O
MODELO
DA
DESAMBIÇÃO
Por: Glenio Fonseca Paranaguá
Por: Glenio Fonseca Paranaguá
Tende
em
vós
o
mesmo
sentimento
que
houve
também
em
Cristo
Jesus.
Filipenses
2:5.
O
ser humano é um alpinista por natureza. Ainda que muitos não se
atrevam galgar o cume do Himalaia por medo de altura, a raça de Adão
gosta muito de plataforma para se exibir. Se não conseguimos subir
ao topo de uma grande montanha para ostentar nossa atuação, até um
tamborete pode ser um desafio para as nossas escaladas de
notoriedade. Somos uma espécie contagiada pelo sentimento de
elevação e reconhecimento.
Paulo
percebendo por inspiraçãodo Espírito Santo a tendência inata de
celebridade que contamina a nossa alma, investiu pesado no imperativo
que nos identifica com o desapego demonstrado por Cristo. Tende em
vós a mesma (vqÁmgla - frónema)
mentalidade que Cristo encarnava. Era uma maneira de pensar contrária
ao sentimento de ascensão desencadeado no Éden, e que se
caracterizava pelo desprendimento.
O
apóstolo toca na questão central da coesão na Trindade e o ponto
nevrálgico da unidade na igreja. O Deus trino vive em plena harmonia
porque cada uma das pessoas da Trindade procura promover a excelência
do outro. Não existe no Conselho Divino uma disputa de poder, nem um
jogo de interesses pessoais. O pensamento de Cristo aqui, por
exemplo, é se esvaziar de sua posição gloriosa para que o
propósito do Pai em relação ao ser humano rebelado pelo pecado
seja alcançado.
Desapear
de um pedestal de honra é coisa tremendamente difícil para gente
apoucada, mas deve ser um sacrifício muito maior para o Criador do
Cosmo ter que viver como uma criatura dependente de seres humanos
arrogantes. O desapego de Cristo é um padrão bem arriscado para as
nossas pretensões de superstar. Ter a mesma disposição
mental e a mesma renúncia que houve em Cristo é complicado para uma
turma que tem aspirações ao topo da hierarquia. O holofote nos
atores sombreia a glória do Cordeiro.
A
fé cristã é a expressão do esvaziamento de Deus para salvar o ser
humano de sua presunção de ser deus. Cristo se esvaziou de suas
prerrogativas celestiais, sem, contudo, perder a sua natureza divina,
para poder nos libertar de nossa tendência ao pódio. Ele desceu os
degraus do altar supremo para nos alcançar ao rés-do-chão com a
bacia e a toalha, a fim de limpar os nossos pés da menor poeira que
nos projete à grandeza. A medida de Cristo é: quem quiser
ser o primeiro entre
vós será vosso servo;
Mateus 20:27.
O
sentimento que Paulo propõe para os crentes é também de
esvaziamento, sob o padrão do procedimento de Cristo, pois
ele, subsistindo em forma
de Deus, não julgou
como usurpação o ser
igual a Deus; Filipenses
2:6. Cristo não se agarrou aos direitos que tinha como
Deus, mas desceu do degrau de ser Supremo para se tornar uma
criatura.
Cristo
saltou do patamar de Deus para o estrado de servo. Este foi um pulo
de redução inimaginável, pois o absoluto na dimensão de servo não
pode ser concebido por uma mente finita e soberba. Mas foi exatamente
isso o que aconteceu quando antes, a si
mesmo se esvaziou,
assumindo a forma de
servo, tornando-se em
semelhança de homens; e,
reconhecido em figura
humana. Filipenses 2:7.
O
Senhor do Universo agora se tornou um servo das suas crias. O Criador
na estatura da criatura é uma aberração para a nossa empáfia, mas
esse é o calibre que ele sugere para nós. Pois qual
é maior: quem está
à mesa ou quem
serve? Porventura, não é
quem está à mesa?
Pois, no meio de
vós, eu sou como
quem serve. Lucas 22:27.
De
Deus para servo e de servo para homem. Cristo desceu um pouco mais
quando saiu da condição de uma criatura espiritual, como os anjos,
e penetrou no terreno da encarnação humana. A diminuição do
Criador aos limites da criação já é um absurdo para nossa mente
entender, todavia é maior contra-senso ainda admitir o Deus absoluto
sendo humanizado. O Soberano Deus cheirando a suor é algo que choca
a nossa compreensão.
Porém,
o assunto tem proporções ainda mais desconcertantes quando este
Deus humano resolve se submeter à morte. O Criador do Universo e
Autor da Vida ficando refém da morte é algo impossível para a
nossa reflexão. Mas a questão não chegou ao fim, pois a morte em
que ele foi vítima é a mais vil que se pode conceber, e foi ele
quem a si mesmo se
humilhou, tornando-se obediente
até à morte e
morte de cruz. Filipenses
2:8.
Esta
história do Deus que é Senhor; do Senhor que se torna servo; do
servo que se encarna sem deixar de ser Senhor; do Senhor servo
encarnado que assume a morte mais degradante que existe para libertar
a criatura do sentimento de arrogância, é algo extraordinário que
ultrapassa os limites de nossa razão e que nos deixa sem explicação
para um gesto tão grandioso de amor incondicional. E é este o único
modelo que Paulo pretende que os santos tenham para o desempenho da
missão cristã neste mundo. Tenha em vocês o mesmo desprendimento
que houve também em Cristo Jesus. Só existe uma alternativa para o
discipulado: humilhação. Veja como Jesus agiu sem levar em conta
uma passarela para se exibir perante a mídia.
