quarta-feira, 4 de julho de 2012

O CONHECIMENTO PESSOAL DO PAI


O CONHECIMENTO PESSOAL DO PAI
Glenio Fonseca Paranaguá

E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, o único Deus
verdadeiro,
e a Jesus Cristo, a quem enviaste. João 17:3.
Muita gente diz que conhece a Deus pessoalmente. Por exemplo, Jó achava que o conhecia, mas depois admitiu que o seu conhecimento fosse de segunda mão. Eu te conhecia de ouvir, mas agora os meus olhos te vêem. 42:5. Ele tinha notícias e noções de Deus que não representavam qualquer traço de intimidade.
Muita gente pretende conhecer a Deus intelectualmente. É um saber designado pelo entendimento teológico. Esse é um esforço na tentativa da compreensão do absoluto no diâmetro da razão, mas que sempre esbarra nos limites da metafísica. Por mais explicável que seja a ciência da cognição divina, nós estaremos em terreno limitado pelo pensamento tridimensional. A razão não consegue definir o indefinível. Muita gente não sabe como conhecer a Deus. É aqui que entra a importância da revelação. O conhecimento de Deus não é adquirido por diligência pessoal ou método didático. Jesus foi bem claro quando afirmou: Tudo me foi entregue por meu Pai. Ninguém conhece o Filho, senão o Pai; e ninguém conhece o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar. Mateus 11:27.
Fica bem evidente nesta afirmativa que o conhecimento de Deus é um assunto de revelação. Nem o Pai, nem o Filho são conhecidos pelo homem natural de um modo convencional como se conhece a realidade fenomenológica. O Filho é apresentado pelo Pai na dimensão física para iniciar o processo da revelação, todavia a sua realidade efetiva é primordialmente espiritual. O Filho de Deus encarnado no Jesus histórico é o ponto de partida da revelação. Como a mente natural não pode compreender a dimensão espiritual sem primeiro usar as categorias tridimensionais, o Filho na dimensão humana é a porta para revelação da realidade espiritual. Sem a manifestação do Filho no âmbito físico fica impossível, para a mente racional, entrar no terreno da realidade espiritual. Por outro lado, o campo da percepção espiritual é também espiritual. Só uma mente espiritual pode conhecer as realidades espirituais. Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente.1 Coríntios 2:14.
Deus é espírito e só poderá ser conhecido espiritualmente mediante revelação dada pelo Filho. O ser humano é carnal e não consegue entender a vida espiritual se antes não passar pelo novo nascimento. O que é nascido da carne é carne; e o que é nascido do Espírito é espírito. Não te admires de eu te dizer: importa-vos nascer de novo. João 3:6-7. A mente natural não compreende a realidade espiritual sem o novo nascimento.
Cristo, o Filho de Deus, encarnado em Jesus, o Filho do Homem, é o canal que converte o homem natural em homem espiritual mediante a sua morte e ressurreição. Na cruz, Cristo nos incluiu na sua morte, e na ressurreição Jesus nos fez parceiros de sua nova vida, para que nós fôssemos feitos filhos de Deus. Essa transformação é a única ponte capaz de converter os descendentes de Adão em filhos espirituais do Pai celestial. Porém, todo esse processo começa com Deus Pai. O Pai nos dá o Filho e nos leva a ele. Veja como Jesus coloca o assunto: Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia. João 6:44. O Pai enviou o seu Filho e, por graça, nos leva a crer nele. Ninguém poderá vir ao Filho se o Pai não o atrair a ele mesmo. Não é o desejo do pecador que o faz buscar a Cristo, mas é a condução do Pai. Todos aqueles que vão a Cristo é porque o Pai os guiou até ele.
A obra de Cristo transformando o homem natural em homem espiritual é um projeto do Pai. E para Jesus fica muito claro que ninguém poderá vir a ele se o Pai não fizer essa aproximação. E prosseguiu: Por causa disto, é que vos tenho dito: ninguém poderá vir a mim, se, pelo Pai, não lhe for concedido. João 6:65.
Como vimos anteriormente, ninguém poderá conhecer de fato o Pai se o Filho não o quiser revelar. A revelação do Pai é um assunto do Filho. Só o homem espiritual tem as condições espirituais de conhecer a realidade espiritual do Pai. O conhecimento do Pai é uma revelação pessoal do Filho, bem como a viagem em direção ao Pai ninguém pode fazer senão pelo Filho. Respondeu-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim. João 14:6.
