USANDO
OU
AMANDO
Glenio Fonseca Paranaguá
Glenio Fonseca Paranaguá
“Ora,
antes
da
Festa
da
Páscoa,
sabendo
Jesus
que
era
chegada
a
sua
hora
de
passar
deste
mundo
para
o
Pai,
tendo
amado
os
seus
que
estavam
no
mundo,
amou-os
até
ao
fim.”
João
13:1.
Alguém
já disse com muita precisão, que Deus criou
o homem para amar
as pessoas e usar
as coisas, mas o
pecado transtornou tão
profundamente o ser humano,
que ele acaba amando
as coisas e usando
as pessoas. Na verdade o amor é uma
realidade bem pouco conhecida na nossa experiência diária dos
relacionamentos. Nós confundimos amor com interesses pessoais.
Defendemos as causas do amor em nome do nosso egoísmo. Somos
consumidos pela paixão, pensando que o nosso alvo é o amor.
Nós
falamos muito de amor e temos algumas definições apropriadas para
os nossos conceitos de amor, mas a realidade demonstra a incoerência
entre o discurso e a vida. Eliane Watson foi bem objetiva quando
tratou de sua grande crise: O meu maior
problema não é amar
o mundo todo. A
minha maior dificuldade é
amar meus conhecidos que
moram na casa vizinha.
As vezes falamos do nosso grande amor e da capacidade que temos em
nos doar, enquanto os nossos interesses não são conflitados. Certa
ocasião Nero, o imperador romano, falou publicamente no Senado que o
seu preceptor Sêneca, era o seu melhor e mais fiel amigo; mas quando
este amigo, no outro dia, discordou de algumas posições
extremadas assumidas pelo imperador, acabou perdendo a vida. Sêneca
era amigo enquanto concordava totalmente com as posições do
imperador. Sêneca agora estava morto e Nero choromingava a sua
morte: Sêneca era meu amigo,
mas eu sou amigo
apenas daqueles que me
obedecem fielmente! Este é o perfil
psicótico da amizade despótica. Você é meu amigo se pensar como
eu penso e se fizer como eu quero.
A
verdadeira amizade não exige fidelidade compulsória, mas concede
liberdade para que a correspondência responsável seja espontânea,
livre e pessoal. Jesus tendo
amado os seus
que estavam
no mundo,
amou-os até
ao fim. Jesus amou
Judas que o traiu com uma amizade incondicional. A atitude antipática
de Judas não podia intervir na realidade sublime de uma amizade
verdadeira. Quando Judas se aproximou de Jesus com o beijo da
traição, Jesus se manifesta com um coração realmente comprometido
com a sua amizade. E logo,
Judas aproximou-se
de Jesus e
lhe disse:
Salve, Mestre!
E o beijou.
Jesus, porém,
lhe disse:
Amigo, para
que vieste?
Nisto, aproximando-se
eles, deitaram
as mãos em
Jesus e o
prenderam. Mateus
26:49-50. Jesus não usa as pessoas, ele as ama
em qualquer circunstância. Ele não deixa de amá-las por causa da
infidelidade humana. Ele não as despreza em virtude de suas idéias
contrárias. Jesus sabe muito bem que a única maneira de se ter
amigos sinceros é ser sinceramente amigo, e profundamente amável.
Matthew Henry percebendo esta realidade afirmou com amor: Há
pessoas com as quais
não concordamos, mas não
precisamos afastá-las de
nossa amizade. Cremos que o amor é
mais forte e mais poderoso que as diferenças de opiniões e muito
mais profundo que os limites de nossos preconceitos. Há uma grande
diferença entre aqueles que têm amigos e aqueles que são amigos.
Muitos primam por conquistar amigos e se gabam de ter muitos amigos.
Contudo, sofrem com o medo de perder e vivem na corda bamba das
susceptibilidades para mantê-los em suas inconstâncias.
Outros são apenas amigos e não temem perdê-los, pois ainda que
estes se vão, eles continuam verdadeiramente amigos. Eles não usam
as pessoas, mas amam sem interesse, nem culpa.
