quarta-feira, 1 de agosto de 2012

A CRUZ NA HISTÓRIA


A CRUZ NA HISTÓRIA
Por:
Glenio Fonseca Paranaguá
Olhando firmemente para o Autor e Consumador da fé, Jesus, o qual, em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia, e está assentado à destra do trono de Deus. Hebreus 12:2.
Já vimos em outro estudo que a cruz foi um projeto pré-histórico. Ela antecede a criação do mundo. Segundo a Bíblia, o Cordeiro de Deus foi morto antes da fundação do mundo. Deus não teve que remediar uma situação criando uma saída honrosa. Não há qualquer idéia emergencial em todo o programa da cruz. Ela foi pensada e projetada como solução do pecado, muito antes que houvesse pecado. Deus não é o autor do pecado, mas, dentro de sua presciência, Ele já previu o escape, bem antes do acidente. Deus não criou o homem para pecar, nem é o agente do pecado. Mas o pecado era uma possibilidade da criação. Então, por que Deus criou o homem com esta probabilidade? Não haveria outra alternativa da criação do homem, sem o risco do pecado? Certamente, não. Se houvesse qualquer outra opção, Deus a teria usado. Deus criou o homem reto e bom, mas não absoluto. O homem era perfeito como homem, contudo não era absoluto. Criando um ser finito, com vontade, abriria uma porta para ele querer ser infinito. A livre vontade é o campo de uma escolha preferencial. Só os seres volitivos podem decidir moralmente. Deus não criou o homem como Deus. Ele o criou como homem com a capacidade de escolher, de decidir. Somente uma criatura robótica estaria fora da possibilidade do pecado. Qualquer ser moral com um livre arbítrio estaria sujeito ao pecado. E foi esta vontade quem optou pela possibilidade impossível de ser Deus. Era possível o homem querer ser Deus, mas era impossível que ele se tornasse Deus. Foi aqui, neste terreno, que o pecado tomou forma. A serpente penetrou na área da livre decisão do homem e salientou nele o desejo de ser como Deus. A Bíblia afirma: Ninguém, ao ser tentado, diga: Sou tentado por Deus; porque Deus não pode ser tentado pelo mal e Ele mesmo a ninguém tenta. Ao contrário, cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz. Então, a cobiça, depois de haver concebido, à luz o pecado; e o pecado, uma vez consumado, gera a morte. Tiago 1:13-15. A cobiça é um desejo intenso. E nesse desejo está a matriz do pecado. O pecado é fruto de uma decisão fomentada pela cobiça de ser como Deus.

A cruz foi uma solução pré-histórica para uma decisão da história. Ela é uma solução divina, concebida no céu, para um problema humano, decidido na terra. A cruz é o escape de Deus, para a fuga do homem. Ela foi planejada antes dos tempos, para resolver a tragédia do pecado, para todos, em todos os tempos. Logo que o pecado invadiu a história do gênero humano, a cruz iniciou o seu papel na história. Vemos claramente os efeitos da cruz nos primeiros movimentos de Deus para salvar o homem da vergonha do pecado. Os nossos pais, logo depois do pecado, coseram folhas de figueira e fizeram aventais, na tentativa de cobrirem sua nudez. Esta é a alternativa religiosa fabricada pelo homem. Mas o Evangelho vem logo em seguida, com a providência divina. Fez o Senhor Deus vestimenta de peles para Adão e sua mulher e os vestiu. Gênesis 3:21. A cobertura de peles evidencia a morte de uma vítima. O sangue derramado aponta para o Cordeiro de Deus imolado antes da fundação do mundo. O preço do pecado é a morte. O pecado gera a morte e só a morte de um substituto santo e sem defeito é capaz de cobrir o preço e a vergonha do pecado. Parece claro que as vítimas do Éden falam do Cordeiro que havia de vir para derramar o seu sangue na cruz em favor dos pecadores indignos. Com efeito, quase todas as coisas, segundo a lei, se purificam com sangue; e, sem derramamento de sangue, não remissão. Hebreus 9:22. Adão e Eva foram cobertos com a vida dos animais substitutos e o seu sangue ficou como o pagamento pelo pecado. Desde então as ofertas de justificação tinham de passar por meio de uma vítima. Abel foi aceito não pelos seus méritos, mas pela oferta de sangue que ofereceu, representando o Cordeiro que havia de vir. Caim foi rejeitado pela religião do seu esforço. Ele trouxe uma oferta sem as marcas da cruz. Todo ofertante deveria seguir o modelo de Deus, apontado no sacrifício do Éden. Não há justificativa para a justificação que não evidencia o significado da cruz. Sem o derramamento do sangue da vítima substituta não há perdão de pecado. Porque a vida da carne está no sangue. Eu vo-lo tenho dado sobre o altar, para fazer expiação pela vossa alma, porquanto é o sangue que fará expiação em virtude da vida. Levítico 17:11. A imolação do cordeiro sempre apontava para a crucificação de Cristo, o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. João 1:29.

