CONHECENDO
A JESUS CRISTO
CRUCIFICADO
Glenio Fonseca Paranaguá
Glenio Fonseca Paranaguá
Porque
decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo
e este crucificado. 1 Coríntios 2:2.
e este crucificado. 1 Coríntios 2:2.
Esta
é uma decisão extremamente radical de um homem comprometido com o
evangelho. Paulo parece ter tropeçado em algum seixo num certo lugar
pedregoso, pois ao chegar a Corinto ele toma uma deliberação
terminante e intensa. Resolve de modo definitivo nada saber entre
eles, senão a Jesus Cristo crucificado. Esta determinação tem um
objetivo claro, como bem define na sua carta: para
que a vossa
fé não se
apoiasse em
sabedoria humana,
e sim no
poder de
Deus. 1
Coríntios 2:5.
O
apóstolo vem de Atenas onde teve uma chance ímpar de pregar o
evangelho, mas saltou um degrau. A boa nova do evangelho é composta
de dois vetores básicos: a morte de Cristo na cruz e a sua
ressurreição. Na morte nós vemos a obra singular da justificação
do pecador, e na ressurreição encontramos a regeneração da nova
criatura. Todas as pregações do livro de Atos têm sempre o mesmo
modelo: introdução, mensagem e conclusão. As introduções e as
conclusões são sempre variadas, mas a mensagem é a mesma; anunciar
a morte sacrifical e vicária de Cristo Jesus e a sua ressurreição.
A única exceção é em Atenas onde Paulo falou da ressurreição
sem citar sequer a morte de Cristo na cruz. Ele passou por cima deste
ponto fundamental. A pregação de Cristo crucificado é o assunto
que aborda o poder de Deus para a justificação do réu. Sem a
absolvição da culpa do transgressor não se pode falar dos efeitos
da ressurreição. O manifesto da cruz é paradoxal, uma vez que ela
estampa uma aparente fraqueza na abordagem para demonstrar um grande
poder. Certamente, a
palavra da
cruz é
loucura para
os que se
perdem, mas
para nós,
que somos
salvos, poder
de Deus. 1
Coríntios 1:18.
Paulo
concluiu, depois de sua passagem por Atenas, que o conhecimento de
Cristo crucificado era a única razão para o seu ministério entre
os coríntios. Ele percebeu que havia uma sabedoria muito profunda
decorrente da obra da cruz. Como insistia Francisco de
Sales, é no Calvário
da Cruz de Cristo
que os santos meditam,
contemplam e vêm
experimentar o seu Senhor.
A sabedoria da cruz é um estilo de vida e não um mero discurso.
A doutrina da crucificação não é a mesma coisa do que o caráter
esculpido pelos efeitos da cruz. Saber falar do sacrifício de Cristo
é menos do que agir como um verdadeiro crucificado, ainda que a
mensagem seja de suma importância. Mas, mesmo assim, a pregação da
cruz é de menor importância do que o pregador pregado na cruz.
É
possível empalharmos o Cristo crucificado em nossas preleções.
Pode ser que as palavras sejam adequadas, porém destituídas da
verdadeira realidade espiritual. Ouvi alguém dizer de um pregador
que tinha uma boa retórica sobre a obra da cruz de Cristo, mas
faltava-lhe o espírito de um crucificado. Ele era profundo no
conteúdo, mas raso nos efeitos da cruz. Ortodoxia não significa
vida, nem homilia quer dizer humildade, por isso Paulo afirmou: o
saber ensoberbece,
mas o amor
edifica. 1
Coríntios 8:1b.
A
presunção do saber pode ser um embalsamamento do cadáver de Jesus.
A ciência que tenta estudar Deus pode se tornar arrogante e não
consciente da sua insuficiência. A sua mensagem pode ser correta,
mas não há evidência da vida que nasce da morte. Essa não é a
sabedoria do evangelho, uma vez que a pregação da cruz vem sempre
acompanhada da vida que brota da tumba em perfeita humildade e
dependência. O caráter cristão traz as marcas dos sinais dos
cravos. O pregador da cruz é uma pessoa morta para a autopromoção,
bem como para autocondenação. Ele não busca os holofotes da mídia
nem a presença das carpideiras. Não exibe seus talentos como moeda
de aceitação, tampouco chama a atenção com um perfil de vítima.
