segunda-feira, 30 de abril de 2012

O INDULTO DO ANISTIADO


O INDULTO DO ANISTIADO
Por: Glenio Fonseca Paranaguá

A terra é um planeta marcado pelo estigma do pecado. Tudo aqui evidencia uma certa desordem desse caos essencialmente rebelde. Os espinhos e abrolhos brotam de um solo adubado com o fertilizante cruel da iniqüidade que contaminou toda a natureza. A raça humana é responsável por essa tragédia que transformou o planeta azul à distância, numa plantação espinhosa de cardos e carabinas.
Ninguém vive nessa terra sem ferimentos e contusões. A criação de Deus foi mutilada pelos efeitos do pecado e o gênero humano se tornou um verdadeiro instrumento para lesar corpos e corações. No planeta azul visto das alturas nem tudo é tão azul assim, quando examinado mais de perto, a não ser os hematomas provocados por meio das pauladas e trombadas em nossos desacertos.
Há muita gente magoada com as cotoveladas emocionais e muitos outros que sangram por dentro numa hemorragia de sentimentos mesquinhos. A existência no ringue do pecado nocauteia os competidores com a deformidade das amarguras que exaurem a vida empobrecendo a festa. A tristeza e o mau-humor são tributos muito elevados que as vítimas pagam para subsistir nesse mundo de apelações.
Somos uma espécie melindrosa, que se fere com facilidade por qualquer coisa, mas que dificilmente sente a dor que provoca no próximo. O egoísmo é uma toca muito pequena e tão exclusivista que só consegue perceber a sua própria importância, descartando por completo o sofrimento nos outros, ocasionado pelas suas flechadas atiradas sem dó nem piedade. Todavia, não há saúde emocional para aqueles que se trancafiam nos muros altos da raiva, encastelando-se no rancor que não desculpa.
Se ninguém vive nesse mundo sem ultrajes, ninguém também pode viver com saúde psicológica sem perdão. A vida relacional saudável requer indulgência permanente. O coração não pode ser uma cadeia nem a vontade um carcereiro. Quando alguém magoa um filho de Deus, o habeas-corpus já deve está redigido, promovendo o alvará de soltura. Antes de qualquer providência, Jesus ao ser crucificado perdoou os seus algozes: Contudo, Jesus dizia: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem. Lucas 23:34a.
D. Martyn Lloyd-Jones disse que se realmente conhecemos a Cristo como nosso Salvador, os nossos corações são quebrantados, não podem ser duros, e não podemos negar o perdão. Todo aquele que foi anistiado pela obra do Calvário, certamente foi convertido num promotor de perdão. Se não há clemência em sua vida é porque você nunca experimentou a remissão dos pecados, nem pode se considerar um filho de Deus.
A matemática de um dos discípulos de Jesus parecia muito generosa quando ia além do dobro no cálculo dos rabinos, em questão do perdão. Pedro num arroubo de liberalidade pergunta ao Senhor: sete perdões seriam suficientes para uma mesma falta? Jesus demonstra que esse assunto não é propriamente uma questão de aritmética, apontando para o produto de setenta vezes sete como um número sem estimativa contábil na escrituração da matéria. No cristianismo ou se perdoa ou é perda de tempo continuar.
Algumas pessoas gostam de calcular o que fazem, a fim de valorizar os seus esforços, e com isso, chamar a atenção para os seus méritos. Mas na questão do perdão esse empenho é desnecessário. Perdoar é um dom da graça de Deus para os seus filhos, do mesmo modo que a mesada é uma doação que os pais fazem às suas crianças. Ninguém perdoa por a sua própria iniciativa, mas equipado pela graça, perdoa realmente. Antes, sede uns para com os outros benignos, compassivos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus, em Cristo, vos perdoou. Efésios 4:32.
Todas as pessoas que foram perdoadas por Deus em Cristo estão capacitadas a perdoar aos seus agressores. Não há ninguém perfeito nesse mundo, por isso, como disse Alexandre Pope, "errar é humano – perdoar é divino". A Bíblia mostra que Deus se deleita no perdão, logo a distração dos seus filhos deve ser a satisfação de perdoar. Quem, ó Deus, é semelhante a ti, que perdoas a iniqüidade e te esqueces da transgressão do restante da tua herança? O SENHOR não retém a sua ira para sempre, porque tem prazer na misericórdia. Miquéias 7:18.