Logo que o homem pecou, Deus proclamou o Evangelho na intercessão com a serpente. Ele mostrou que uma inimizade radical ficou estabelecida entre a serpente e a mulher. Entre a descendência da serpente e o descendente da mulher. E que, esta diferença profunda acabaria no esmagamento da cabeça da serpente depois dos ferimentos do calcanhar do descendente da mulher. O texto de Gênesis 3:15, chamado de proto-evangelho ou a mensagem inicial do Evangelho, fala do conflito entre Satanás e a raça humana, contaminada pelo pecado, e Jesus Cristo, a semente da mulher, o Deus encarnado, que veio para a história a fim de realizar a obra salvadora, projetada antes da fundação do mundo. O confronto da cruz já estava configurado neste quadro. O Jesus da história é a encarnação do Cristo eterno que assume, nesta condição, o projeto divino da salvação por meio da cruz. Pois Ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz. Filipenses 2:6-8. Cristo se encarnou para realizar uma eterna salvação que envolvia a sua morte como o Cordeiro de Deus. Ele veio direto do céu para o madeiro do Calvário. Ele veio do trono da glória para o tronco da morte. Ele se tornou um ser da história para fazer da cruz a história da salvação. Por isso, o escritor de Hebreus manda que olhemos firmemente para o Autor e Consumador da nossa fé, que suportou a cruz em troca da alegria que lhe estava proposta. O saldo da cruz é uma alegria soberana. Deus investiu tudo nas seis horas mais dramáticas na vida de seu Filho, e Cristo suportou todo o peso moral da cruz, porque tinha em vista um troco compensador: a alegria da salvação. Valia a pena Ele passar por todo o vexame e vergonha da cruz, pois o resultado de tudo isso era a alegria indizível do céu por um pecador que se arrepende. Do mesmo modo como o povo de Israel no deserto deveria olhar para a serpente de bronze pendurada na haste, depois de ser picado pelas serpentes abrasadoras, para ser curado, nós, também, devemos mirar o Cristo crucificado a fim de sermos salvos.

O projeto pré-histórico da cruz, quando Deus assumia a responsabilidade da salvação do homem, muito antes da queda, agora se torna realidade na obra singular de Cristo crucificado. Ele estava sobre o madeiro substituindo o pecador e assumindo a responsabilidade direta por todos os seus pecados. A cruz na história do homem fala do amor de Deus em avocar para si todos os encargos da salvação do pecador. Tudo o que diz respeito à penalidade e condenação do pecador foi plenamente satisfeito em Cristo na cruz. Não há mais recursos ou instâncias para apelação. Deus ficou satisfeito com a obra completa de Cristo na cruz. Nada mais precisa ser feito, pois Cristo consumou toda a tarefa da salvação. Cabe a nós olhar fixamente para o Autor e Consumador da fé, crendo que tudo o que concerne à nossa justificação foi plenamente cumprido em Cristo Jesus. Olhai para mim e sede salvos, vós, todos os termos da terra; porque Eu sou Deus, e não outro. Isaías 45:22

