A
RAZÃO DA ANTROPOMETRIA
Glenio Fonseca Paranaguá
Glenio Fonseca Paranaguá
Mas
Jesus, voltando-se, disse a Pedro: Arreda, Satanás! Tu és para mim
pedra de tropeço, porque não cogitas das coisas de Deus, e sim das
dos homens. Mateus 16:23.
Na
ciência, antropometria significa o processo ou técnica da
mensuração do corpo humano. Na filosofia sofista de Protágoras o
homem é a medida de todas as coisas, sendo, portanto, o metro que
avalia o conhecimento e a realidade. A verdade depende do conceito
estandardizado pelo alcance racional da mente humana, destarte,
antropometria é usada aqui, significando o modelo de avaliação da
realidade, pela razão.
Pedro
foi porta voz de uma revelação extraordinária. Quando Jesus
perguntou qual era a opinião que os discípulos tinham a seu
respeito, respondendo Simão
Pedro, disse:
Tu és o
Cristo, o
Filho do Deus
vivo. Mateus
16:16. Ele deu um salto de qualidade na
compreensão dos fatos, pois a divindade de um homem foge aos limites
do pensamento racional. Aqui a razão não consegue explicar a
realidade espiritual. Jesus mostrou claramente que esta declaração
não era uma descoberta humana, mas uma revelação divina. Então,
Jesus lhe
afirmou: Bem-aventurado
és, Simão
Barjonas, porque
não foi
carne e
sangue que to
revelaram, mas
meu Pai, que
está nos
céus. Mateus
16:17. Esta afirmação não era um achado
humano, mas um segredo manifesto pelo Pai, e Pedro foi tão somente
um canal de revelação divina. A partir desta conversa Jesus passa a
focalizar o propósito de sua missão. Ele procura esclarecer qual
era o objetivo de sua vinda ao mundo. Desde esse
tempo, começou
Jesus Cristo
a mostrar a
seus discípulos
que lhe era
necessário seguir
para Jerusalém
e sofrer
muitas coisas
dos anciãos,
dos principais
sacerdotes e
dos escribas,
ser morto e
ressuscitado no
terceiro dia.
Mateus 16:21.
Pedro
não se conteve e o golpeou com uma fala protocolar, na tentativa de
consertar o aparente equívoco do Mestre. Para esse afoito discípulo,
Jesus havia perdido o juízo e o bom senso e
Pedro, chamando-o
à parte,
começou a
reprová-lo, dizendo:
Tem compaixão
de ti,
Senhor; isso
de modo algum
te acontecerá.
Mateus 16:22.
Foi
justamente nesse instante que Jesus trouxe à luz um dos assuntos
mais complicados da vida cristã. Quem está por detrás da
antropometria, isto é, quem é o técnico da teomania. Quem está
especulando com o amor-próprio do sujeito. Veja o contragolpe: Mas
Jesus, voltando-se,
disse a
Pedro: Arreda,
Satanás! Tu
és para mim
pedra de
tropeço, porque
não cogitas
das coisas de
Deus, e sim
das dos
homens. Mateus
16:23.
Jesus
mostrou claramente que Satanás é o mentor de toda história da
rebeldia humana e o arquiteto dos tamancos da altivez. Para ele,
Lúcifer, o anjo insuspeito, é o inspirador dos pensamentos da
auto-estima de uma raça arrogante e o inimigo figadal da obra da
cruz. Satanás é o estrategista da vaidade e sempre aparece
escondido na capa da modéstia, defendendo os direitos dos fracos, a
fim de assanhá-los à celebridade. A obra maligna mais maligna é
aquela em que o demônio vem disfarçado de anjo iluminado. Paulo
percebeu que essa é a tática do inferno que melhor ludibria os
incautos, quando disse: E não
é de
admirar, porque
o próprio
Satanás se
transforma em
anjo de luz.
2 Coríntios
11:14. É difícil você jogar pedra num anjo.