Quem já foi aceito incondicionalmente pelo Pai não carece da
aceitação do bando. Quem já foi justificado pelo Filho não
precisa mais de advogados.
Conhecer
a Cristo crucificado é muito mais do que a doutrina da crucificação.
É a encarnação da própria cruz. Não é um jogo de palavras, mas
um jugo na sepultura com a pessoa de Cristo. Deus e o homem são
parceiros num só corpo, já que sem a morte do ego o ser humano não
tem passaporte para o Reino de Deus. Para sermos embaixadores do céu
na terra temos que trazer as credenciais da nova vida que surge da
morte. Brennan Manning, em seu livro a
Assinatura de Jesus, diz que para Paulo,
qualquer espiritualidade que
rejeita a Cruz, mesmo
que conduza às alturas
da contemplação mística,
é inteiramente desprovida
de poder e de
sabedoria, e, portanto,
inútil. Paulo não fala
apenas de um Cristo
crucificado, mas também de
homens e mulheres
crucificados. Sem a intervenção interior da cruz na
experiência humana, a sua pregação é uma simples exposição
histórica dos fatos concernentes à via-crúcis. A decisão paulina
de conhecer a Cristo crucificado é muito mais do que conhecer a
história do Calvário e a doutrina da redenção. Paulo conseguia
ver a sua identificação, pela fé, no mistério da inclusão em
Cristo crucificado. Ele percebia claramente que havia mais gente
naquele sacrifício quando afirmou: Mas longe
esteja de mim
gloriar-me, senão
na cruz de
nosso Senhor
Jesus Cristo,
pela qual o
mundo está
crucificado para
mim, e eu,
para o mundo.
Gálatas 6:14.
O
conhecimento de Cristo Jesus crucificado não é um assunto meramente
teológico ou doutrinário. É uma realidade espiritual de fé que
implica no câmbio dos apelos adâmicos e da postura atrevida da
carne. A morte compartilhada na cruz com Cristo tem a ver com a
exoneração do homem velho e as suas chantagens emocionais. Não
basta pregar a Cristo crucificado é preciso conviver pregado na cruz
com Cristo. Todos os dias eu sofro com o desejo da visibilidade
pública ou ser notado, com a tendência de pódio, com a necessidade
sutil de ser reconhecido, com a falsa humildade que vem adornada de
cuidados especiais com os outros, com a apresentação de relatórios
que me colocam num lugar de executivo bem sucedido, e não há outro
remédio senão a dosagem cotidiana, levando
sempre no
corpo o
morrer de
Jesus, para
que também a
sua vida se
manifeste em
nosso corpo.
2 Coríntios
4:10.
Conhecer
a Cristo crucificado é um experimento habitual do poder e da
sabedoria da cruz em nosso interior. A cruz em que Jesus foi
crucificado era nossa, e nós devemos levar o seu morrer diariamente
como nossa cruz. Dizia a
todos: Se
alguém quer
vir após
mim, a si
mesmo se
negue, dia a
dia tome a
sua cruz e
siga-me. Lucas
9:23.
Nunca
devemos confundir os fardos e dores desta vida como sendo a nossa
cruz. As aflições e problemas podem ser cargas, jamais pena de
morte. As dificuldades servem para o desenvolvimento de nossa fé, a
cruz para o extermínio de nossa teomania. Tomar a cruz diariamente é
receber as implicações da morte de Cristo em nosso modo de viver.
Isto significa: Estou crucificado
com Cristo;
logo, já não
sou eu quem
vive, mas
Cristo vive
em mim; e
esse viver
que, agora,
tenho na
carne, vivo
pela fé no
Filho de
Deus, que me
amou e a
si mesmo se
entregou por
mim. Gálatas
2:19b-20.