O PERIGO DO PASSADO


O PERIGO DO PASSADO
Por: Glenio Fonseca Paranaguá

A experiência tem história, mas não podemos viver voltados para o passado. Nenhuma pessoa lúcida nega a importância da experiência na história. Sem os fundamentos do passado não temos a competência para construir com sabedoria o futuro. Os alicerces do amanhã estão baseados no ontem. Precisamos do conhecimento antigo para elaborar o novo, pois as raízes da antiguidade servem para sustentar o desenvolvimento vindouro. O retrovisor é fundamental para o desempenho no tráfego. Muitos desastres são resultados da falta da visão anterior. Porém, a vida não pode andar para trás.
No caso em foco, Jesus censura uma pessoa que estava presa ao cordão emocional de sua linhagem. Ele queria seguir a Jesus, mas tinha um vínculo com a família que precisava de acertos. Na vereda da fé cristã há muitos que pensam deste modo. As tradições culturais e o peso da opinião doméstica exercem grande pressão na decisão pessoal. Muitos ficam amarrados ao julgamento do seu clã e sentem dificuldades para tomar posição. São pessoas carentes que temem perder o apoio emocional da família e buscam conciliar sua fé com a aprovação dos mais chegados.
Porém, esta abordagem ganha uma estimativa muito mais ampla, quando examinamos outros lados da questão. O olhar para trás pode representar toda tentativa de congelamento da experiência. Um grande risco que vemos na história da igreja é o fascínio com o passado. Temos uma tendência de perpetuar os métodos de uma época. Aquilo que foi de grande valor num momento histórico recebe dimensões permanentes e, com isto, a igreja se inclina para colecionar peças de museu.
Volto a insistir: não é possível caminhar com saúde relacional, sem memória. O passado tem importância fundamental no progresso de qualquer sistema, e há elementos no projeto da igreja que são imutáveis. Faltando no horizonte do tempo a dimensão do passado, fica muito difícil construir uma visão adequada do futuro. Contudo, não é normal permanecer com aquilo que ficou obsoleto. A lamparina ainda tem a sua noite de glória nos lugares onde não há energia elétrica, mas nenhum citadino defende a sua permanência no mundo de hoje. Andar de charrete pode ser pitoresco, mas é atraso no mundo automotivo.
Antes de qualquer coisa precisamos fazer uma distinção entre aquilo que é estável e as coisas que são transitórias. Sabemos que a Palavra de Deus é eterna e que os seus ensinamentos são duráveis. A ética da Bíblia não muda. As leis do decálogo continuam vivas sob o comando da graça. Ninguém pode considerar superados os princípios da moral bíblica, uma vez que estão alicerçados na base perene do caráter de Deus. Mas os costumes e os métodos históricos precisam ser avaliados em cada geração. Não devemos mumificar aquilo que é provisório. A permanência das coisas interinas representa um desperdício de tempo e um gasto tremendo de energia.
A mulher de Ló tornou-se uma estátua de sal ao virar-se para trás. A igreja nostálgica perde sua função de sal da terra, quando se agarra a uma metodologia retrógrada. A esterilidade de ambas se manifesta com a contemplação do passado em desuso. Fixar os olhos naquilo que pôde ser relevante noutra época, mas se tornou banal para este tempo, se constitui na maior improdutividade na vivência comunitária. As pessoas orientadas de forma dogmática para os conceitos atrasados, tentando soluções antiquadas para problemas novos, acabam se tornando desqualificadas para o seu momento histórico. Por isso, é importante a distinção entre os fatos eternos e as coisas efêmeras, a fim de não descartar o que é imutável e não perpetuar aquilo que é temporário.
O apóstolo Paulo foi um homem de vanguarda que sabia discernir entre os eventos importantes e necessários e aqueles que serviam momentaneamente para algum propósito. Os lances que foram admiráveis para ele numa época, deixaram de merecer sua apreciação, quando auferiu os melhores conceitos da graça de Deus. Irmãos, quanto a mim, não julgo havê-lo alcançado; mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que para trás ficam e avançando para as que diante de mim estão, prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus. Filipenses 3:13-14. Paulo não ficou paralisado em sua experiência passada, uma vez que sua meta tinha proporções absolutas.
Não podemos perder de vista o alvo. A fé cristã tem mira. A falta de um objetivo supremo desencadeia o envolvimento com as coisas periféricas. Precisamos atirar na mosca. Quando a igreja desloca seu olhar do centro para os detalhes, acaba se perdendo nas práticas religiosas, sem qualquer significado eterno. A grande ameaça que assalta constantemente o programa da igreja é a concepção de atividades irrelevantes, que simplesmente mantém as pessoas entretidas. Tanto o passado decrépito como o presente alucinado por novidades, carece de análise.
A igreja necessita de uma avaliação contínua do seu programa de atividades sob os cuidados do modelo da cruz. Somente contemplando Cristo crucificado podemos focalizar o passado de modo acentuadamente significativo. Não é possível ser tolerante com as vulgaridades religiosas, quando vemos o panorama espiritual sob o prisma do Calvário. Também não é possível ver o futuro sem a perspectiva da ressurreição. A igreja de Cristo tem uma escatologia de esperança e conseqüentemente um culto com elementos de expressão eterna. Na igreja não há lugar para os métodos espetaculosos
de passatempo religioso.
Os dois problemas mais sérios que temos com o passado são: primeiramente, a lembrança ardida de uma consciência culpada. Há uma multidão que sofre com a dificuldade em crer no perdão consumado. Como o predador que enterra a sua presa, comumente retornamos ao nosso passado para cavoucar a carniça escondida. A falta de uma visão clara do sacrifício de Cristo faz muita gente prisioneira de uma memória delituosa. Parece que nunca podemos viver isentos da culpa, e precisamos recordar em penitência a cena do crime.
Creio que a falta de revelação da obra plena de Cristo crucificado é responsável por este retorno mórbido ao passado delinqüente. Refém de incredulidade, o acusado inflexível regressa sempre ao seu passado para curtir sua expiação recorrente. Ele precisa se martirizar neste ciclo de autopunição, a fim de liberar um sentimento crônico de clemência. Vítima de uma teologia psicológica, onde a autocomiseração é mais acentuada do que a fé, o pobre réu do passado atura, sob pressão, uma mentalidade de desagravo constante. Diz uma tradição, que Pôncio Pilatos viveu os seus últimos anos exilado numa ilha, lavando as suas mãos. Nada pode ser mais terrível do que uma consciência encarcerada num passado de amarguras, em conseqüência de incriminações repetitivas.
Em segundo lugar, o perigo do passado fica por conta da reedição dos modelos arcaicos e irrelevantes que são eternizados nas tradições tolas. A falta de uma visão clara da dimensão escatológica e da evolução progressiva da igreja faz os saudosistas torcerem o pescoço para contemplar um passado que já expirou. Muita gente destituída da esperança da ressurreição, ainda pretende retornar ao velho modelo judaico, que ficou completamente ultrapassado. Vemos atualmente uma regressão acentuada no culto cristão, com a preocupação em restaurar as formalidades festivas do judaísmo e estabelecer uma liturgia atrelada às sombras que já foram superadas. Ninguém, pois, vos julgue por causa de comida e bebida, ou dia de festa, ou lua nova, ou sábados, porque tudo isso tem sido sombra das coisas que haviam de vir; porém o corpo é de Cristo. Colossenses 2:16-17. Depois da realidade de Cristo crucificado e ressurreto temos que formular a nossa teologia com base na libertação deste passado refugado, e na certeza plena da esperança vindoura.
A igreja cristã precisa ter uma boa memória, recordando sempre os fundamentos essenciais de sua crença. A fé tem história, mas não se atém construindo um memorial daquilo que foi provisório. O padrão do evangelho é a novidade de vida numa estrutura sempre inovadora. Um legado da reforma protestante foi que a igreja reformada devia estar sempre se reformando à luz da esperança escatológica.

O cristianismo não tem lugar para o velhusco e bolorento sistema já deteriorado. O Senhor Jesus foi bem categórico em sua avaliação. Ninguém costura remendo de pano novo em veste velha; porque o remendo novo tira parte da veste velha, e fica maior a rotura. Ninguém põe vinho novo em odres velhos; do contrário, o vinho romperá os odres, e tanto se perde o vinho como os odres. Mas põe-se vinho novo em odres novos. Marcos 2:21-22. A mentalidade do evangelho é nova e a estrutura da igreja tem que ser sempre renovada. Repetir os velhos chavões ou cantar os cânticos da antiga comunidade judaica é olhar para trás. É bom lembrar que a fé cristã nasceu de uma sepultura aberta na madrugada do primeiro dia da semana. Ela é viva, alegre, original e cheia de esperança, olhando firmemente para o alvo, Cristo, seu autor e consumador.