Precisamos
analisar qual é a obra do inferno mais perigosa. Jesus disse que a
função de Satanás é cogitar das coisas dos homens. A principal
tarefa do tentador é valorizar a proposta do Éden, isto é, tornar
o homem como Deus, totalmente adorável. Somos uma raça envenenada
com a saliva da cobra e todos nós sofremos com os sintomas da
grandeza. A vaidade é o trampolim da nossa exibição e a serpente
lambe essa ferida fomentando sempre a exaltação do sujeito. Quando
castigas o
homem com
repreensões, por
causa da
iniqüidade, destróis
nele, como
traça, o que
tem de
precioso. Com
efeito, todo
homem é pura
vaidade. Salmos
39:11.
Nós,
normalmente, não gostamos da repreensão porque ela nos desqualifica
da glória. Os filhos de Adão são alpinistas da notoriedade e
viciados em goles de louvores. O licor que mais apetece aos
descendentes da serpente tem no seu rótulo a excelência dos
aplausos. Você quer provar uma pessoa? Louve-a, e depois examine no
íntimo de quem é o crédito. Como o
crisol prova
a prata, e
o forno, o
ouro, assim,
o homem é
provado pelos
louvores que
recebe. Provérbios
27:21.
A
maior ameaça para a integridade moral dos filhos de Deus sempre foi
a consagração pessoal. Um cara muito elogiado corre mais risco do
que aquele que é criticado. A moeda mais apreciada para se fazer
escravo é o louvor. Por isso a louvação é mais danosa do que a
admoestação, ainda que nós prefiramos a primeira e não gostemos
da segunda. Porém a Palavra de Deus nos mostra algo muito curioso:
Leais são as
feridas feitas
pelo que ama,
porém os
beijos de
quem odeia
são enganosos.
Provérbios 27:6.
Embora
a censura de Pedro me pareça ter outros objetivos, talvez a sua
própria preservação, uma vez que o suplício do líder poderia
respingar sobre os liderados, ou, quem sabe, o sofrimento de Jesus e
sua morte também eram ameaças à salvaguarda do grupo, por isso a
cautela do discípulo arrojado. Tudo isso pode ser verdade, todavia o
que aparece na resposta de Jesus é o incitamento satânico contra a
obra da cruz. Satanás utilizou-se de Pedro para desconsiderar o
valor do sacrifício vicário do Cordeiro, apelando para a
autocomiseração da vítima. Nada pode ser mais deprimente para a
alma do que o estado de coitado. Jesus foi confrontado com uma
apelação baixa em favor de sua auto-estima. Ainda que Cristo fosse
Deus, Jesus era homem e a supervalorização da humanidade é o
projeto mais ardiloso da revolta edênica. A autonomia do ser humano
é a proposta teomaníaca mais terrível para fomentar o orgulho da
espécie caída que não se conforma com um lugar de segunda classe.
Filho do homem,
dize ao
príncipe de
Tiro: Assim
diz o SENHOR
Deus: Visto
que se eleva
o teu
coração, e
dizes: Eu sou
Deus, sobre a
cadeira de
Deus me
assento no
coração dos
mares, e não
passas de
homem e não
és Deus,
ainda que
estimas o teu
coração como
se fora o
coração de
Deus. Ezequiel
28:2. É frustrante não ser o Ator principal.
Enquanto
a arrogância do pecado propõe a divinização do ser humano, a obra
da salvação revela a humilde humanização de Deus. Veja como Paulo
mostra o que ocorreu com Cristo, pois ele,
subsistindo em
forma de
Deus, não
julgou como
usurpação o
ser igual a
Deus; antes,
a si mesmo
se esvaziou,
assumindo a
forma de
servo, tornando-se
em semelhança
de homens; e,
reconhecido em
figura humana,
a si mesmo
se humilhou,
tornando-se obediente
até à morte
e morte de
cruz. Filipenses
2:6-8.
A
sugestão do pecado é a valorização soberba da humanidade, mas a
proposta da salvação é a humilhação da divindade. Um Deus
humilde levando a natureza humana com a semelhança da carne do
pecado é a única solução para o problema da presunção da raça
adâmica. A visão do salmista a respeito de Jesus é de uma minhoca.
Mas eu sou
verme e não
homem; opróbrio
dos homens e
desprezado do
povo. Salmos
22:6.
