O
ENIGMA DAS VONTADES
Por: Glenio Fonseca Paranaguá
Por: Glenio Fonseca Paranaguá
Jerusalém,
Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te foram
enviados! Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como a galinha
ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e vós não o quisestes!
Mateus 23:37.
Deus
é soberano e a sua vontade é absoluta. Ele faz tudo de acordo com o
seu querer e ninguém pode contrariar os seus desígnios. Tudo
quanto aprouve
ao SENHOR,
ele o fez,
nos céus e
na terra, no
mar e em
todos os
abismos. Salmos
135:6.
Deus
é soberano e a sua vontade é irresistível. Nenhum soberano pode
ser contestado definitivamente em seus planos. Deus nunca fará coisa
alguma constrangido ou fora dos seus propósitos eternos e ninguém
poderá afrontar a sua vontade em caráter permanente. Tu,
porém, me
dirás: De
que se queixa
ele ainda?
Pois quem
jamais resistiu
à sua
vontade? Romanos
9:19.
Quem
poderá contestar o intuito do seu querer? Quem poderá mudar a
finalidade dos seus objetivos? Comparando a vontade do Criador com o
trabalho do oleiro, o apóstolo Paulo indaga: Ou
não tem o
oleiro direito
sobre a
massa, para
do mesmo
barro fazer
um vaso para
honra e
outro, para
desonra? Romanos
9:21.
Deus
é soberano e em sua soberania criou um ser com vontade livre para
decidir. A vontade de Deus determinou que a sua criatura fosse livre
para escolher e que só um ser livre poderia ser responsável pela
sua escolha. Por isso os nossos primeiros pais foram os únicos seres
humanos com livre-arbítrio da criação divina. Adão e Eva eram
livres para pecar e para não pecar. Como disse Santo Agostinho, os
primeiros pais tinham a condição de liberdade que os deixavam com
posse pecare e posse
non pecare. Mas, depois que eles pecaram a
vontade humana ficou escrava do pecado. Ninguém é mais livre para
não pecar. Todos nós nascemos escravos do pecado e não podemos
deixar de pecar por nós mesmos, non posse
non pecare. A vontade da raça humana
escrava do pecado não busca a Deus. O salmista faz como que um
inquérito na sua poesia quando afirma aquilo que o apóstolo Paulo
procura responder. Do céu,
olha Deus
para os
filhos dos
homens, para
ver se há
quem entenda,
se há quem
busque a
Deus. Não há
quem entenda,
não há quem
busque a
Deus; todos
se extraviaram,
à uma se
fizeram inúteis;
não há quem
faça o bem,
não há nem
um sequer.
Salmos 53:2 e
Romanos 3:11-12.
Depois
do pecado de Adão, todos nós nascemos neste mundo com uma
indisposição no nosso entendimento contra Deus. Não há lugar para
Deus em nosso coração, pois Ele não é facilmente aceito pelo
homem natural. E a
vós outros
também que,
outrora, éreis
estranhos e
inimigos no
entendimento pelas
vossas obras
malignas, Colossenses
1:21. Deus não faz parte de nossas cogitações,
já que há uma inimizade natural contra Ele, em nosso interior, mas,
muitas vezes, disfarçada em amizade. Nós nascemos nesse mundo
remando contra a correnteza com relação à vida espiritual. Não há
o menor apetite pela verdadeira vida de Deus, pois todos os seres
humanos nascem obscurecidos de
entendimento, alheios
à vida de
Deus por
causa da
ignorância em
que vivem,
pela dureza
do seu
coração, Efésios
4:18. A comunhão com Deus não é
de fato a nossa praia, ainda que sejamos profundamente religiosos. A
vontade natural dos seres humanos é sempre contra Deus. A vontade
soberana de Deus é quem inclina a nossa vontade rebelde para querer
a sua vontade. Ninguém poderá decidir pela vontade de Deus, se Deus
mesmo não convencer a nossa vontade a querer a sua vontade, como um
ato livre da nossa vontade. Se nossa deliberação for forçada ou
constrangida pelo medo, interesse ou dever, então essa resolução
não expressa a condição adequada da liberdade moral de um ser
responsável. Deus é sempre soberano na sua eleição e o ser humano
é sempre responsável pela sua decisão. Deus escolhe a quem ele
quer e o escolhido decide porque quer. Deus não é obrigado a
escolher ninguém. Por outro lado, nenhuma pessoa é obrigada a
decidir porque Deus a escolheu. Uma escolha compelida jamais será
uma decisão moralmente livre. A soberania de Deus é indiscutível,
mas a responsabilidade humana é indispensável. Nenhum eleito poderá
rejeitar a vontade soberana de Deus, mas nenhum eleito será forçado
a receber a vontade de Deus, contra a sua própria vontade. A obra
soberana da graça de Deus conquista sem violência a nossa vontade
insurgente, para que possamos livremente optar pela vontade soberana
de Deus. A eleição divina é soberana e a decisão humana é
franqueada por uma resolução livre de um ser responsável. Volto a
insistir. Só um ser livre pode receber livremente a vontade soberana
de Deus em sua vida. A questão é: por que Deus escolhe? Por que os
escolhidos são livremente convencidos e os outros não? Por que
muitos crêem e muitos continuam rebeldes contra Deus?
