PERDÃO,
POR
NÃO
PERDOAR
Glenio Fonseca Paranaguá
Glenio Fonseca Paranaguá
“Não
julgueis
e
não
sereis
julgados;
não
condeneis
e
não
sereis
condenados;
perdoai
e
sereis
perdoados;
dai,
e
dar-se-vos-á;
boa
medida,
recalcada,
sacudida,
transbordante,
generosamente
vos
darão;
porque
com
a
medida
com
que
tiverdes
medido
vos
medirão
também.”
Lucas
6:37-38.
Um
dos fundamentos básicos do Evangelho é a doutrina do perdão
mediante o sacrifício vicário de nosso Senhor Jesus Cristo. A cruz
é o único preço do perdão, capaz de pagar a dívida dos nossos
pecados, e a justiça de Deus é que patrocina esta cobrança. Dr.
Oswald Chambers sustentava com muita propriedade que é um
completo absurdo dizer que
Deus nos perdoa porque
Ele é amor. A
única base pela qual
Deus nos pode perdoar
é a cruz de
Cristo. A lei não
pode ser transgredida nem
a pena comutada. A justiça de
Cristo, declarada na corte do Tribunal celeste, é nossa única
absolvição, completa e final. Para nos reconciliar com Deus, o
Senhor Jesus Cristo nos incluiu juntamente com Ele na cruz e nos
justificou completamente dos nossos pecados, a fim de sermos
perdoados pela sua infinita graça. E como dizia Iain Murray, Deus
nunca perdoa o pecado
sem, ao mesmo tempo,
mudar a natureza do
pecador. Pecador perdoado é, de fato, um perdoador.
Eu
sou fã incondicional da graça de Deus. Não há nada mais admirável
e extraordinariamente fantástico do que a operação plena da graça
de Deus. Jesus quando terminou a sua missão terrena e voltou para
sua casa, deixou o portão aberto com um bilhete: Tudo está pago.
Não apaguem as luzes, e não se preocupem com o consumo da energia.
Não atendam aos cobradores, pois a conta já está quitada. E não
se preocupem com os ladrões, tomei a providência de deixar todos os
pertences assegurados. Está consumado.
Vós sois a
luz do mundo.
Assim brilhe
também a
vossa luz
diante dos
homens, para
que vejam as
vossas boas
obras e
glorifiquem a
vosso Pai que
está nos
céus. Eu
lhes dou a
vida eterna;
jamais perecerão,
e ninguém as
arrebatará da
minha mão.
Aquilo que
meu Pai me
deu é maior
do que tudo;
e da mão
do Pai
ninguém pode
arrebatar. João
19:30, Mateus
5:14a e 16
e João
10:28-29.
Max
Lucado afinou a sua pena ao escrever esta jóia: Ver o
pecado sem a graça
é desesperador. Ver a
graça sem pecado é
arrogância. Vê-los em
série é conversão. Deus nos
perdoou completamente de todos os nossos pecados mediante esta graça
maravilhosa encarnada em Cristo Jesus. Perdão é ficar livre dos
pecados mas também desembaraçado para perdoar. Se Cristo me perdoou
de todos os meus pecados, porque ainda me mantenho reprimido quanto
ao perdão que devo oferecer aos que me ofenderam? Nós nunca
poderemos perdoar alguém mais do que Jesus já nos perdoou. Ora, se
Deus nos perdoou tanto por meio da graça em Cristo, Ele também nos
concede a graça para perdoarmos realmente aqueles que nos tem
prejudicado. Todos aqueles que reconhecem a gravidade do seu pecado e
a generosidade da misericórdia de Deus, se mostram sensíveis para
desonerar os impostos lesivos que lhes foram tributados. Não é
possível usufruir do perdão gracioso de Deus e não ser capaz
de perdoar com benevolência. Por outro lado, o perdoador percebe a
arrogância que se esconde numa atitude de indisposição ao perdão.
Alexander Alud mostra que a pessoa que
sabe que é susceptível
à queda estará mais
pronta a perdoar as
ofensas dos seus
semelhantes. É preciso compreender a nossa humanidade
falível, para poder exercer com complacência o perdão sincero. Se
realmente experimentamos o perdão de Deus e conhecemos a nossa
estrutura falida, não há porque negar o perdão a quem nos
danificou. Não há transgressão tão grave que o amor legítimo não
seja capaz de absolver. Não existe mágoa tão profunda que o
genuíno perdão não releve por completo.
