quarta-feira, 4 de julho de 2012

CONHECENDO A JESUS CRISTO CRUCIFICADO


CONHECENDO A JESUS CRISTO CRUCIFICADO
Glenio Fonseca Paranaguá

Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo
e este crucificado. 1 Coríntios 2:2.
Esta é uma decisão extremamente radical de um homem comprometido com o evangelho. Paulo parece ter tropeçado em algum seixo num certo lugar pedregoso, pois ao chegar a Corinto ele toma uma deliberação terminante e intensa. Resolve de modo definitivo nada saber entre eles, senão a Jesus Cristo crucificado. Esta determinação tem um objetivo claro, como bem define na sua carta: para que a vossa não se apoiasse em sabedoria humana, e sim no poder de Deus. 1 Coríntios 2:5.
O apóstolo vem de Atenas onde teve uma chance ímpar de pregar o evangelho, mas saltou um degrau. A boa nova do evangelho é composta de dois vetores básicos: a morte de Cristo na cruz e a sua ressurreição. Na morte nós vemos a obra singular da justificação do pecador, e na ressurreição encontramos a regeneração da nova criatura. Todas as pregações do livro de Atos têm sempre o mesmo modelo: introdução, mensagem e conclusão. As introduções e as conclusões são sempre variadas, mas a mensagem é a mesma; anunciar a morte sacrifical e vicária de Cristo Jesus e a sua ressurreição. A única exceção é em Atenas onde Paulo falou da ressurreição sem citar sequer a morte de Cristo na cruz. Ele passou por cima deste ponto fundamental. A pregação de Cristo crucificado é o assunto que aborda o poder de Deus para a justificação do réu. Sem a absolvição da culpa do transgressor não se pode falar dos efeitos da ressurreição. O manifesto da cruz é paradoxal, uma vez que ela estampa uma aparente fraqueza na abordagem para demonstrar um grande poder. Certamente, a palavra da cruz é loucura para os que se perdem, mas para nós, que somos salvos, poder de Deus. 1 Coríntios 1:18.
Paulo concluiu, depois de sua passagem por Atenas, que o conhecimento de Cristo crucificado era a única razão para o seu ministério entre os coríntios. Ele percebeu que havia uma sabedoria muito profunda decorrente da obra da cruz. Como insistia Francisco de Sales, é no Calvário da Cruz de Cristo que os santos meditam, contemplam e vêm experimentar o seu Senhor. A sabedoria da cruz é um estilo de vida e não um mero discurso. A doutrina da crucificação não é a mesma coisa do que o caráter esculpido pelos efeitos da cruz. Saber falar do sacrifício de Cristo é menos do que agir como um verdadeiro crucificado, ainda que a mensagem seja de suma importância. Mas, mesmo assim, a pregação da cruz é de menor importância do que o pregador pregado na cruz.
É possível empalharmos o Cristo crucificado em nossas preleções. Pode ser que as palavras sejam adequadas, porém destituídas da verdadeira realidade espiritual. Ouvi alguém dizer de um pregador que tinha uma boa retórica sobre a obra da cruz de Cristo, mas faltava-lhe o espírito de um crucificado. Ele era profundo no conteúdo, mas raso nos efeitos da cruz. Ortodoxia não significa vida, nem homilia quer dizer humildade, por isso Paulo afirmou: o saber ensoberbece, mas o amor edifica. 1 Coríntios 8:1b.
A presunção do saber pode ser um embalsamamento do cadáver de Jesus. A ciência que tenta estudar Deus pode se tornar arrogante e não consciente da sua insuficiência. A sua mensagem pode ser correta, mas não há evidência da vida que nasce da morte. Essa não é a sabedoria do evangelho, uma vez que a pregação da cruz vem sempre acompanhada da vida que brota da tumba em perfeita humildade e dependência. O caráter cristão traz as marcas dos sinais dos cravos. O pregador da cruz é uma pessoa morta para a autopromoção, bem como para autocondenação. Ele não busca os holofotes da mídia nem a presença das carpideiras. Não exibe seus talentos como moeda de aceitação, tampouco chama a atenção com um perfil de vítima. Quem já foi aceito incondicionalmente pelo Pai não carece da aceitação do bando. Quem já foi justificado pelo Filho não precisa mais de advogados.
Conhecer a Cristo crucificado é muito mais do que a doutrina da crucificação. É a encarnação da própria cruz. Não é um jogo de palavras, mas um jugo na sepultura com a pessoa de Cristo. Deus e o homem são parceiros num só corpo, já que sem a morte do ego o ser humano não tem passaporte para o Reino de Deus. Para sermos embaixadores do céu na terra temos que trazer as credenciais da nova vida que surge da morte. Brennan Manning, em seu livro a Assinatura de Jesus, diz que para Paulo, qualquer espiritualidade que rejeita a Cruz, mesmo que conduza às alturas da contemplação mística, é inteiramente desprovida de poder e de sabedoria, e, portanto, inútil. Paulo não fala apenas de um Cristo crucificado, mas também de homens e mulheres crucificados. Sem a intervenção interior da cruz na experiência humana, a sua pregação é uma simples exposição histórica dos fatos concernentes à via-crúcis. A decisão paulina de conhecer a Cristo crucificado é muito mais do que conhecer a história do Calvário e a doutrina da redenção. Paulo conseguia ver a sua identificação, pela fé, no mistério da inclusão em Cristo crucificado. Ele percebia claramente que havia mais gente naquele sacrifício quando afirmou: Mas longe esteja de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim, e eu, para o mundo. Gálatas 6:14.
