quarta-feira, 1 de agosto de 2012

O MODELO DA DESAMBIÇÃO


O MODELO DA DESAMBIÇÃO
Por:
Glenio Fonseca Paranaguá
Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus. Filipenses 2:5.
O ser humano é um alpinista por natureza. Ainda que muitos não se atrevam galgar o cume do Himalaia por medo de altura, a raça de Adão gosta muito de plataforma para se exibir. Se não conseguimos subir ao topo de uma grande montanha para ostentar nossa atuação, até um tamborete pode ser um desafio para as nossas escaladas de notoriedade. Somos uma espécie contagiada pelo sentimento de elevação e reconhecimento.
Paulo percebendo por inspiraçãodo Espírito Santo a tendência inata de celebridade que contamina a nossa alma, investiu pesado no imperativo que nos identifica com o desapego demonstrado por Cristo. Tende em vós a mesma (vqÁmgla - frónema) mentalidade que Cristo encarnava. Era uma maneira de pensar contrária ao sentimento de ascensão desencadeado no Éden, e que se caracterizava pelo desprendimento.
O apóstolo toca na questão central da coesão na Trindade e o ponto nevrálgico da unidade na igreja. O Deus trino vive em plena harmonia porque cada uma das pessoas da Trindade procura promover a excelência do outro. Não existe no Conselho Divino uma disputa de poder, nem um jogo de interesses pessoais. O pensamento de Cristo aqui, por exemplo, é se esvaziar de sua posição gloriosa para que o propósito do Pai em relação ao ser humano rebelado pelo pecado seja alcançado.
Desapear de um pedestal de honra é coisa tremendamente difícil para gente apoucada, mas deve ser um sacrifício muito maior para o Criador do Cosmo ter que viver como uma criatura dependente de seres humanos arrogantes. O desapego de Cristo é um padrão bem arriscado para as nossas pretensões de superstar. Ter a mesma disposição mental e a mesma renúncia que houve em Cristo é complicado para uma turma que tem aspirações ao topo da hierarquia. O holofote nos atores sombreia a glória do Cordeiro.
A fé cristã é a expressão do esvaziamento de Deus para salvar o ser humano de sua presunção de ser deus. Cristo se esvaziou de suas prerrogativas celestiais, sem, contudo, perder a sua natureza divina, para poder nos libertar de nossa tendência ao pódio. Ele desceu os degraus do altar supremo para nos alcançar ao rés-do-chão com a bacia e a toalha, a fim de limpar os nossos pés da menor poeira que nos projete à grandeza. A medida de Cristo é: quem quiser ser o primeiro entre vós será vosso servo; Mateus 20:27.
O sentimento que Paulo propõe para os crentes é também de esvaziamento, sob o padrão do procedimento de Cristo, pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; Filipenses 2:6. Cristo não se agarrou aos direitos que tinha como Deus, mas desceu do degrau de ser Supremo para se tornar uma criatura.
Cristo saltou do patamar de Deus para o estrado de servo. Este foi um pulo de redução inimaginável, pois o absoluto na dimensão de servo não pode ser concebido por uma mente finita e soberba. Mas foi exatamente isso o que aconteceu quando antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana. Filipenses 2:7.
O Senhor do Universo agora se tornou um servo das suas crias. O Criador na estatura da criatura é uma aberração para a nossa empáfia, mas esse é o calibre que ele sugere para nós. Pois qual é maior: quem está à mesa ou quem serve? Porventura, não é quem está à mesa? Pois, no meio de vós, eu sou como quem serve. Lucas 22:27.
De Deus para servo e de servo para homem. Cristo desceu um pouco mais quando saiu da condição de uma criatura espiritual, como os anjos, e penetrou no terreno da encarnação humana. A diminuição do Criador aos limites da criação já é um absurdo para nossa mente entender, todavia é maior contra-senso ainda admitir o Deus absoluto sendo humanizado. O Soberano Deus cheirando a suor é algo que choca a nossa compreensão.
Porém, o assunto tem proporções ainda mais desconcertantes quando este Deus humano resolve se submeter à morte. O Criador do Universo e Autor da Vida ficando refém da morte é algo impossível para a nossa reflexão. Mas a questão não chegou ao fim, pois a morte em que ele foi vítima é a mais vil que se pode conceber, e foi ele quem a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz. Filipenses 2:8.
Esta história do Deus que é Senhor; do Senhor que se torna servo; do servo que se encarna sem deixar de ser Senhor; do Senhor servo encarnado que assume a morte mais degradante que existe para libertar a criatura do sentimento de arrogância, é algo extraordinário que ultrapassa os limites de nossa razão e que nos deixa sem explicação para um gesto tão grandioso de amor incondicional. E é este o único modelo que Paulo pretende que os santos tenham para o desempenho da missão cristã neste mundo. Tenha em vocês o mesmo desprendimento que houve também em Cristo Jesus. Só existe uma alternativa para o discipulado: humilhação. Veja como Jesus agiu sem levar em conta uma passarela para se exibir perante a mídia.