A
questão básica da vida cristã não é a mensagem correta da cruz
de Cristo, mas o viver moldado pelo morrer com Cristo. A nova
criatura não tem direito nem dignidade pessoal neste mundo. Veja
como o velho apóstolo apresenta esse ponto: Sim,
deveras considero
tudo como
perda, por
causa da
sublimidade do
conhecimento de
Cristo Jesus,
meu Senhor;
por amor do
qual perdi
todas as
coisas e as
considero como
refugo, para
ganhar a
Cristo e ser
achado nele,
não tendo
justiça própria,
que procede
de lei, senão
a que é
mediante a fé
em Cristo, a
justiça que
procede de
Deus, baseada
na fé; para
o conhecer, e
o poder da
sua ressurreição,
e a comunhão
dos seus
sofrimentos, conformando-me
com ele na
sua morte;
Filipenses 3:8-10.
A
reputação do filho de Deus é a glória do Cordeiro. A sua
excelência é o ajustamento do seu viver com o morrer de Cristo. Não
há celebridade na galeria dos heróis da fé cristã, pois todos
eles foram pessoas estigmatizadas com os sinais dos cravos. Muita
gente na igreja quer ser notável, mas não há lugar para gente
especial na via dolorosa. Como sustenta Dr. Martin
Marty, o problema é
que cristianismo e
celebridade não andam
juntos. Uma celebridade tem
ego enorme e precisa
alimentá-lo. Esses programas
retratam erroneamente o
governo, o humanismo e
as religiões históricas.
Eles não convertem,
confirmam. Não consigo
visualizá-los mudando pessoas.
Portanto, conhecer a Cristo Jesus crucificado é conhecer a nossa
origem abjeta. É reconhecer a nossa pequenez e permanecer perante o
trono adorando o Cordeiro, que foi morto em fraqueza, mas nos apóia
no poder do Pai. Porque, de
fato, foi
crucificado em
fraqueza; contudo,
vive pelo
poder de
Deus. Porque
nós também
somos fracos
nele, mas
viveremos, com
ele, para vós
outros pelo
poder de
Deus. 2
Coríntios 13:4.
Como
vimos anteriormente, o poder e a sabedoria da cruz são aparentemente
contradições, pois ao mesmo tempo em que eles mostram um Deus fraco
sendo morto sobre o madeiro, mostram a dinâmica da competência
divina agindo para libertar o pecador da teia pecaminosa. Nesse
suposto disparate entre a fraqueza e o poder há uma grande explosão
de energia libertadora do egoísmo exibicionista. Os efeitos da
mensagem da cruz demonstram que é a morte que traz a vida. Que é na
fragilidade que reside a força. Que é na humilhação que se revela
a exaltação. Que é sendo servo que se chega ao governo no Reino da
graça, e que essa mensagem precisa ser incorporada no caráter
cristão. Então, ele
me disse: A
minha graça
te basta,
porque o
poder se
aperfeiçoa na
fraqueza. De
boa vontade,
pois, mais me
gloriarei nas
fraquezas, para
que sobre mim
repouse o
poder de
Cristo. 2
Coríntios 12:9.
O
poder de Cristo é uma capacidade intensa que emana da cruz e da
ressurreição. Aquele que conhece a Cristo crucificado aceita
plenamente o esvaziamento de sua altivez e se submete ao tratamento
soberano da autoridade divina. A vida da ressurreição é traduzida
no despojamento das vantagens humanas e das garantias terrenas. A
decisão de Paulo é uma revolução tremenda e terrível no modo de
viver do cristão. Mas é melhor ser um verme crucificado com Cristo
do que ser um anjo arrogante sendo assado no tabuleiro das paixões
infernais. A cruz precisa ser
carregada; não temos
liberdade de passar por
cima dela ou de
evitá-la, insistia Richard Baxter.
Levar a morte da cruz com Cristo para os seus planos pessoais e
ambições particulares é a evidência de um verdadeiro discípulo
de Cristo. Como disse alguém, a vida oferece
apenas duas alternativas:
crucificação com Cristo
ou autodestruição sem
ele. Por isso, os que conhecem realmente a Cristo
crucificado serão sinceramente humildes e os que verdadeiramente
conhecem a si próprios, jamais podem ser arrogantes. Que o Pai nos
conceda a graça de andarmos sob os efeitos do morrer com Cristo.
Amém
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