Aquele que não perdoa não sabe nada do que é misericórdia e não tem a mínima idéia do caráter divino. Há um provérbio que diz: "Se Deus não estivesse disposto a perdoar os pecados, os céus estariam vazios". Deus derrama a sua ira com reserva, mas a sua misericórdia sem medida. Como bem afirmava Oswald Chambers: "é um completo absurdo dizer que Deus nos perdoa porque ele é amor. A única base pela qual Deus nos pode perdoar é a cruz", onde o excesso do seu amor se revela juntamente com a grandeza da sua justa misericórdia.
O cristão precisa sempre se lembrar que as misericórdias de Deus são infinitamente maiores do que as suas mais profundas misérias, logo quem foi alcançado pelo Deus das misericórdias nunca vai exibir uma conduta destituída de compreensão. Todo aquele que já foi perdoado sabe que sua única alternativa nesse mundo é perdoar aqueles que lhe tem magoado. A vingança é o perfil de um escravo do ódio, mas o perdão é a marca registrada dos filhos de Deus.
Perdoe e esqueça. Mas não se esqueça que esse esquecimento não significa amnésia ou uma desmemória dos fatos. A deslembrança aqui não é demência ou caduquice. É antes de tudo pura falta de apreço para com os detalhes que tentam ressaltar a reputação de quem perdoa. Esquecer significa não levar em conta o tamanho da decepção em razão da magnitude da misericórdia que torna irrelevante as afrontas de quem molesta. O perdão é o atributo do coração amoroso que esquecendo a injúria emancipa o ofensor, convertendo-o em amigo. Ele é mais do que a dispensa do castigo, já que pretende assumir o prejuízo para restabelecer a comunhão interrompida. Suportai-vos uns aos outros, perdoai-vos mutuamente, caso alguém tenha motivo de queixa contra outrem. Assim como o Senhor vos perdoou, assim também perdoai vós. Colossenses 3:13.
Stanley Jones dizia que a virtude central do cristianismo é o poder do perdão. É impossível fazer uma amizade duradoura sem o exercício continuo do indulto. É impraticável andar com alguém que não quer perdoar. Para isso, S. Francisco de Assis deu a receita: Que eu leve o perdão, esquecendo as desatenções e as ofensas e injustiças de que me julgo vítima. A pessoa que sabe que é susceptível à queda estará mais pronta a perdoar as ofensas de seus semelhantes. E aquela também que tem a consciência clara de que foi perdoada dos seus muitos pecados tem mais condições de amar os que fracassam, pois quem mais ama, mais disposição tem em perdoar. Por isso, te digo: perdoados lhe são os seus muitos pecados, porque ela muito amou; mas aquele a quem pouco se perdoa, pouco ama. Lucas 7:47. E quem pouco ama, pouco perdoa.
Creio piamente que todos aqueles que foram anistiados pela graça de Deus em Cristo são de fato dispenseiros de um indulto superior patrocinado pela cruz de Cristo. Se você não tem apetite em perdoar é porque você padece de uma violenta anorexia do perdão celestial. É absolutamente inviável pensar num cristão resistente a perdoar. É mais fácil admitir um crocodilo vestido de fraque tocando oboé numa orquestra, do que um cristão legítimo obstinado sem querer perdoar. Ainda que o perdão não seja fácil para o cristão, ele é glorioso para o Cristo que vive nele. Sola Dei Gloria!

O CARNICÃO DO CARNAVAL


O CARNICÃO DO CARNAVAL
Por: Glenio Fonseca Paranaguá


Segundo Jesus dois tipos de nascimento: o ato de nascer natural ou carnal e o novo nascimento sobrenatural ou espiritual. Todos os seres humanos chegam nessa terra através de um corpo nascido da carne, mas para alguém poder entrar no reino de Deus precisa nascer do Espírito. Aquele que nasceu da carne necessita nascer do Espírito, a fim de ser feito filho de Deus, pois o Espírito de Deus se relaciona com o espírito do homem que foi regenerado. O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus. Romanos 8:16.