O MODELO DA DESAMBIÇÃO


O MODELO DA DESAMBIÇÃO
Por:
Glenio Fonseca Paranaguá
Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus. Filipenses 2:5.
O ser humano é um alpinista por natureza. Ainda que muitos não se atrevam galgar o cume do Himalaia por medo de altura, a raça de Adão gosta muito de plataforma para se exibir. Se não conseguimos subir ao topo de uma grande montanha para ostentar nossa atuação, até um tamborete pode ser um desafio para as nossas escaladas de notoriedade. Somos uma espécie contagiada pelo sentimento de elevação e reconhecimento.
Paulo percebendo por inspiraçãodo Espírito Santo a tendência inata de celebridade que contamina a nossa alma, investiu pesado no imperativo que nos identifica com o desapego demonstrado por Cristo. Tende em vós a mesma (vqÁmgla - frónema) mentalidade que Cristo encarnava. Era uma maneira de pensar contrária ao sentimento de ascensão desencadeado no Éden, e que se caracterizava pelo desprendimento.
O apóstolo toca na questão central da coesão na Trindade e o ponto nevrálgico da unidade na igreja. O Deus trino vive em plena harmonia porque cada uma das pessoas da Trindade procura promover a excelência do outro. Não existe no Conselho Divino uma disputa de poder, nem um jogo de interesses pessoais. O pensamento de Cristo aqui, por exemplo, é se esvaziar de sua posição gloriosa para que o propósito do Pai em relação ao ser humano rebelado pelo pecado seja alcançado.
Desapear de um pedestal de honra é coisa tremendamente difícil para gente apoucada, mas deve ser um sacrifício muito maior para o Criador do Cosmo ter que viver como uma criatura dependente de seres humanos arrogantes. O desapego de Cristo é um padrão bem arriscado para as nossas pretensões de superstar. Ter a mesma disposição mental e a mesma renúncia que houve em Cristo é complicado para uma turma que tem aspirações ao topo da hierarquia. O holofote nos atores sombreia a glória do Cordeiro.
A fé cristã é a expressão do esvaziamento de Deus para salvar o ser humano de sua presunção de ser deus. Cristo se esvaziou de suas prerrogativas celestiais, sem, contudo, perder a sua natureza divina, para poder nos libertar de nossa tendência ao pódio. Ele desceu os degraus do altar supremo para nos alcançar ao rés-do-chão com a bacia e a toalha, a fim de limpar os nossos pés da menor poeira que nos projete à grandeza. A medida de Cristo é: quem quiser ser o primeiro entre vós será vosso servo; Mateus 20:27.
O sentimento que Paulo propõe para os crentes é também de esvaziamento, sob o padrão do procedimento de Cristo, pois ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; Filipenses 2:6. Cristo não se agarrou aos direitos que tinha como Deus, mas desceu do degrau de ser Supremo para se tornar uma criatura.
Cristo saltou do patamar de Deus para o estrado de servo. Este foi um pulo de redução inimaginável, pois o absoluto na dimensão de servo não pode ser concebido por uma mente finita e soberba. Mas foi exatamente isso o que aconteceu quando antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana. Filipenses 2:7.
O Senhor do Universo agora se tornou um servo das suas crias. O Criador na estatura da criatura é uma aberração para a nossa empáfia, mas esse é o calibre que ele sugere para nós. Pois qual é maior: quem está à mesa ou quem serve? Porventura, não é quem está à mesa? Pois, no meio de vós, eu sou como quem serve. Lucas 22:27.
De Deus para servo e de servo para homem. Cristo desceu um pouco mais quando saiu da condição de uma criatura espiritual, como os anjos, e penetrou no terreno da encarnação humana. A diminuição do Criador aos limites da criação já é um absurdo para nossa mente entender, todavia é maior contra-senso ainda admitir o Deus absoluto sendo humanizado. O Soberano Deus cheirando a suor é algo que choca a nossa compreensão.
Porém, o assunto tem proporções ainda mais desconcertantes quando este Deus humano resolve se submeter à morte. O Criador do Universo e Autor da Vida ficando refém da morte é algo impossível para a nossa reflexão. Mas a questão não chegou ao fim, pois a morte em que ele foi vítima é a mais vil que se pode conceber, e foi ele quem a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz. Filipenses 2:8.
Esta história do Deus que é Senhor; do Senhor que se torna servo; do servo que se encarna sem deixar de ser Senhor; do Senhor servo encarnado que assume a morte mais degradante que existe para libertar a criatura do sentimento de arrogância, é algo extraordinário que ultrapassa os limites de nossa razão e que nos deixa sem explicação para um gesto tão grandioso de amor incondicional. E é este o único modelo que Paulo pretende que os santos tenham para o desempenho da missão cristã neste mundo. Tenha em vocês o mesmo desprendimento que houve também em Cristo Jesus. Só existe uma alternativa para o discipulado: humilhação. Veja como Jesus agiu sem levar em conta uma passarela para se exibir perante a mídia.