Primeiro Cristo não se garantiu no sindicato divino apelando para os seus direitos vitalícios de Deus. Ele abriu mão das regalias sublimes da glória para assumir o propósito do Pai em salvar gente indigesta dominada pelo sentimento de amor-próprio e vanglória. Depois ele se esvaziou em degraus até chegar ao plano mais baixo que um ser pessoal pode chegar. O cadáver do Deus-Homem é a maior humilhação da divindade.
Este é o cálice que o apóstolo propôs para brindar a unidade do corpo. Se fizermos parte da igreja de Cristo nossa marcha será definida pelos efeitos da cruz. Como disse John Flavel, nenhum homem tem uma cruz de veludo. A teologia da crucificação precisa passar pela crucificação da teologia. Saber falar da obra da cruz não é a mesma coisa que viver como um crucificado. A vida no corpo de Cristo não é uma vida autônoma. Ao analisarmos o argumento bíblico percebemos que a Trindade se relaciona sob os efeitos de uma missão com submissão em comissão de comodato. Cada um aplica suas riquezas afetivas no outro, de tal modo que o prazer de um é tornar o outro realizado. Este molde é assinalado pela abdicação de si mesmo e pela glória do outro. Veja como Jesus apresenta a sua proposta. Porque eu desci do céu, não para fazer a minha própria vontade, e sim a vontade daquele que me enviou. João 6:38.
A igreja tem o mesmo modelo demonstrado no Conselho do Altíssimo. Por isso Paulo enfoca o estilo operante do viver cristão com esta versão de genuína abnegação: Não tenha cada um em vista o que é propriamente seu, senão também cada qual o que é dos outros. Filipenses 2:4. O que está em jogo é o aperfeiçoamento do corpo de Cristo.
Entretanto, para alcançarmos este status de conduta precisamos passar pelas implicações radicais da cruz. Embora, muitos de nós tenhamos um verniz teológico bem nítido da obra vicária do Cordeiro, faltam-nos os efeitos da morte de Cristo na vida cotidiana. Uma coisa é o discurso que sustenta a nossa morte com Cristo, outra, bem diferente é o curso da vida, levando sempre no corpo o morrer de Jesus, para que também a sua vida se manifeste em nosso corpo. 2 Coríntios 4:10.
Os atos visíveis são movidos quase sempre por atitudes invisíveis. Dar um pão ao faminto é um gesto generoso que pode estar sendo patrocinado por sentimentos interesseiros e necessidade de vanglória. Um desempenho elevado pode ter um motivo vil. Mas ninguém do lado de fora pode julgar criteriosamente os motivos. Precisamos da ação do Espírito Santo e da operação da cruz em nosso íntimo.
Ananias e Safira estavam participando da contribuição na igreja em Jerusalém com distorção interior. Ainda que eles não demonstrassem defeito de conduta, havia embuste na intenção que só o Espírito Santo poderia detectar. O fato de alguém parecer bem intencionado não significa que ele esteja sinceramente participando do reino de Deus.
A humilhação é um caminho muito doloroso para desmanchar todas as impressões de nosso ser. Muitas vezes nós estamos francamente enganados com os nossos sentimentos e precisamos de uma operação da graça para nos fazer desestimar de nós mesmos. Uma das áreas mais golpistas na vida cristã é o orgulho espiritual. Disse-lhe Pedro: Ainda que venhas a ser um tropeço para todos, nunca o serás para mim. Mateus 26:33.
A sobranceria travestida de humildade é uma das camuflagens mais difíceis de serem desmascaradas. A arrogância espiritual muitas vezes vem vestida em andrajo. Uma aparência modesta pode esconder um déspota. Há muito serviço que serve apenas para negociar os escravos, por isso precisamos da operação cotidiana da cruz em nossas vidas. A marca do verdadeiro discípulo é a manifestação da vida de Cristo no seu íntimo, depois do tratamento da cruz. Porque eu, mediante a própria lei, morri para a lei, a fim de viver para Deus. Estou crucificado com Cristo; logo, não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim. Gálatas 2:19-20.
A unidade do corpo de Cristo é um efeito da cruz. Sem a morte do velho homem juntamente com Cristo bem como levar diariamente o morrer de Cristo em nosso corpo não é possível promover a integração dos membros na verdadeira unidade. É imperioso desconstruir pela obra da cruz toda e qualquer ambição pelo poder e pela glória pessoal. No Reino de Deus não pode haver lugar de destaque para nenhum discípulo de Cristo.
Aquele que atua no seio da igreja de Cristo percebe que nada é banal, vulgar ou insignificante quando tudo é feito para a glória de Deus e a edificação do corpo de Cristo, que é a igreja. Nenhuma ambição deve nos estimular neste mundo, senão aquela que glorifica o Cordeiro e edifica as ovelhas do aprisco do Senhor, com singeleza de coração. Por esse motivo, o mesmo sentimento de esvaziamento que Cristo apresentava e a mesma humilhação que ele provava precisam ser experimentados na vida dos seus verdadeiros discípulos como expressão legítima da sua identificação com Cristo. Sem os sinais da cruz na experiência diária do cristão não haverá garantia da realidade espiritual e verdadeira integração de todos os membros do corpo. Ó Pai! Esvazia-nos de nós mesmos.

Nenhum comentário:

Postar um comentário