O
PERIGO DO PASSADO
Por: Glenio Fonseca Paranaguá
Por: Glenio Fonseca Paranaguá
A
experiência tem história, mas não podemos viver voltados para o
passado. Nenhuma pessoa lúcida nega a importância da experiência
na história. Sem os fundamentos do passado não temos a competência
para construir com sabedoria o futuro. Os alicerces do amanhã estão
baseados no ontem. Precisamos do conhecimento antigo para elaborar o
novo, pois as raízes da antiguidade servem para sustentar o
desenvolvimento vindouro. O retrovisor é fundamental para o
desempenho no tráfego. Muitos desastres são resultados da falta da
visão anterior. Porém, a vida não pode andar para trás.
No
caso em foco, Jesus censura uma pessoa que estava presa ao cordão
emocional de sua linhagem. Ele queria seguir a Jesus, mas tinha um
vínculo com a família que precisava de acertos. Na vereda da fé
cristã há muitos que pensam deste modo. As tradições culturais e
o peso da opinião doméstica exercem grande pressão na decisão
pessoal. Muitos ficam amarrados ao julgamento do seu clã e sentem
dificuldades para tomar posição. São pessoas carentes que temem
perder o apoio emocional da família e buscam conciliar sua fé com a
aprovação dos mais chegados.
Porém,
esta abordagem ganha uma estimativa muito mais ampla, quando
examinamos outros lados da questão. O olhar para trás pode
representar toda tentativa de congelamento da experiência. Um grande
risco que vemos na história da igreja é o fascínio com o passado.
Temos uma tendência de perpetuar os métodos de uma época. Aquilo
que foi de grande valor num momento histórico recebe dimensões
permanentes e, com isto, a igreja se inclina para colecionar peças
de museu.
Volto
a insistir: não é possível caminhar com saúde relacional, sem
memória. O passado tem importância fundamental no progresso de
qualquer sistema, e há elementos no projeto da igreja que são
imutáveis. Faltando no horizonte do tempo a dimensão do passado,
fica muito difícil construir uma visão adequada do futuro. Contudo,
não é normal permanecer com aquilo que ficou obsoleto. A lamparina
ainda tem a sua noite de glória nos lugares onde não há energia
elétrica, mas nenhum citadino defende a sua permanência no mundo de
hoje. Andar de charrete pode ser pitoresco, mas é atraso no mundo
automotivo.
Antes
de qualquer coisa precisamos fazer uma distinção entre aquilo que é
estável e as coisas que são transitórias. Sabemos que a Palavra de
Deus é eterna e que os seus ensinamentos são duráveis. A ética da
Bíblia não muda. As leis do decálogo continuam vivas sob o comando
da graça. Ninguém pode considerar superados os princípios da moral
bíblica, uma vez que estão alicerçados na base perene do caráter
de Deus. Mas os costumes e os métodos históricos precisam ser
avaliados em cada geração. Não devemos mumificar aquilo que é
provisório. A permanência das coisas interinas representa um
desperdício de tempo e um gasto tremendo de energia.
A
mulher de Ló tornou-se uma estátua de sal ao virar-se para trás. A
igreja nostálgica perde sua função de sal da terra, quando se
agarra a uma metodologia retrógrada. A esterilidade de ambas se
manifesta com a contemplação do passado em desuso. Fixar os olhos
naquilo que pôde ser relevante noutra época, mas se tornou banal
para este tempo, se constitui na maior improdutividade na vivência
comunitária. As pessoas orientadas de forma dogmática para os
conceitos atrasados, tentando soluções antiquadas para problemas
novos, acabam se tornando desqualificadas para o seu momento
histórico. Por isso, é importante a distinção entre os fatos
eternos e as coisas efêmeras, a fim de não descartar o que é
imutável e não perpetuar aquilo que é temporário.
O
apóstolo Paulo foi um homem de vanguarda que sabia discernir entre
os eventos importantes e necessários e aqueles que serviam
momentaneamente para algum propósito. Os lances que foram admiráveis
para ele numa época, deixaram de merecer sua apreciação, quando
auferiu os melhores conceitos da graça de Deus. Irmãos,
quanto a mim,
não julgo
havê-lo alcançado;
mas uma coisa
faço: esquecendo-me
das coisas
que para trás
ficam e
avançando para
as que diante
de mim estão,
prossigo para
o alvo, para
o prêmio da
soberana vocação
de Deus em
Cristo Jesus.
Filipenses 3:13-14.
Paulo não ficou paralisado em sua experiência passada, uma vez que
sua meta tinha proporções absolutas.
Não
podemos perder de vista o alvo. A fé cristã tem mira. A falta de um
objetivo supremo desencadeia o envolvimento com as coisas
periféricas. Precisamos atirar na mosca. Quando a igreja desloca seu
olhar do centro para os detalhes, acaba se perdendo nas práticas
religiosas, sem qualquer significado eterno. A grande ameaça que
assalta constantemente o programa da igreja é a concepção de
atividades irrelevantes, que simplesmente mantém as pessoas
entretidas. Tanto o passado decrépito como o presente alucinado por
novidades, carece de análise.