O conhecimento de Cristo Jesus crucificado não é um assunto meramente teológico ou doutrinário. É uma realidade espiritual de fé que implica no câmbio dos apelos adâmicos e da postura atrevida da carne. A morte compartilhada na cruz com Cristo tem a ver com a exoneração do homem velho e as suas chantagens emocionais. Não basta pregar a Cristo crucificado é preciso conviver pregado na cruz com Cristo. Todos os dias eu sofro com o desejo da visibilidade pública ou ser notado, com a tendência de pódio, com a necessidade sutil de ser reconhecido, com a falsa humildade que vem adornada de cuidados especiais com os outros, com a apresentação de relatórios que me colocam num lugar de executivo bem sucedido, e não há outro remédio senão a dosagem cotidiana, levando sempre no corpo o morrer de Jesus, para que também a sua vida se manifeste em nosso corpo. 2 Coríntios 4:10.
Conhecer a Cristo crucificado é um experimento habitual do poder e da sabedoria da cruz em nosso interior. A cruz em que Jesus foi crucificado era nossa, e nós devemos levar o seu morrer diariamente como nossa cruz. Dizia a todos: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, dia a dia tome a sua cruz e siga-me. Lucas 9:23.
Nunca devemos confundir os fardos e dores desta vida como sendo a nossa cruz. As aflições e problemas podem ser cargas, jamais pena de morte. As dificuldades servem para o desenvolvimento de nossa fé, a cruz para o extermínio de nossa teomania. Tomar a cruz diariamente é receber as implicações da morte de Cristo em nosso modo de viver. Isto significa: Estou crucificado com Cristo; logo, não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim. Gálatas 2:19b-20.
A questão básica da vida cristã não é a mensagem correta da cruz de Cristo, mas o viver moldado pelo morrer com Cristo. A nova criatura não tem direito nem dignidade pessoal neste mundo. Veja como o velho apóstolo apresenta esse ponto: Sim, deveras considero tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; por amor do qual perdi todas as coisas e as considero como refugo, para ganhar a Cristo e ser achado nele, não tendo justiça própria, que procede de lei, senão a que é mediante a em Cristo, a justiça que procede de Deus, baseada na fé; para o conhecer, e o poder da sua ressurreição, e a comunhão dos seus sofrimentos, conformando-me com ele na sua morte; Filipenses 3:8-10.
A reputação do filho de Deus é a glória do Cordeiro. A sua excelência é o ajustamento do seu viver com o morrer de Cristo. Não há celebridade na galeria dos heróis da fé cristã, pois todos eles foram pessoas estigmatizadas com os sinais dos cravos. Muita gente na igreja quer ser notável, mas não há lugar para gente especial na via dolorosa. Como sustenta Dr. Martin Marty, o problema é que cristianismo e celebridade não andam juntos. Uma celebridade tem ego enorme e precisa alimentá-lo. Esses programas retratam erroneamente o governo, o humanismo e as religiões históricas. Eles não convertem, confirmam. Não consigo visualizá-los mudando pessoas. Portanto, conhecer a Cristo Jesus crucificado é conhecer a nossa origem abjeta. É reconhecer a nossa pequenez e permanecer perante o trono adorando o Cordeiro, que foi morto em fraqueza, mas nos apóia no poder do Pai. Porque, de fato, foi crucificado em fraqueza; contudo, vive pelo poder de Deus. Porque nós também somos fracos nele, mas viveremos, com ele, para vós outros pelo poder de Deus. 2 Coríntios 13:4.
Como vimos anteriormente, o poder e a sabedoria da cruz são aparentemente contradições, pois ao mesmo tempo em que eles mostram um Deus fraco sendo morto sobre o madeiro, mostram a dinâmica da competência divina agindo para libertar o pecador da teia pecaminosa. Nesse suposto disparate entre a fraqueza e o poder há uma grande explosão de energia libertadora do egoísmo exibicionista. Os efeitos da mensagem da cruz demonstram que é a morte que traz a vida. Que é na fragilidade que reside a força. Que é na humilhação que se revela a exaltação. Que é sendo servo que se chega ao governo no Reino da graça, e que essa mensagem precisa ser incorporada no caráter cristão. Então, ele me disse: A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo. 2 Coríntios 12:9.
O poder de Cristo é uma capacidade intensa que emana da cruz e da ressurreição. Aquele que conhece a Cristo crucificado aceita plenamente o esvaziamento de sua altivez e se submete ao tratamento soberano da autoridade divina. A vida da ressurreição é traduzida no despojamento das vantagens humanas e das garantias terrenas. A decisão de Paulo é uma revolução tremenda e terrível no modo de viver do cristão. Mas é melhor ser um verme crucificado com Cristo do que ser um anjo arrogante sendo assado no tabuleiro das paixões infernais. A cruz precisa ser carregada; não temos liberdade de passar por cima dela ou de evitá-la, insistia Richard Baxter. Levar a morte da cruz com Cristo para os seus planos pessoais e ambições particulares é a evidência de um verdadeiro discípulo de Cristo. Como disse alguém, a vida oferece apenas duas alternativas: crucificação com Cristo ou autodestruição sem ele. Por isso, os que conhecem realmente a Cristo crucificado serão sinceramente humildes e os que verdadeiramente conhecem a si próprios, jamais podem ser arrogantes. Que o Pai nos conceda a graça de andarmos sob os efeitos do morrer com Cristo. Amém

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