O homem natural vive pelas leis da carne, uma vez que se encontra dominado pelo sistema da carne, mas o homem espiritual tem uma outra esfera de influência completamente diferente. Os dois princípios são divergentes e antagônicos. Não o menor acordo entre a carne e o Espírito nem uma aliança entre o carnal e o espiritual. Porque a carne milita contra o Espírito, e o Espírito contra a carne, porque são opostos entre si... Gálatas 5:17.
O homem natural não pode compreender a vida espiritual dos filhos de Deus. A mente carnal tem tanto interesse pelas coisas espirituais, como um urubu tem um apetite voraz por alpiste. A natureza da carne se preocupa com as coisas da carne, e não adianta forçar essa tendência primitiva dos instintos carnais. Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus porque lhe são loucura, e não pode entendê-las porque elas se discernem espiritualmente. 1Coríntios 2:14.
Tudo na vida é uma questão de pendor, por isso, nada pode ser mais excêntrico do que um carnal tentando viver uma vida espiritual. A extravagância das aparências patenteia a tremenda patetice da hipocrisia que encobre a bicheira com o manto púrpura, para, de algum modo, pretender ocultar as manchas de sangue, sem, contudo, poder disfarçar o fedor do tecido podre. A conduta reflete sempre a disposição que norteia a natureza da vida. Porque os que se inclinam para a carne cogitam das coisas da carne; mas os que se inclinam para o Espírito, das coisas do Espírito. Romanos 8:5.
A origem do carnaval começa na idade média, quando a Igreja oficial influenciada pelas tradições pagãs, procura esvaziar a tensão da carne reprimida, com uma licença artificial, mas autorizada pela hierarquia do poder eclesiástico. que a mensagem burocrática da religião não conseguia promover a conversão do homem carnal em espiritual, o jeito foi permitir um tempo de vazão, para deixar sair a libido reprimida pelas regras e regulamentos dessa camisa de força legalista.
A etimologia da palavra carnaval é um tanto duvidosa. De acordo com M Lübke, o vocábulo deriva dos termos latinos, carne e levare, significando o tempo quando a Igreja suprimia o uso da carne no cotidiano; todavia segundo Petrocchi, a origem vem das palavras latinas carne e vale, significando: adeus, carne! Essa é possivelmente a acepção mais provável, pois reflete a tendência do esvaziamento repressivo que caracterizava a religião opressora e dominante da idade média.
O carnaval surgiu como uma associação complexa de três festas pagãs: as saturnais, dedicadas ao deus Saturno, com toda a sua orgia, as festas dionisíacas, oferecidas ao deus Dionísio, patrocinador das bacanais, e as festas lupercais consagradas ao deus Luperco ou Pã, para assegurar a fertilidade, e se caracterizava pela alegria desabrida, pela eliminação da repressão e da censura e pela liberdade de atitudes críticas e eróticas. A receita foi na medida para a propagação de um tempo de folguedo, de recreio desobrigado e desobediente, depois de tanta angústia sufocando a carne.
O bloco religioso denominado evangélico vem espiritualizando, hoje em dia, essa bagunça carnal, com o rótulo de cristoval, sob o pretexto de evangelização dos pecadores e divertimento inocente para os jovens da igreja. Com a aparência modificada, o festival da carne assume o controle dessa outra banda do cristianismo, fomentando suas velhas estratégias de esvaziamento da pressão moralista, de uma religiosidade opressora. A espiritualização dos festejos da carne tem causado uma confusão na identificação do perfil da verdadeira experiência cristã.
A religião é especialista na arte da santimônia, isto é: a arte da simulação de santidade. Porém é impossível domar o homem velho, a ponto de torná-lo um santo. A carne reprimida consegue por algum tempo portar-se com boa aparência, mas é preciso um escape de vez em quando. A função do carnaval era liberar o freio dos fiéis por três dias, pra que eles se tornassem foliões e assim dessem expansão à carne, esvaziando a tensão contida pelo medo dos castigos.