Primeiro Cristo não se garantiu no sindicato divino apelando para os seus direitos vitalícios de Deus. Ele abriu mão das regalias sublimes da glória para assumir o propósito do Pai em salvar gente indigesta dominada pelo sentimento de amor-próprio e vanglória. Depois ele se esvaziou em degraus até chegar ao plano mais baixo que um ser pessoal pode chegar. O cadáver do Deus-Homem é a maior humilhação da divindade.
Este é o cálice que o apóstolo propôs para brindar a unidade do corpo. Se fizermos parte da igreja de Cristo nossa marcha será definida pelos efeitos da cruz. Como disse John Flavel, nenhum homem tem uma cruz de veludo. A teologia da crucificação precisa passar pela crucificação da teologia. Saber falar da obra da cruz não é a mesma coisa que viver como um crucificado. A vida no corpo de Cristo não é uma vida autônoma. Ao analisarmos o argumento bíblico percebemos que a Trindade se relaciona sob os efeitos de uma missão com submissão em comissão de comodato. Cada um aplica suas riquezas afetivas no outro, de tal modo que o prazer de um é tornar o outro realizado. Este molde é assinalado pela abdicação de si mesmo e pela glória do outro. Veja como Jesus apresenta a sua proposta. Porque eu desci do céu, não para fazer a minha própria vontade, e sim a vontade daquele que me enviou. João 6:38.
A igreja tem o mesmo modelo demonstrado no Conselho do Altíssimo. Por isso Paulo enfoca o estilo operante do viver cristão com esta versão de genuína abnegação: Não tenha cada um em vista o que é propriamente seu, senão também cada qual o que é dos outros. Filipenses 2:4. O que está em jogo é o aperfeiçoamento do corpo de Cristo.
Entretanto, para alcançarmos este status de conduta precisamos passar pelas implicações radicais da cruz. Embora, muitos de nós tenhamos um verniz teológico bem nítido da obra vicária do Cordeiro, faltam-nos os efeitos da morte de Cristo na vida cotidiana. Uma coisa é o discurso que sustenta a nossa morte com Cristo, outra, bem diferente é o curso da vida, levando sempre no corpo o morrer de Jesus, para que também a sua vida se manifeste em nosso corpo. 2 Coríntios 4:10.
Os atos visíveis são movidos quase sempre por atitudes invisíveis. Dar um pão ao faminto é um gesto generoso que pode estar sendo patrocinado por sentimentos interesseiros e necessidade de vanglória. Um desempenho elevado pode ter um motivo vil. Mas ninguém do lado de fora pode julgar criteriosamente os motivos. Precisamos da ação do Espírito Santo e da operação da cruz em nosso íntimo.
Ananias e Safira estavam participando da contribuição na igreja em Jerusalém com distorção interior. Ainda que eles não demonstrassem defeito de conduta, havia embuste na intenção que só o Espírito Santo poderia detectar. O fato de alguém parecer bem intencionado não significa que ele esteja sinceramente participando do reino de Deus.
A humilhação é um caminho muito doloroso para desmanchar todas as impressões de nosso ser. Muitas vezes nós estamos francamente enganados com os nossos sentimentos e precisamos de uma operação da graça para nos fazer desestimar de nós mesmos. Uma das áreas mais golpistas na vida cristã é o orgulho espiritual. Disse-lhe Pedro: Ainda que venhas a ser um tropeço para todos, nunca o serás para mim. Mateus 26:33.
A sobranceria travestida de humildade é uma das camuflagens mais difíceis de serem desmascaradas. A arrogância espiritual muitas vezes vem vestida em andrajo. Uma aparência modesta pode esconder um déspota. Há muito serviço que serve apenas para negociar os escravos, por isso precisamos da operação cotidiana da cruz em nossas vidas. A marca do verdadeiro discípulo é a manifestação da vida de Cristo no seu íntimo, depois do tratamento da cruz. Porque eu, mediante a própria lei, morri para a lei, a fim de viver para Deus. Estou crucificado com Cristo; logo, não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim. Gálatas 2:19-20.
A unidade do corpo de Cristo é um efeito da cruz. Sem a morte do velho homem juntamente com Cristo bem como levar diariamente o morrer de Cristo em nosso corpo não é possível promover a integração dos membros na verdadeira unidade. É imperioso desconstruir pela obra da cruz toda e qualquer ambição pelo poder e pela glória pessoal. No Reino de Deus não pode haver lugar de destaque para nenhum discípulo de Cristo.
Aquele que atua no seio da igreja de Cristo percebe que nada é banal, vulgar ou insignificante quando tudo é feito para a glória de Deus e a edificação do corpo de Cristo, que é a igreja. Nenhuma ambição deve nos estimular neste mundo, senão aquela que glorifica o Cordeiro e edifica as ovelhas do aprisco do Senhor, com singeleza de coração. Por esse motivo, o mesmo sentimento de esvaziamento que Cristo apresentava e a mesma humilhação que ele provava precisam ser experimentados na vida dos seus verdadeiros discípulos como expressão legítima da sua identificação com Cristo. Sem os sinais da cruz na experiência diária do cristão não haverá garantia da realidade espiritual e verdadeira integração de todos os membros do corpo. Ó Pai! Esvazia-nos de nós mesmos.