Aqui temos uma realidade espiritual bem equilibrada. Ninguém vem ao Filho se o Pai não o trouxer e ninguém vem ao Pai senão pelo Filho. O Pai enviou o seu Filho ao mundo para que ele pudesse converter o homem natural em espiritual e desse modo o revelar como o Pai de uma família semelhante ao seu Filho. O Pai leva os pecadores ao Filho e o Filho transforma os pecadores em filhos do Pai para levá-los ao Pai. Do Pai para o Filho e do Filho para o Pai com a finalidade de um relacionamento familiar. Porquanto aos que de antemão conheceu, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos. Romanos 8:29. O propósito do Pai é ter uma família conforme a imagem do seu Filho, a fim de conhecê-lo em sua intimidade relacional.
A revelação do Pai é o objetivo do Filho. Cristo colocou toda a sua ênfase na manifestação da graça e na proclamação de Deus como o Pai de todos aqueles que ele regenerou através da graça plena. O evangelho é a boa notícia de que Deus é Pai de uma grande família que crê na suficiência do Filho. O conhecimento do Pai é, portanto, um relacionamento de família. A igreja de Jesus Cristo não é uma mera organização. É, antes de tudo, uma reunião familiar. O foco da revelação cristã é que Deus é Pai e que nós somos membros de sua família, por isso a nossa conversa deve ser sempre caseira: Quando orardes, dizei: Pai, santificado seja o teu nome; venha o teu reino; o pão nosso cotidiano dá-nos de dia em dia; perdoa-nos os nossos pecados, pois também nós perdoamos a todo o que nos deve; e não nos deixes cair em tentação. Lucas 11:2.
Conhecer a Deus como Pai não é um saber acadêmico nem qualquer informação a respeito dele. Há muita gente que sabe muito sobre Deus, mas não o conhece como seu Pai legítimo. A grande crise existencial da igreja é a falta de intimidade paterna. Hoje, poucos conhecem pessoalmente a Deus como Pai. Temos uma multidão de bastardos reivindicando direitos como sindicalistas amotinados. Todavia, a oração de filhos é uma conversa doméstica. Deus não é patrão nem seus filhos são empregados. Ninguém precisa demandar com o Pai das misericórdias, pois ele sabe do que precisamos antes mesmo que lhe apresentemos nossa causa. Não vos assemelheis, pois, a eles; porque Deus, o vosso Pai, sabe o de que tendes necessidade, antes que lho peçais. Mateus 6:8.
A petição de filho não é um discurso para uma conquista, mas o diálogo de um relacionamento. Como dizia Santo Agostinho, a natureza da bondade divina não está apenas em abrir àqueles que batem, mas também em levá-los a bater e pedir. Um Pai amoroso busca comunhão com os seus filhos queridos e para ele não faltam pretextos para essa camaradagem. Cristo se propôs a revelar a paternidade de Deus em seu amor eterno. O conhecimento pessoal do Pai amoroso e eterno é o desejo mais profundo do filho que se percebe amado incondicionalmente. Nada mais pode satisfazer o coração desse filho querido do que a intimidade intensa e relacional com o seu próprio Pai. Jesus disse aos seus discípulos que se eles o conhecessem, conheceriam também ao seu Pai. Se vós me tivésseis conhecido, conheceríeis também a meu Pai. Desde agora o conheceis e o tendes visto. João 14:7.
Filipe percebeu que esse era o ponto central da revelação, e solicitou: Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta. João 14:8. Ele queria conhecer realmente aquele que era o alvo do advento do Cristo. O seu contentamento só seria verdadeiro se ele se satisfizesse com a demonstração do Filho a respeito do Pai. Foi aqui que Jesus fez a mais intensa revelação de identidade entre o Filho e o Pai. Disse-lhe Jesus: Filipe, tanto tempo estou convosco, e não me tens conhecido? Quem me a mim o Pai; como dizes tu: Mostra-nos o Pai? Não crês que eu estou no Pai e que o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo não as digo por mim mesmo; mas o Pai, que permanece em mim, faz as suas obras. João 14:9-10.
A vida eterna foi sumariada por Jesus no processo do conhecimento do Deus verdadeiro e do seu Filho. A grande revelação do Filho é a comprovação de que o verdadeiro Deus é o Pai de uma família gerada na pessoa do Filho. A relação entre o Filho e o Pai é tão íntima que quem vê o Filho encarnado, vê o Pai exaltado. A falta da visão de Jesus é responsável pela ausência na revelação do Pai. Hoje, mais do que nunca, a igreja precisa do conhecimento pessoal do Filho para poder conhecer pessoalmente o Pai. A miopia que embaça o Filho acaba ofuscando o Pai.

A visão espiritual dessa igreja é conhecer a Cristo crucificado e fazê-lo conhecido em todo lugar por meio da graça, a fim de que em tudo o Pai seja glorificado como o único Deus verdadeiro.Nossa tarefa eterna e pessoal se sintetiza no conhecimento íntimo do Filho, Jesus Cristo, nosso Senhor, e do Pai de toda graça, através da revelação do Espírito Santo expressa na sua Palavra. Que o Senhor nos faça perseverantes nessa empreitada. Amém

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