Primeiro
Cristo não se garantiu no sindicato divino apelando para os seus
direitos vitalícios de Deus. Ele abriu mão das regalias sublimes da
glória para assumir o propósito do Pai em salvar gente indigesta
dominada pelo sentimento de amor-próprio e vanglória. Depois ele se
esvaziou em degraus até chegar ao plano mais baixo que um ser
pessoal pode chegar. O cadáver do Deus-Homem é a maior humilhação
da divindade.
Este
é o cálice que o apóstolo propôs para brindar a unidade do corpo.
Se fizermos parte da igreja de Cristo nossa marcha será definida
pelos efeitos da cruz. Como disse John Flavel, nenhum homem
tem uma cruz de
veludo. A teologia da crucificação precisa passar pela
crucificação da teologia. Saber falar da obra da cruz não é a
mesma coisa que viver como um crucificado. A vida no corpo de Cristo
não é uma vida autônoma. Ao analisarmos o argumento bíblico
percebemos que a Trindade se relaciona sob os efeitos de uma missão
com submissão em comissão de comodato. Cada um aplica suas riquezas
afetivas no outro, de tal modo que o prazer de um é tornar o outro
realizado. Este molde é assinalado pela abdicação de si mesmo e
pela glória do outro. Veja como Jesus apresenta a sua proposta.
Porque eu desci do
céu, não para fazer
a minha própria vontade,
e sim a vontade
daquele que me enviou.
João 6:38.
A
igreja tem o mesmo modelo demonstrado no Conselho do Altíssimo. Por
isso Paulo enfoca o estilo operante do viver cristão com esta versão
de genuína abnegação: Não tenha cada
um em vista o
que é propriamente seu,
senão também cada qual
o que é dos
outros. Filipenses 2:4. O que
está em jogo é o aperfeiçoamento do corpo de Cristo.
Entretanto,
para alcançarmos este status de conduta precisamos passar pelas
implicações radicais da cruz. Embora, muitos de nós tenhamos um
verniz teológico bem nítido da obra vicária do Cordeiro,
faltam-nos os efeitos da morte de Cristo na vida cotidiana. Uma coisa
é o discurso que sustenta a nossa morte com Cristo, outra, bem
diferente é o curso da vida, levando sempre
no corpo o morrer
de Jesus, para que
também a sua vida
se manifeste em nosso
corpo. 2 Coríntios 4:10.
Os
atos visíveis são movidos quase sempre por atitudes invisíveis.
Dar um pão ao faminto é um gesto generoso que pode estar sendo
patrocinado por sentimentos interesseiros e necessidade de vanglória.
Um desempenho elevado pode ter um motivo vil. Mas ninguém do lado de
fora pode julgar criteriosamente os motivos. Precisamos da ação do
Espírito Santo e da operação da cruz em nosso íntimo.
Ananias
e Safira estavam participando da contribuição na igreja em
Jerusalém com distorção interior. Ainda que eles não
demonstrassem defeito de conduta, havia embuste na intenção que só
o Espírito Santo poderia detectar. O fato de alguém parecer bem
intencionado não significa que ele esteja sinceramente participando
do reino de Deus.
A
humilhação é um caminho muito doloroso para desmanchar todas as
impressões de nosso ser. Muitas vezes nós estamos francamente
enganados com os nossos sentimentos e precisamos de uma operação da
graça para nos fazer desestimar de nós mesmos. Uma das áreas mais
golpistas na vida cristã é o orgulho espiritual. Disse-lhe
Pedro: Ainda que venhas
a ser um tropeço
para todos, nunca o
serás para mim. Mateus
26:33.
A
sobranceria travestida de humildade é uma das camuflagens mais
difíceis de serem desmascaradas. A arrogância espiritual muitas
vezes vem vestida em andrajo. Uma aparência modesta pode esconder um
déspota. Há muito serviço que serve apenas para negociar os
escravos, por isso precisamos da operação cotidiana da cruz em
nossas vidas. A marca do verdadeiro discípulo é a manifestação da
vida de Cristo no seu íntimo, depois do tratamento da cruz. Porque
eu, mediante a própria
lei, morri para a
lei, a fim de
viver para Deus. Estou
crucificado com Cristo;
logo, já não sou
eu quem vive, mas
Cristo vive em mim;
e esse viver que,
agora, tenho na carne,
vivo pela fé no
Filho de Deus, que
me amou e a
si mesmo se entregou
por mim. Gálatas 2:19-20.
A
unidade do corpo de Cristo é um efeito da cruz. Sem a morte do velho
homem juntamente com Cristo bem como levar diariamente o morrer de
Cristo em nosso corpo não é possível promover a integração dos
membros na verdadeira unidade. É imperioso desconstruir pela obra da
cruz toda e qualquer ambição pelo poder e pela glória pessoal. No
Reino de Deus não pode haver lugar de destaque para nenhum discípulo
de Cristo.
Aquele
que atua no seio da igreja de Cristo percebe que nada é banal,
vulgar ou insignificante quando tudo é feito para a glória de Deus
e a edificação do corpo de Cristo, que é a igreja. Nenhuma ambição
deve nos estimular neste mundo, senão aquela que glorifica o
Cordeiro e edifica as ovelhas do aprisco do Senhor, com singeleza de
coração. Por esse motivo, o mesmo sentimento de esvaziamento que
Cristo apresentava e a mesma humilhação que ele provava precisam
ser experimentados na vida dos seus verdadeiros discípulos como
expressão legítima da sua identificação com Cristo. Sem os sinais
da cruz na experiência diária do cristão não haverá garantia da
realidade espiritual e verdadeira integração de todos os membros do
corpo. Ó Pai! Esvazia-nos de nós mesmos.
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