A RELEVÂNCIA DA RECONCILIAÇÃO


A RELEVÂNCIA DA RECONCILIAÇÃO
Por: Glenio Fonseca Paranaguá

A reconciliação é um programa da administração divina. Deus é quem toma a iniciativa da harmonização das partes ao tornar-se confinante com o fugitivo, a fim de poder aproximar-se dele. Primeiro Deus se achega ficando bem perto do pecador rebelde para em seguida atrair o seu coração para ele mesmo.
Eu só posso buscar a Deus realmente porque ele se aproximou da humanidade e se revelou na dimensão do meu entendimento. Ninguém consegue buscar um Deus absoluto e invisível, escondido nas nuvens do desconhecido, se ele mesmo não se manifestar dentro dos limites da nossa abrangência racional. Mesmo antes da encarnação do Verbo divino foi necessário ouvir a voz de Deus para iniciar a aproximação. E chamou o SENHOR Deus ao homem e lhe perguntou: Onde estás? Gênesis 3:9.
O pecado separou a humanidade de Deus tornando-a desertora. A história da nossa raça é um assunto de evasão e invasão. Evadimos da presença de Deus e invadimos o mundo dos esconderijos. Somos uma espécie apavorada que vive de máscaras procurando labirintos e escondida em tangas e tocas construídas pela religião. Ele respondeu: Ouvi a tua voz no jardim, e, porque estava nu, tive medo, e me escondi. Gênesis 3:10.
Não foi o pecador sentenciado pela desobediência e estigmatizado pela culpa quem deu o primeiro passo em direção ao encontro. O pecado nos encheu de arrogância e nos fez autônomos em relação ao Criador. No fundo da nossa alma há uma aversão contra Deus que nos deixa indispostos para com ele. Por isso, o pendor da carne é inimizade contra Deus, pois não está sujeito à lei de Deus, nem mesmo pode estar. Romanos 8:7.
O ser humano nunca iria se reconciliar com Deus por conta própria. A reconciliação é um empreendimento da graça de Deus, que se tornou impecavelmente concreto na encarnação de Cristo. Foi justamente no corpo de Jesus que Deus e a humanidade ficaram vizinhos na mesma pessoa. As duas naturezas, divina e humana, unidas numa mesma pessoa é o mais próximo de Deus que se pode chegar. Buscar ao Senhor enquanto está perto é encontrar-se com Deus em Jesus.
Cristo Jesus é a aproximação de Deus mais achegada ao ser humano que se pode ter. Quando as duas naturezas se encontram numa única pessoa sem qualquer alteração na essência ou redução na identidade, temos o milagre de um acordo que vem promover a amizade eterna entre as partes. A união da divindade com a humanidade é a reunião de conciliação onde são desfeitos os efeitos da hostilidade do pecado.
A reconciliação que desfaz a desavença não vem acusando o culpado. Ainda que o pecador seja o responsável pelo desacordo, Cristo não incrimina o réu. A mensagem do evangelho apresenta a parte ultrajada vindo em busca daquela que afrontou sem qualquer incriminação. Na verdade, Cristo, a parte afrontada, vem assumindo a culpa do culpado e oferecendo o seu perdão incondicional sem acusá-lo por causa do seu tropeço.
Jesus não envergonha o pecador por seu pecado, antes assume a vergonha do transgressor, sem, contudo, culpá-lo por sua transgressão. O perdão só é verdadeiro perdão quando aquele que perdoa assume a conta do devedor pagando-a integralmente, sem acusá-lo pela dívida, nem cobrá-lo posteriormente.
O perdão não é dado ao pecador em decorrência do seu arrependimento, mas este passa a existir em razão daquele. O arrependimento do sujeito não produz a reconciliação com Deus, uma vez que é o perdão de Cristo que gera o arrependimento, e ao mesmo tempo, a reconciliação. Ora, tudo provém de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo e nos deu o ministério da reconciliação, a saber, que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões, e nos confiou a palavra da reconciliação. 2 Coríntios 5:18-19.
Cristo levou sobre si os pecados dos pecadores e não jogou em rosto a culpa dos culpados. A vergonha dos nossos atos lhe fora imputada, mas ele não nos envergonhou atirando sobre nós a nossa infâmia. A reconciliação não agita a sujeira decantada, nem sopra sobre a carniça para espalhar o mau cheiro. O Espírito Santo não assopra corrupção. O Pai assume a desmoralização do pecador e imputa a sua justiça através de Cristo.
A reconciliação, portanto, parte do Pai que resolve assumir os pecados dos pecadores mediante a morte de seu Filho, sem fazer qualquer acusação contra os transgressores mais indignos. Todo sistema de denúncia e incriminação não faz parte da obra da redenção. A acusação é papel do Maligno e de sua tropa. Então, ouvi grande voz do céu, proclamando: Agora, veio a salvação, o poder, o reino do nosso Deus e a autoridade do seu Cristo, pois foi expulso o acusador de nossos irmãos, o mesmo que os acusa de dia e de noite, diante do nosso Deus. Apocalipse 12:10.