A
Bíblia fala de dois amigos íntimos que ultrapassam aos padrões
vulgares das amizades negociadas, e das paixões medíocres e
deformadas que caracterizam as perversões humanas. Sucedeu
que, acabando
Davi de falar
com Saul, a
alma de
Jônatas se
ligou com a
de Davi; e
Jônatas o
amou como à
sua própria
alma. 1Samuel
18:1. Estes dois se tornaram amigos
incondicionais. Não se trata de uma amizade utilitária nem uma
relação passional ou patológica. Era uma amizade de calibre eterno
e de proporções verdadeiras. Davi e Jônatas tinham uma relação
de amigos sinceros e não mera cumplicidade de vantagens lucrativas.
Saul fez tudo para comprometer esta dedicação e colocou toda forma
de incompatibilidade para abortar a afeição genuína que eles
nutriam. Porém esta amizade não estava alicerçada em proveitos
próprios, nem se fundamentava em carências psicológicas
complementares. Não havia a necessidade doentia de aceitação nem o
medo obsessivo da rejeição. Eles se amavam sem as paixões
deformantes da alma, nem as vantagens lucrativas do egoísmo. Em
todo o tempo
ama o amigo,
e na angústia
se faz o
irmão. Provérbios
17:17. Lembro-me de uma pessoa que dizia ser o
melhor amigo de alguém, até ser confrontada por este nos seus
interesses pessoais. Pouco a pouco a sua amizade evaporou-se. A
volatilização do relacionamento estava baseado exatamente na
utilização da amizade. Jônatas foi encurralado pelo pai para
descartar a amizade com Davi, pois como Príncipe herdeiro, o seu
reino estava ameaçado com a possibilidade de Davi se tornar Rei.
Então, se acendeu
a ira de
Saul contra
Jônatas, e
disse-lhe: Filho
de mulher
perversa e
rebelde; não
sei eu que
elegeste o
filho de
Jessé, para
vergonha tua
e para
vergonha do
recato de tua
mãe? Pois,
enquanto o
filho de
Jessé viver
sobre a
terra, nem tu
estarás seguro,
nem seguro o
teu reino;
pelo que
manda buscá-lo,
agora, porque
deve morrer.
Então, respondeu
Jônatas a
Saul, seu
pai, e lhe
disse: Por
que há de
ele morrer?
Que fez ele?
Então, Saul
atirou-lhe com
a lança para
o ferir.
1Samuel 20:30-33a.
Jônatas escolhendo a legítima amizade prefere perder o reino ao
amigo; enquanto Saul, que só sabia usar as pessoas, prefere matar o
filho, a conhecer os laços de uma amizade profunda.
Há
muitas pessoas que se interessam pelas outras enquanto estas podem
ser úteis, ou quando não causam ameaça aos seus interesses. Não
raro confundimos amizade com utilização de influência ou prestígio
conveniente. Se você me serve, então sua amizade pode ser
meticulosamente engenhada. Muitas vezes, em face da solidão, nos
tornamos amigos de pessoas que podem corresponder à nossa
necessidade. Servir-se das pessoas é muito diferente de servir as
pessoas com amor generoso e desprendido. Seja o que for a amizade,
ela jamais se utiliza dos outros para o benefício pessoal. A prova
de uma amizade legítima está na capacidade do amigo se doar pelo
objeto de sua afeição. Muitos amam da boca para fora, mas os amigos
amam de coração, até ao fim, em qualquer circunstância e sem
qualquer interesse mesquinho, senão o de amar o amigo. Jesus foi um
amigo dos seus discípulos, e os amou incondicionalmente até ao fim.
Ele não amou por conveniência nem por solicitude de qualquer
carência. Pois o amor só
precisa amar, ainda que
não ganhe nada com
isso. E como dizia muito bem Thomas Merton, o
amor busca apenas uma
coisa: o bem do
ser amado. Ele deixa
todos os outros elementos
secundários por conta de
si mesmos. Deste modo, que a graça de Deus
nos constitua amigos das pessoas e não desfrutantes de seus
préstimos ou qualidades. Temos um projeto de vida maravilhoso de
amar as pessoas e não usá-las. Examinemos as nossas relações e
vejamos se estamos usando ou amando
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