A carne refreada é uma tragédia. Não cabresto capaz de moderar os instintos da carne, nem educação religiosa suficientemente competente para represar a força carnal. Por mais que o homem subjugue sua carne com métodos repressores, nada tem conseguido no sentido do descanso espiritual. Muita gente sincera tem procurado com todo empenho dominar com austeridade os seus impulsos carnais, mas sem qualquer sossego na alma. O apóstolo Paulo diz que tais coisas, com efeito, têm aparência de sabedoria, como culto de si mesmo, e falsa humildade, e rigor ascético; todavia, não tem valor algum contra a sensualidade. Colossenses 2:23.
A carne sopeada, isto é, sofreada é piada. É ridículo tentar sufocar os arrebatamentos impulsivos da carne. A história da igreja tem demonstrado o escárnio picante de uma multidão que se esforça para comportar-se adequadamente sob o patrocínio legalista de uma conduta comedida. É impossível alguém conseguir domesticar a carne, por outro lado, liberá-la é um horror. A carne sem governo é tragédia sem limites, pois esse carnegão do carnaval é realmente podre.
Ora, se refrear a carne é impossível, e dar permissão aos seus instintos é uma loucura, qual é então a opção que temos diante do problema carnal? Aqui entra o evangelho da graça realizando um milagre maravilhoso. Não outro meio capaz de cuidar profundamente do problema da carne, senão Cristo Jesus crucificado. A obra eficiente de Cristo visa alcançar o pecador em toda a sua abrangência. Primeiro, a inclusão do pecador em Cristo na cruz, depois a participação efetiva do salvo na experiência de fé, diariamente.
Os dois lados experimentais da cristã se baseiam na verdade bíblica da união do pecador com Cristo, e na confissão pessoal de sustentada pela palavra de Deus. Inicialmente o pecador se em Cristo, sendo crucificado com ele, e em seguida, os que estão em Cristo carregam diariamente no seu corpo a mortificação do Senhor Jesus. Isso pode ser visto claramente nesse três versículos das Escrituras: E assim, se alguém está em Cristo é nova criação; as coisas antigas passaram; eis que tudo foi feito novo. E os que são de Cristo Jesus crucificaram a carne, com suas paixões e concupiscências. Levando sempre no corpo o morrer de Jesus para que a sua vida se manifeste em nosso corpo. Gálatas 5:24, 2Coríntios 5:17 e 4:10.
Ninguém pode refrear a sua carne de modo satisfatório a ponto de gozar perfeita tranqüilidade espiritual, tampouco pode dar vazão a sua carne sem que sofra as conseqüências de uma vida culposa e descontente. O carnicão do carnaval é a carniça de uma vida carnal sem o menor contentamento. Como afirma J Blanchard, a felicidade superficial sem a santidade espiritual é um dos principais produtos de exportação do inferno.Entretanto, aquele que nasceu do Espírito mediante sua morte e ressurreição juntamente com Cristo pode, de fato, crucificar a carne com os seus desejos, carregando pela fé, sempre e por toda parte, a mortificação do Senhor Jesus em seu corpo. Não se trata de uma auto-extinção, nem de uma flagelação de si mesmo, mas da consciência espiritual de fé, que revela a morte de Jesus na cruz como sendo de fato a morte do pecador. Eu estou crucificado com Cristo; logo, não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que agora tenho na carne, vivo pela no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim. Gálatas 2:20.
A verdadeira vida cristã não sufoca a carne com expedientes de subjugação, mas por outro lado, não vazão aos seus desejos e apelos obsessivos, uma vez que a convicção profunda de adota uma postura de levar, sempre e por toda parte, os efeitos da morte de Cristo em sua carne, andando sob a consciência revelada pelo Espírito Santo de que é uma pessoa morta para o pecado. Andemos dignamente, como em pleno dia, não em orgias e bebedices, não em mpudicícias e dissoluções, não em contendas e ciúmes; mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo, e nada disponhais para a carne, no tocante às suas concupiscências. Andai no Espírito, e jamais satisfareis à concupiscência da carne. Romanos 13:13-14 e Gálatas 5:16.