Na visão bíblica, a delação é um papel sujo do acusador. O Espírito Santo nunca recrimina o implicado a fim de aviltá-lo, nem expõe ao ridículo a feiúra do culpado. Ainda que ele convença o réu da sua terrível infração, não é do caráter divino a censura pública dos pecadores. O Advogado do evangelho não faz exigências que maculem os seus clientes. Jesus jamais defendeu o doloso realçando ao espectador a sua falcatrua.
A reconciliação promovida pelo Pai não vem instigada por qualquer fórmula de repreensão ou acusação. Na verdade Cristo assume a censura do acusado e levando sobre si a pena do pecador não o bombardeia de queixas ou ensaboadelas. A obra da redenção não salienta a vileza inegável do fraudulento diante dos outros, uma vez que toda a sua culpa recai sobre o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.
Olhando para a seriedade do julgamento onde Cristo Jesus foi condenado é que nós podemos perceber a gravidade do nosso pecado. Ao observar a truculência da sentença vemos a magnitude da nossa transgressão, mas vemos também que não há qualquer acusação da parte de Deus para nos enrubescer.
Todo aquele que procura acusar um infrator não consegue promover uma verdadeira reconciliação. A argüição em si mesma só fomenta resistência, ocasionando ainda mais desavença. Por esse motivo, todo arrependimento genuinamente cristão tem que ser a rigor livre de apelações e denúncias. Ou desprezas a riqueza da sua bondade, e tolerância, e longanimidade, ignorando que a bondade de Deus é que te conduz ao arrependimento? Romanos 2:4.
O remorso, normalmente, é fruto de uma descoberta. Quando alguém é apanhado com a boca na botija, se tem algum senso moral, com freqüência fica cabisbaixo. O fato de ter sido desvendado o acontecimento acaba gerando vergonha e remorso. Mas o arrependimento, primeiramente, não significa acabrunhamento moral. O que leva o pecador a se arrepender é a bondade incondicional de Deus.
Na obra da reconciliação com Deus há um desgosto que é a causa da contrição, mas isto não quer dizer vexame. O Pai não encabula o filho afrontando-o diante dos outros, mesmo porque a tristeza segundo Deus produz arrependimento para a salvação, que a ninguém traz pesar; mas a tristeza do mundo produz morte. 2 Coríntios 7:10.
Sendo assim, buscar ao Senhor enquanto está perto é buscar o Deus que nos buscou em seu amor eterno. Nós só podemos buscá-lo porque ele nos buscou primeiro. Ele se tornou adjacente ao homem na encarnação ao receber a natureza humana, e mais achegado ainda na crucificação, quando tomou sobre si também os nossos pecados. Aqui nós temos a perfeita identificação do Salvador com o pecador trazendo a libertação da culpa.
Toda a operação que nos reconcilia com Deus foi realizada pela Trindade Santa mediante o sacrifício de Cristo. Embora tenhamos parte nesse processo, essa participação vem através da nossa natureza pecadora e dos seus pecados, por isso não temos nenhum direito. Porque, se nós, quando inimigos, fomos reconciliados com Deus mediante a morte do seu Filho, muito mais, estando reconciliados, seremos salvos pela sua vida; e não apenas isto, mas também nos gloriamos em Deus por nosso Senhor Jesus Cristo, por intermédio de quem recebemos, agora, a reconciliação. Romanos 5:10-11.
A rebeldia do pecado nos fez inimigos de Deus, mas a obra perfeita de Cristo nos reconciliou com ele para que sejamos também agentes da reconciliação. De sorte que somos embaixadores em nome de Cristo, como se Deus exortasse por nosso intermédio. Em nome de Cristo, pois, rogamos que vos reconcilieis com Deus. 2 Coríntios 5:20.
Os embaixadores do Reino de Deus não são acusadores da vida alheia, muito menos jogadores politiqueiros. O papel de um diplomata de Cristo é falar a mensagem da redenção com o sotaque do céu. Os filhos de Aba não abonam qualquer tipo de conversa maledicente, nem fazem parte do correio de más notícias. O discurso desse corpo diplomático é construído no sentido da reconciliação dos pecadores através da suficiência de nosso Senhor Jesus Cristo.
Do mestre de canto sobre a ária “os lírios”, dos filhos de Coré, o salmista diz: És os mais belo dos filhos dos homens, a graça escorre dos teus lábios, porque Deus te abençoa para sempre. Salmo 45:3 (BJ). A linguagem dos filhos abençoados de Deus é o fluir gracioso da reconciliação dos sublevados e da edificação de sua família. Nenhum membro da casa do Amor tem direito de falar a lengalenga que ofende os trôpegos ou fere os sarados. Cristo se tornou próximo para nos reconciliar com o Pai, e nós somos agora os embaixadores da reconciliação para com todos os eleitos da graça. Bendito sejam os reconciliados que vivem para o ministério da reconciliação