A
igreja necessita de uma avaliação contínua do seu programa de
atividades sob os cuidados do modelo da cruz. Somente contemplando
Cristo crucificado podemos focalizar o passado de modo acentuadamente
significativo. Não é possível ser tolerante com as vulgaridades
religiosas, quando vemos o panorama espiritual sob o prisma do
Calvário. Também não é possível ver o futuro sem a perspectiva
da ressurreição. A igreja de Cristo tem uma escatologia de
esperança e conseqüentemente um culto com elementos de expressão
eterna. Na igreja não há lugar para os métodos espetaculosos
de passatempo religioso.
de passatempo religioso.
Os
dois problemas mais sérios que temos com o passado são:
primeiramente, a lembrança ardida de uma consciência culpada. Há
uma multidão que sofre com a dificuldade em crer no perdão
consumado. Como o predador que enterra a sua presa, comumente
retornamos ao nosso passado para cavoucar a carniça escondida. A
falta de uma visão clara do sacrifício de Cristo faz muita gente
prisioneira de uma memória delituosa. Parece que nunca podemos viver
isentos da culpa, e precisamos recordar em penitência a cena do
crime.
Creio
que a falta de revelação da obra plena de Cristo crucificado é
responsável por este retorno mórbido ao passado delinqüente. Refém
de incredulidade, o acusado inflexível regressa sempre ao seu
passado para curtir sua expiação recorrente. Ele precisa se
martirizar neste ciclo de autopunição, a fim de liberar um
sentimento crônico de clemência. Vítima de uma teologia
psicológica, onde a autocomiseração é mais acentuada do que a fé,
o pobre réu do passado atura, sob pressão, uma mentalidade de
desagravo constante. Diz uma tradição, que Pôncio Pilatos viveu os
seus últimos anos exilado numa ilha, lavando as suas mãos. Nada
pode ser mais terrível do que uma consciência encarcerada num
passado de amarguras, em conseqüência de incriminações
repetitivas.
Em
segundo lugar, o perigo do passado fica por conta da reedição dos
modelos arcaicos e irrelevantes que são eternizados nas tradições
tolas. A falta de uma visão clara da dimensão escatológica e da
evolução progressiva da igreja faz os saudosistas torcerem o
pescoço para contemplar um passado que já expirou. Muita gente
destituída da esperança da ressurreição, ainda pretende retornar
ao velho modelo judaico, que ficou completamente ultrapassado. Vemos
atualmente uma regressão acentuada no culto cristão, com a
preocupação em restaurar as formalidades festivas do judaísmo e
estabelecer uma liturgia atrelada às sombras que já foram
superadas. Ninguém, pois,
vos julgue
por causa de
comida e
bebida, ou
dia de festa,
ou lua nova,
ou sábados,
porque tudo
isso tem sido
sombra das
coisas que
haviam de
vir; porém o
corpo é de
Cristo. Colossenses
2:16-17. Depois da realidade de Cristo
crucificado e ressurreto temos que formular a nossa teologia com base
na libertação deste passado refugado, e na certeza plena da
esperança vindoura.
A
igreja cristã precisa ter uma boa memória, recordando sempre os
fundamentos essenciais de sua crença. A fé tem história, mas não
se atém construindo um memorial daquilo que foi provisório. O
padrão do evangelho é a novidade de vida numa estrutura sempre
inovadora. Um legado da reforma protestante foi que a igreja
reformada devia estar sempre se reformando à luz da esperança
escatológica.
O cristianismo não tem lugar para o velhusco e bolorento sistema já deteriorado. O Senhor Jesus foi bem categórico em sua avaliação. Ninguém costura remendo de pano novo em veste velha; porque o remendo novo tira parte da veste velha, e fica maior a rotura. Ninguém põe vinho novo em odres velhos; do contrário, o vinho romperá os odres, e tanto se perde o vinho como os odres. Mas põe-se vinho novo em odres novos. Marcos 2:21-22. A mentalidade do evangelho é nova e a estrutura da igreja tem que ser sempre renovada. Repetir os velhos chavões ou cantar os cânticos da antiga comunidade judaica é olhar para trás. É bom lembrar que a fé cristã nasceu de uma sepultura aberta na madrugada do primeiro dia da semana. Ela é viva, alegre, original e cheia de esperança, olhando firmemente para o alvo, Cristo, seu autor e consumador.
O cristianismo não tem lugar para o velhusco e bolorento sistema já deteriorado. O Senhor Jesus foi bem categórico em sua avaliação. Ninguém costura remendo de pano novo em veste velha; porque o remendo novo tira parte da veste velha, e fica maior a rotura. Ninguém põe vinho novo em odres velhos; do contrário, o vinho romperá os odres, e tanto se perde o vinho como os odres. Mas põe-se vinho novo em odres novos. Marcos 2:21-22. A mentalidade do evangelho é nova e a estrutura da igreja tem que ser sempre renovada. Repetir os velhos chavões ou cantar os cânticos da antiga comunidade judaica é olhar para trás. É bom lembrar que a fé cristã nasceu de uma sepultura aberta na madrugada do primeiro dia da semana. Ela é viva, alegre, original e cheia de esperança, olhando firmemente para o alvo, Cristo, seu autor e consumador.
Nenhum comentário:
Postar um comentário