A
antropometria investe na grandeza de uma espécie governada pelo
desejo de nobreza e singularidade. Essa aplicação psicológica visa
valorizar a egolatria ou a síndrome de altar, que muitas vezes vem
acondicionada numa embalagem insuspeita. Jesus classificou a arenga
de Pedro como um discurso do Hades que pretende sempre inflar o ego
com seus direitos e realizações. A operação da cruz, entretanto,
aponta para o esvaziamento do ser humano e a exoneração do egoísmo.
Muitas vezes Deus precisa mandar um mensageiro de Satanás para nos
abater, porque a tendência de glorificação é muito forte em
nossas vidas. Observe o apóstolo Paulo, quando teve uma revelação
extraordinária nos limites celestiais, como foi tratado pelo Pai no
sentido da sua humilhação. E, para
que não me
ensoberbecesse com
a grandeza
das revelações,
foi-me posto
um espinho na
carne, mensageiro
de Satanás,
para me
esbofetear, a
fim de que
não me
exalte. 2
Coríntios 12:7.
Satanás
usando a voz de Pedro tenta demover Jesus da cruz. Ele procura dar
valor ao Mestre, enquanto faz crescer um sentimento de
autocomiseração. – Isso não pode acontecer com uma pessoa como o
Senhor! Esse é o discurso e a tática mais terrível do inferno na
vida de uma pessoa. Soprando a brasa da exaltação do sujeito ele
acende a chama dos direitos humanos e cria uma expectativa de
destaque para, em seguida, fomentar a autopatia causada pela ausência
de compensação no estilo de ator principal. A estratégia de soprar
e picar é o procedimento vantajoso dos vampiros. O morcego
sanguessuga abanando as suas asas produz uma sensação agradável no
pescoço da vítima, anestesiando-a no deleite e, ao mesmo tempo,
picando a jugular se deleita com a sangria que escorre do animal. A
obra de Satanás é muito semelhante. Primeiro ele envaidece a pessoa
com elogios e valorização, depois ele a golpeia com um martírio
doloroso, mostrando que aquela pessoa não foi devidamente
reconhecida e estimada. Jesus percebeu claramente que a voz era de
Pedro, mas o jargão e o sotaque eram de Satanás. Todas as vezes que
somos distinguidos e valorizados no show da vida precisamos
imediatamente da cruz. Não há vacina para a presunção, mas há
contraveneno. Ninguém está isento da picada orgulhosa, contudo
temos o remédio na farmácia do Calvário. A única glória que
rompe os efeitos da fama e da desonra é a glória da cruz. Mas
longe esteja
de mim
gloriar-me, senão
na cruz de
nosso Senhor
Jesus Cristo,
pela qual o
mundo está
crucificado para
mim, e eu,
para o mundo.
Gálatas 6:14.
No
reino de Deus não há vítimas das circunstâncias ou reféns de
ressentimentos, mas discípulos que levam as marcas da cruz. O
próprio Jesus sabia que sua missão passaria pela prensa do
Getsêmani e pelo madeiro cruel do Gólgota. O Filho do Homem
precisava render a sua vontade ao Pai celestial e aceitar o
tratamento aviltante da terra como legítimo. Ainda que ele não
quisesse tomar daquele cálice, ele não se lastimou da sorte, nem se
queixou da soberania do Pai. Ele foi
oprimido e
humilhado, mas
não abriu a
boca; como
cordeiro foi
levado ao
matadouro; e,
como ovelha
muda perante
os seus
tosquiadores, ele
não abriu a
boca. Isaías
53:7.
O
silêncio do Cordeiro de Deus diante dos maus tratos é uma das
marcas da autenticidade daquele que é o Desejado das Nações, que
não se comporta segundo a etiqueta da antropometria. Jesus não
reclamou do sofrimento, nem criticou os seus ofensores. A sua missão
foi desempenhada com absoluta nobreza e o seu estilo em perfeita
elegância, pois ele,
quando ultrajado,
não revidava
com ultraje;
quando maltratado,
não fazia
ameaças, mas
entregava-se àquele
que julga
retamente, 1
Pedro 2:23. Louvado
seja o Cordeiro que tira o pecado do mundo, libertando-nos de nossa
egolatria
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