BANQUEIROS DE ESPERANÇA


BANQUEIROS DE ESPERANÇA
Por:
Glenio Fonseca Paranaguá


O Deus da esperança vos encha de todo o gozo e paz no vosso crer, para que sejais ricos de esperança no poder do Espírito Santo. Romanos 15:13.
Nos últimos dias do ano 2000, no último ano do século XX, quase no início do 3º milênio do calendário cristão, precisamos fazer uma avaliação adequada de nossa história e de nossa perspectiva. O homem, como um ser que começou registrar a história, tem mais de quatro mil e quinhentos anos. E a história registrada pelo homem tem cerca de seis mil anos. Durante os quatro mil anos de história bíblica, antes de Cristo, havia um perfil marcado pela esperança de um Salvador que viria à terra. A seta da expectativa sempre apontava para o Redentor da humanidade. A principal ênfase da mensagem do Antigo Testamento sinaliza para a chegada de um Messias, a fim de restaurar o drama da raça. A natureza da esperança é esperar no que a crê. Havia uma promessa de Deus que acendia o fogo da fé e que mantinha sempre inflamadas as chamas da esperança. O povo de Israel andava movido pela expectação de um Rei, que aguardavam como o seu Libertador. Os holofotes da história apontavam para o advento deste Soberano.
Mas, o Rei chegou numa dimensão muito reduzida. Veio como plebeu, pária e pobre. Não nasceu em palácio, mas em curral de ovelhas. A sua presença foi ignorada pelos grandes. Era simples demais para ser reconhecido. Ele não veio como o Soberano Governador das Nações mas como o servo menor de todos os homens pequenos. Seu manto real era uma toalha, cingida como avental, para enxugar os pés sujos de pescadores iletrados. Sua coroa foi trançada com os cipós de espinheiros e o seu trono foi erguido numa cruz rude e mesquinha. Ele não tinha aparência nem formosura; olhamo-lo, mas nenhuma beleza havia que nos agradasse. E, como um de quem os homens escondem o rosto, era desprezado, e dele não fizemos caso algum. Isaías 53:2b-3b. Ele era escandalosamente modesto para ser aceito como Rei. O reino de Deus é paradoxal. G. Campbell Morgan disse que todos os tronos de Deus são alcançados descendo-se as escadas. Neste reino, o altar fica no porão; os maiores são os menores; os primeiros são os últimos; os importantes são as criancinhas. A maneira correta de crescer é crescer menos aos seus próprios olhos.
A esperança de Israel foi desprezada. Nada poderia ser mais quixotesco do que este Rei humilhado, sem espada, sem exército e montado em jegue, caminhando sem qualquer resistência para o encontro da morte. Olhando do ponto de vista político, a atitude de Judas é justificável. Ele encontrava-se decepcionado com o seu líder fracote. Que Rei é este que não defende os seus súditos? Assim, o bando todo se dispersava. Jesus foi um fiasco como chefe de uma revolução política. Que decepção! A tristeza tomou conta de todos os discípulos de Jesus, depois de sua morte. E, partindo ela, foi anunciá-lo àqueles que, tendo sido companheiros de Jesus, se achavam tristes e choravam. Marcos 16:10. Dizem que a esperança é a última que morre. Mas os discípulos já tinham perdido a esperança. A morte tinha colocado uma pedra no assunto. Não havia mais alternativa. O maior sinal da derrota é quando já não se espera mais pela vitória. Ora, nós esperávamos que fosse ele quem havia de redimir a Israel; mas, depois de tudo isto, é este o terceiro dia desde que tais coisas sucederam. É verdade também que algumas mulheres, das que conosco estavam, nos surpreenderam, tendo ido de madrugada ao túmulo; e, não achando o corpo de Jesus, voltaram dizendo terem tido uma visão de anjos, os quais afirmaram que ele vive. De fato, alguns dos nossos foram ao sepulcro e verificaram a exatidão do que disseram as mulheres; mas não o viram. Lucas 24:21-24. Eles estavam rendidos aos fatos da morte. Tirando-se a esperança ao peregrino, ele perderá a alegria para a caminhada. Os discípulos encontravam-se paralíticos na fé e sem qualquer perspectiva de esperança no caminho da verdadeira vida.
Somente a revelação de Jesus Cristo ressuscitado pode restaurar a esperança nos corações dos seus seguidores. A grande mensagem do cristianismo vem do jardim do túmulo. Por que buscais entre os mortos ao que vive? Ele não está aqui, mas ressuscitou. Lucas 24:5b-6a. Depois da tarde negra da Sexta-feira cinzenta, só a radiante manhã do Domingo da ressurreição pode causar reboliço. Que pregação alvissareira! A morte foi tragada pela vitória. A esperança ressurgiu da sepultura. O fênix reviveu das cinzas. A caixa de Pandora é a boca aberta da tumba vazia. O sinal de nossa é uma cruz vazia e um túmulo vazio. Ele não está aqui, mas ressuscitou. Jesus Cristo ressuscitou e trouxe uma nova alternativa para o gênero humano. A escravidão da morte foi banida pelo poder da vida ressuscitada. Graças a Deus existe em nós vida ressurreta, e aguarda-nos uma manhã de ressurreição, insiste J. J. Bonar. Não há mais cemitério para a fé cristã. Não existe mais o pavor da morte. Nosso futuro é tão radiante quanto a manhã da ressurreição. Não há sombras nem nuvens carregadas neste céu primaveril. A vereda dos justos é como a luz da aurora, que vai brilhando mais e mais até ser dia perfeito. Provérbios 4:18.
O cristianismo é, antes de qualquer coisa, a pregação da vida que veio da morte. É a vida ressuscitada que faz a diferença. Não falamos de uma vida que vai morrer, mas de uma morte que foi tragada pela vida. Falamos da esperança, quando já havíamos perdido toda a esperança. A história do homem Jesus de Nazaré não terminou com um funeral, mas com uma celebração no júbilo da ascensão. Os discípulos não ficaram com a cabeça baixa procurando uma sepultura no chão, mas com os olhos erguidos aos céus contemplando a vitória do Rei exaltado. O Evangelho não trata de esqueleto nem de exumação de cadáver. Não se fala de defunto nem de mortalha. Fala-se da vida que triunfa sobre a morte. Quando o vi, caí a seus pés como morto. Porém Ele pôs sobre mim a sua mão direita, dizendo: Não temas: Eu sou o primeiro e o último e aquele que vive; estive morto, mas eis que estou vivo pelos séculos dos séculos e tenho as chaves da morte e do inferno. Apocalipse 1:17-18. Jesus não é apenas um vivo que morreu, mas um que esteve morto e vive para todo o sempre. O velho provérbio diz: Onde vida, esperança. Jesus é a vida. Jesus é a única esperança dos homens.

A igreja tem vivido estes dois mil anos de história na certeza da esperança viva, de um Salvador vivo, que prometeu dar-lhe vida e vida em abundância. A igreja vive na convicção da vida eterna, que lhe foi outorgada na ressurreição de Cristo e na esperança da ressurreição do corpo, quando do encontro com o Senhor nos ares. A igreja nutre-se de esperança da ressurreição e, na esperança, ela caminha com toda a confiança, sem olhar as circunstâncias. Porque, na esperança, fomos salvos. Ora, esperança que se não é esperança; pois o que alguém vê, como o espera? Mas, se esperamos o que não vemos, com paciência o aguardamos. Romanos 8:24-25. Sem esperança não há fé cristã legítima. Mesmo quando o beco parece sem saída, há sempre um atalho de Deus para os que esperam nele e assim, a esperança consegue ver o êxito através das densas muralhas. Não é possível imobilizar um homem que está cheio de esperança. Não há crise capaz de estagnar o ânimo resultante da vida ressurreta, pois a esperança jamais contabiliza fracassos. O reino de Deus não pertence aos vesgos que olham para trás. Não encontramos estátuas de sal no caminho para os céus, pois o Pai nos regenerou para uma viva esperança, mediante a ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma herança incorruptível, sem mácula, imarcescível, reservada nos céus para vós outros. 1Pedro