Vimos,
anteriormente, com Paulo, que o oleiro tem o direito de fazer um vaso
para um lugar de honra e, se ele quiser, um vaso para um lugar de
desonra. Mas por causa da nossa onipotência, nós não achamos que
Deus tem o direito de fazer o que Ele quer. A nossa vontade dominada
pela arrogância do pecado tem a tendência de dar as cartas para
aquilo que Deus faz. Sendo assim, se eu não posso fazer tudo aquilo
que acho que devo fazer, então Deus não tem o direito de fazer
aquilo que contraria o que eu acho que Ele deve fazer. A minha
vontade teomaníaca quer decidir o que Deus precisa fazer e só assim
Ele se tornará admissível dentro da minha concepção. Um deus
encaixado na minha cachola é a única fórmula cabível de deus no
meu universo. Mas a vontade do Deus absoluto não pode ser explicada
por uma mente finita. Isto não quer dizer que Deus seja
incognoscível e a sua vontade emblemática, mas que o nosso
conhecimento Dele será sempre finito e dependente de sua revelação.
A nossa mente nunca alcançará a grandeza da sua dimensão. Essa
vontade soberba precisa ser invadida e conquistada pela graça de
Deus, a fim de sermos apossados da vontade soberana que nos torna
voluntariamente acessíveis ao querer divino. Quando, pela vontade de
Deus, a nossa vontade se rende livremente à sua vontade, nós nos
tornamos inteiramente identificado com uma vontade singular que traz
sentido a existência humana. Para Jesus a única via que equilibra o
conflito existencial é o ajustamento da nossa vontade com a vontade
do Pai. Ele nos ensina a orar assim: venha o
teu reino;
faça-se a
tua vontade,
assim na
terra como no
céu; Mateus
6:10. O reino é o governo do Pai
em nosso viver diário, onde sempre desemboca no leito da sua vontade
conclusiva.
O
próprio Jesus orou no jardim do Getsêmani, dizendo:
Pai, se
queres, passa
de mim este
cálice; contudo,
não se faça
a minha
vontade, e
sim a tua.
Lucas 22:42. Ele
sabia que a vontade do Pai é o único lugar no universo que o
espírito encontrará descanso, ainda que o corpo sofra terrivelmente
e a alma se angustie até à morte. Fora da vontade de Pai, o filho
de Deus estará num deserto e a criatura divina em tormenta eterna.
A
vontade de Deus é soberana e a vontade dos eleitos é livre na
escolha. Deus nos escolheu soberanamente e nós recebemos
voluntariamente a sua escalação. Na seleção de Deus não há uma
Nike impondo jogadores, nem craques jogando contra vontade. Se os
atletas de Jerusalém não ouviram a convocação de Jesus é porque
não quiseram ouvir. Jesus os convidou para a comunhão das asas,
para o abrigo da intimidade, mas eles não aquiesceram ao convite por
causa da soberba azucrinante do seu orgulho. No fundo do pecado
reside uma atitude de auto-suficiência que evita qualquer advento de
humildade. Sendo assim, Deus resiste
aos soberbos,
mas dá graça
aos humildes.
Tiago 4:6b. A
justiça própria é a causa primária de nosso fracasso espiritual.
A
vontade de Deus é que sejamos salvos. A vontade do arrogante é se
salvar por si mesmo. O pecado torna o pecador autônomo e
independente de Deus. A nossa atitude audaciosa nos leva à pretensão
de renegar o convite da graça, pois quando Jesus chamou Jerusalém,
Jerusalém recusou o convite da graça. Esse é sempre o maior
problema da autonomia do pecado. Jerusalém não quis a graça porque
ela se bastava a si mesma.
Todo
o nosso problema é nos conformar plenamente com a vontade de Deus.
Tudo neste mundo é transitório, só a vontade de Deus é
permanente. Ora, o
mundo passa,
bem como a
sua concupiscência;
aquele, porém,
que faz a
vontade de
Deus permanece
eternamente.1 João
2:17. Fazer a vontade de Aba é o maior projeto
de vida de seus filhos. Não é o êxito ou o temor que caracterizam
o perfil dos filhos de Aba, mas a alegria de praticar e concordar com
a sua vontade. O cerne da vida cristã seria a disposição natural
de fazer voluntariamente a vontade do Pai acima de tudo, no entanto o
nosso coração não tem essa inclinação. Por isso, a oração de
F. B. Mayer se torna
indispensável: Senhor, tu sabes
que a minha vontade
é fraca de acordo
com a minha carne,
e que nunca desejará
fazer a tua vontade.
Senhor! Faz tua vontade
fazer com que a
minha vontade deseje fazer
a tua vontade. Aqui a
obra da cruz se torna indispensável em nossa experiência. Só uma
pessoa realmente crucificada com Cristo pode desejar se submeter
inteiramente à vontade do Pai.
Deste
modo, também podemos orar assim: Pai, se a tua vontade não
despertar a minha vontade a querer a tua vontade, eu jamais desejarei
buscá-la em minha vida. Por isso, eu te peço que tu me faças
querer a ti mesmo como tu me queres. Eu sei que se tu não me levares
a querer-te com o teu querer, todo o meu querer por ti será um mero
desejo de um querer transitório. Sendo assim, Pai, faze-me querer-te
como tu me queres, para que eu te querendo com o teu querer, possa te
querer eternamente com o mesmo querer que tu sempre me quiseste deste
a fundação do mundo. Em nome de Jesus. Amém.