segunda-feira, 16 de julho de 2012

A RAZÃO DA ANTROPOMETRIA


A RAZÃO DA ANTROPOMETRIA
Glenio Fonseca Paranaguá

Mas Jesus, voltando-se, disse a Pedro: Arreda, Satanás! Tu és para mim pedra de tropeço, porque não cogitas das coisas de Deus, e sim das dos homens. Mateus 16:23.
Na ciência, antropometria significa o processo ou técnica da mensuração do corpo humano. Na filosofia sofista de Protágoras o homem é a medida de todas as coisas, sendo, portanto, o metro que avalia o conhecimento e a realidade. A verdade depende do conceito estandardizado pelo alcance racional da mente humana, destarte, antropometria é usada aqui, significando o modelo de avaliação da realidade, pela razão.
Pedro foi porta voz de uma revelação extraordinária. Quando Jesus perguntou qual era a opinião que os discípulos tinham a seu respeito, respondendo Simão Pedro, disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. Mateus 16:16. Ele deu um salto de qualidade na compreensão dos fatos, pois a divindade de um homem foge aos limites do pensamento racional. Aqui a razão não consegue explicar a realidade espiritual. Jesus mostrou claramente que esta declaração não era uma descoberta humana, mas uma revelação divina. Então, Jesus lhe afirmou: Bem-aventurado és, Simão Barjonas, porque não foi carne e sangue que to revelaram, mas meu Pai, que está nos céus. Mateus 16:17. Esta afirmação não era um achado humano, mas um segredo manifesto pelo Pai, e Pedro foi tão somente um canal de revelação divina. A partir desta conversa Jesus passa a focalizar o propósito de sua missão. Ele procura esclarecer qual era o objetivo de sua vinda ao mundo. Desde esse tempo, começou Jesus Cristo a mostrar a seus discípulos que lhe era necessário seguir para Jerusalém e sofrer muitas coisas dos anciãos, dos principais sacerdotes e dos escribas, ser morto e ressuscitado no terceiro dia. Mateus 16:21.
Pedro não se conteve e o golpeou com uma fala protocolar, na tentativa de consertar o aparente equívoco do Mestre. Para esse afoito discípulo, Jesus havia perdido o juízo e o bom senso e Pedro, chamando-o à parte, começou a reprová-lo, dizendo: Tem compaixão de ti, Senhor; isso de modo algum te acontecerá. Mateus 16:22.
Foi justamente nesse instante que Jesus trouxe à luz um dos assuntos mais complicados da vida cristã. Quem está por detrás da antropometria, isto é, quem é o técnico da teomania. Quem está especulando com o amor-próprio do sujeito. Veja o contragolpe: Mas Jesus, voltando-se, disse a Pedro: Arreda, Satanás! Tu és para mim pedra de tropeço, porque não cogitas das coisas de Deus, e sim das dos homens. Mateus 16:23.
Jesus mostrou claramente que Satanás é o mentor de toda história da rebeldia humana e o arquiteto dos tamancos da altivez. Para ele, Lúcifer, o anjo insuspeito, é o inspirador dos pensamentos da auto-estima de uma raça arrogante e o inimigo figadal da obra da cruz. Satanás é o estrategista da vaidade e sempre aparece escondido na capa da modéstia, defendendo os direitos dos fracos, a fim de assanhá-los à celebridade. A obra maligna mais maligna é aquela em que o demônio vem disfarçado de anjo iluminado. Paulo percebeu que essa é a tática do inferno que melhor ludibria os incautos, quando disse: E não é de admirar, porque o próprio Satanás se transforma em anjo de luz. 2 Coríntios 11:14. É difícil você jogar pedra num anjo.
Precisamos analisar qual é a obra do inferno mais perigosa. Jesus disse que a função de Satanás é cogitar das coisas dos homens. A principal tarefa do tentador é valorizar a proposta do Éden, isto é, tornar o homem como Deus, totalmente adorável. Somos uma raça envenenada com a saliva da cobra e todos nós sofremos com os sintomas da grandeza. A vaidade é o trampolim da nossa exibição e a serpente lambe essa ferida fomentando sempre a exaltação do sujeito. Quando castigas o homem com repreensões, por causa da iniqüidade, destróis nele, como traça, o que tem de precioso. Com efeito, todo homem é pura vaidade. Salmos 39:11.
Nós, normalmente, não gostamos da repreensão porque ela nos desqualifica da glória. Os filhos de Adão são alpinistas da notoriedade e viciados em goles de louvores. O licor que mais apetece aos descendentes da serpente tem no seu rótulo a excelência dos aplausos. Você quer provar uma pessoa? Louve-a, e depois examine no íntimo de quem é o crédito. Como o crisol prova a prata, e o forno, o ouro, assim, o homem é provado pelos louvores que recebe. Provérbios 27:21.
A maior ameaça para a integridade moral dos filhos de Deus sempre foi a consagração pessoal. Um cara muito elogiado corre mais risco do que aquele que é criticado. A moeda mais apreciada para se fazer escravo é o louvor. Por isso a louvação é mais danosa do que a admoestação, ainda que nós prefiramos a primeira e não gostemos da segunda. Porém a Palavra de Deus nos mostra algo muito curioso: Leais são as feridas feitas pelo que ama, porém os beijos de quem odeia são enganosos. Provérbios 27:6.