O
Cristianismo é a manifestação integral do amor de Deus no sentido
de perdoar perfeitamente o ser humano, a fim de torná-lo perito na
arte graciosa de perdoar. Antes, sede
uns para com
os outros
benignos, compassivos,
perdoando-vos uns
aos outros,
como também
Deus, em
Cristo, vos
perdoou. Efésios
4:32. Ninguém pode se declarar realmente salvo
se não é capaz de perdoar o seu ofendedor. Não estamos dizendo que
esta é uma atitude fácil, ou que sejamos naturalmente
habilitados para este mister. C S Lewis escreveu: Todos
dizem que perdoar é
uma idéia agradável até
terem algo para perdoar.
Mas, o perdão trivial é vulgar e leviano. Se está fácil perdoar,
não se trata de uma ofensa autêntica, mas de um esbarrão que se
desmancha com uma simples desculpa. Escusar é uma indulgência muito
leve para as personalidades bem educadas. Perdoar não é uma mera
desculpa de gente polida; é um gesto profundo de assumir a perda sem
contabilizar todos os prejuízos. Perdoar é absolver o crime e banir
do coração todo desejo de desforra. É soltar o réu distante do
preconceito ressentido de uma possível recaída. É apagar a mácula
sem a recordação sensível de uma nódoa permanente. Perdoar é
esquecer que um dia foi ferido, pois os golpes foram sarados pelo
bálsamo do sublime amor, sem deixar torpes cicatrizes. Aqueles
que dizem que perdoam
mas não esquecem,
simplesmente enterram a
machadinha, deixando o cabo
de fora para usá-la
da próxima vez.
Os
animais matam por instinto. Os homens se vingam por maldade. Os
salvos perdoam por amor. Se Deus nos perdoou tudo e completamente em
Cristo Jesus, por que não liberamos o perdão aos nossos agressores?
Errar é particularmente humano. Perdoar é essencialmente divino. Se
somos humanos, erramos com freqüência; mas se somos filhos de Deus,
pela fé em Cristo, temos a reiterada disposição para perdoar.
Revesti-vos, pois,
como eleitos
de Deus,
santos e
amados, de
ternos afetos
de misericórdia,
de bondade,
de humildade,
de mansidão,
de longanimidade.
Suportai-vos uns
aos outros,
perdoai-vos mutuamente,
caso alguém
tenha motivo
de queixa
contra outrem.
Assim como o
Senhor vos
perdoou, assim
também perdoai
vós; acima
de tudo isto,
porém, esteja
o amor, que
é o vínculo
da perfeição.
Colossenses 3:12-14.
Não há nada que nos identifique tanto com Deus, como a vida de
amor, cheia das atitudes perdoadoras. Deus em Cristo nos perdoa os
nossos pecados como se jamais tivessem sido cometidos, e nós, pela
graça, somos capacitados a perdoar com a mesma disposição.
Ambrósio,
um dos mais notáveis teólogos da igreja cristã, dizia: Não
me vangloriarei por ser
justo, mas por ser
remido; não por ser
livre do pecado, mas
porque meus pecados são
perdoados. Sua ênfase na dependência da graça removia
totalmente qualquer presunção de auto-suficiência orgulhosa. Desde
que Deus nos perdoa radical e continuamente em Cristo Jesus, nossa
postura deve ser também de legítimos perdoadores, sem qualquer
afetação de liberalidade, assim como Deus em Cristo nos perdoou.
Deus nos perdoar, é próprio da sua graça, que nos justificou em
Cristo. E nós perdoarmos, é conseqüência do amor de Cristo em
nossos corações. Uma vez perdoados, para sempre perdoando. Nada
neste mundo vil e
em ruínas ostenta a
suave marca do Filho
de Deus tanto como
o perdão.
Por
outro lado, o perdão deve ser também enfocado em relação a nós
mesmos. Há muita gente que pensa como Ausonius: Você deve
perdoar muitas coisas nos
outros, porém nada em
você mesmo. Isto é a copia fiel do recado
da Serpente: Como Deus
sereis. Esta teomania tem sustentado a mensagem
do perfeccionismo com uma austeridade insuportável. Quem
continua a temer castigos
ainda não ouviu a
Cristo nem à voz
do Evangelho. Se Deus já me perdoou, por
que eu também não hei de me perdoar? Nestes dias
de complexo de culpa,
talvez a mais gloriosa
palavra seja, perdão. O
perdão de Deus incondicional, por meio de Jesus Cristo; o perdão
aos outros mediante o amor de Cristo em nossos corações; e o perdão
a nós mesmos, por já termos sido perdoados totalmente pela graça.
Perdoa-me,
por ser perdoado e não ter perdoado ainda aos outros, e a mim mesmo!
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