade do próprio Filho de Deus que vive no coração dos seus filhos. Já que só o Deus trino é bom, a única maneira de uma pessoa produzir bondade é ganhando a boa natureza do Filho de Deus. Ninguém é bom por si mesmo, mas todos aqueles que são regenerados pela graça em Cristo, ganham uma natureza boa de origem divina, que é capaz de produzir as boas obras que o Pai preparou para que andássemos nelas. A biografia de um cristão é a manifestação da vida de Cristo através dos seus atos, portanto, toda a sua bondade é a expressão da bondade de Cristo que vive nele.
Todas as pessoas que se consideram boas em si mesmas estão redondamente enganadas. Além disso, essa fantasiosa bondade humana está abarrotada de arrogância e direitos pessoais cheios de melindres. Não conheço ninguém que se diga boa, que não faça apologia da sua bondade, reivindicando os méritos do seu papel de bondosa. Todavia os filhos de Aba sabem que a sua bondade é uma graça do seu Pai. Eles percebem que toda a sua bondade emana da fonte eterna do único ser que é verdadeira e essencialmente bom. Toda boa dádiva e todo dom perfeito são do alto, descendo do Pai das luzes, em quem não pode existir variação ou sombra de mudança. Tiago 1:17