Embora a censura de Pedro me pareça ter outros objetivos, talvez a sua própria preservação, uma vez que o suplício do líder poderia respingar sobre os liderados, ou, quem sabe, o sofrimento de Jesus e sua morte também eram ameaças à salvaguarda do grupo, por isso a cautela do discípulo arrojado. Tudo isso pode ser verdade, todavia o que aparece na resposta de Jesus é o incitamento satânico contra a obra da cruz. Satanás utilizou-se de Pedro para desconsiderar o valor do sacrifício vicário do Cordeiro, apelando para a autocomiseração da vítima. Nada pode ser mais deprimente para a alma do que o estado de coitado. Jesus foi confrontado com uma apelação baixa em favor de sua auto-estima. Ainda que Cristo fosse Deus, Jesus era homem e a supervalorização da humanidade é o projeto mais ardiloso da revolta edênica. A autonomia do ser humano é a proposta teomaníaca mais terrível para fomentar o orgulho da espécie caída que não se conforma com um lugar de segunda classe. Filho do homem, dize ao príncipe de Tiro: Assim diz o SENHOR Deus: Visto que se eleva o teu coração, e dizes: Eu sou Deus, sobre a cadeira de Deus me assento no coração dos mares, e não passas de homem e não és Deus, ainda que estimas o teu coração como se fora o coração de Deus. Ezequiel 28:2. É frustrante não ser o Ator principal.
Enquanto a arrogância do pecado propõe a divinização do ser humano, a obra da salvação revela a humilde humanização de Deus. Veja como Paulo mostra o que ocorreu com Cristo, pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz. Filipenses 2:6-8.
A sugestão do pecado é a valorização soberba da humanidade, mas a proposta da salvação é a humilhação da divindade. Um Deus humilde levando a natureza humana com a semelhança da carne do pecado é a única solução para o problema da presunção da raça adâmica. A visão do salmista a respeito de Jesus é de uma minhoca. Mas eu sou verme e não homem; opróbrio dos homens e desprezado do povo. Salmos 22:6.
A antropometria investe na grandeza de uma espécie governada pelo desejo de nobreza e singularidade. Essa aplicação psicológica visa valorizar a egolatria ou a síndrome de altar, que muitas vezes vem acondicionada numa embalagem insuspeita. Jesus classificou a arenga de Pedro como um discurso do Hades que pretende sempre inflar o ego com seus direitos e realizações. A operação da cruz, entretanto, aponta para o esvaziamento do ser humano e a exoneração do egoísmo. Muitas vezes Deus precisa mandar um mensageiro de Satanás para nos abater, porque a tendência de glorificação é muito forte em nossas vidas. Observe o apóstolo Paulo, quando teve uma revelação extraordinária nos limites celestiais, como foi tratado pelo Pai no sentido da sua humilhação. E, para que não me ensoberbecesse com a grandeza das revelações, foi-me posto um espinho na carne, mensageiro de Satanás, para me esbofetear, a fim de que não me exalte. 2 Coríntios 12:7.
Satanás usando a voz de Pedro tenta demover Jesus da cruz. Ele procura dar valor ao Mestre, enquanto faz crescer um sentimento de autocomiseração. – Isso não pode acontecer com uma pessoa como o Senhor! Esse é o discurso e a tática mais terrível do inferno na vida de uma pessoa. Soprando a brasa da exaltação do sujeito ele acende a chama dos direitos humanos e cria uma expectativa de destaque para, em seguida, fomentar a autopatia causada pela ausência de compensação no estilo de ator principal. A estratégia de soprar e picar é o procedimento vantajoso dos vampiros. O morcego sanguessuga abanando as suas asas produz uma sensação agradável no pescoço da vítima, anestesiando-a no deleite e, ao mesmo tempo, picando a jugular se deleita com a sangria que escorre do animal. A obra de Satanás é muito semelhante. Primeiro ele envaidece a pessoa com elogios e valorização, depois ele a golpeia com um martírio doloroso, mostrando que aquela pessoa não foi devidamente reconhecida e estimada. Jesus percebeu claramente que a voz era de Pedro, mas o jargão e o sotaque eram de Satanás. Todas as vezes que somos distinguidos e valorizados no show da vida precisamos imediatamente da cruz. Não há vacina para a presunção, mas há contraveneno. Ninguém está isento da picada orgulhosa, contudo temos o remédio na farmácia do Calvário. A única glória que rompe os efeitos da fama e da desonra é a glória da cruz. Mas longe esteja de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim, e eu, para o mundo. Gálatas 6:14.
No reino de Deus não há vítimas das circunstâncias ou reféns de ressentimentos, mas discípulos que levam as marcas da cruz. O próprio Jesus sabia que sua missão passaria pela prensa do Getsêmani e pelo madeiro cruel do Gólgota. O Filho do Homem precisava render a sua vontade ao Pai celestial e aceitar o tratamento aviltante da terra como legítimo. Ainda que ele não quisesse tomar daquele cálice, ele não se lastimou da sorte, nem se queixou da soberania do Pai. Ele foi oprimido e humilhado, mas não abriu a boca; como cordeiro foi levado ao matadouro; e, como ovelha muda perante os seus tosquiadores, ele não abriu a boca. Isaías 53:7.
O silêncio do Cordeiro de Deus diante dos maus tratos é uma das marcas da autenticidade daquele que é o Desejado das Nações, que não se comporta segundo a etiqueta da antropometria. Jesus não reclamou do sofrimento, nem criticou os seus ofensores. A sua missão foi desempenhada com absoluta nobreza e o seu estilo em perfeita elegância, pois ele, quando ultrajado, não revidava com ultraje; quando maltratado, não fazia ameaças, mas entregava-se àquele que julga retamente, 1 Pedro 2:23. Louvado seja o Cordeiro que tira o pecado do mundo, libertando-nos de nossa egolatria

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